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Escrever para existir: Gabriel Soares e sua Agenda do Impossível

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 3 horas
  • 26 min de leitura

I.

Recebo o PDF de Agenda do Impossível (Zain, 2026), de Gabriel Soares. Passo os olhos rapidamente pelo release e pela capa e acredito, fielmente, que conseguirei terminá-lo em uma semana. Anoto algumas informações no caderno e aviso à Flora que, após a conclusão da leitura, podemos agendar uma conversa. Converto o arquivo para mobi e coloco no Kindle. Desconecto o cabo e sigo com as pendências do dia. À noite, ao desligar o computador, avisto a cômoda com os livros que estou lendo. Percebo que o prazo estipulado não será cumprido: Zambra está na frente - preciso saber se Gonzalo reencontra Vicente.


gabriel soares agenda do impossível
(Créditos: Felipe Martins)

II.

Começo a leitura da obra. "Existem ao menos dois mundos: o meu mundo e o mundo que vai continuar existindo quando eu deixar de existir." A morte está presente de diferentes maneiras, o que me faz questionar o tabu que envolve o tema. Quando entendemos o significado da morte? Quantas mortes viveremos enquanto estivermos vivos? Susan Sontag vem à minha mente, ela tinha pavor da morte; não queria morrer. Em seu livro, Gabriel relata experiências que também carregam seus próprios lutos: términos de relacionamentos, perdas, mudanças e um dia a menos vivido. Faço observações no caderno que me acompanha e sigo a leitura. Agenda do Impossível não é um diário por não conter datas, mas também é um diário por relatar momentos da vida de seu autor. Debato sobre o gênero com um amigo e chegamos a uma conclusão curiosa: um diário não precisa necessariamente de datas, mas costumamos reconhecê-lo por elas. A obra, porém, escapa dessas definições rígidas mesmo reunindo fatos, reflexões e anotações dispersas. Um antidiário é, de fato, a melhor definição.


III.

Agora que terminei Poeta Chileno, dou atenção total a Agenda do Impossível, deixando os demais livros de lado. A obra traz literatura, música, vinhos, estradas, memórias e filmes. É uma espécie de biografia sem informações sobre nascimento, nome dos pais ou infância. Ainda assim, permite conhecer um pouco de Gabriel para além da Atalhos. Mais do que registrar experiências, o autor faz da literatura uma forma de habitar o mundo, de organizar o caos dos dias e atribuir sentido ao que parece disperso. O livro se revela como um ensaio existencial pé-na-estrada, rascunhado a partir de um movimento solitário. Ou como o próprio escritor define, "a tentativa de escrever a própria vida, não apenas sobre a própria vida, (...) uma autobiografia ativa."


"(...) Como um homem adormecido durante muito tempo no fundo de um poço, acordei e agora posso contemplar face a face a luz do sol. Não é amadurecimento, como supus antes, a sensação que me invade - é a plenitude. (...)"

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IV.

Chego à Feira do Livro, caminho por alguns estandes e compro um livro sobre jazz e um chope. Após andar pela Praça Charles Miller, sento-me para ler uma fofoca que uma amiga me mandou. No meio da leitura, ouço meu nome e me pergunto mentalmente se é comigo mesmo. Levanto a cabeça, ainda querendo saber o desfecho da história, e vejo Flora e Gabriel. Ignoro as mensagens e me junto a eles. Flora pergunta se já nos conhecíamos. Respondemos que sim: no 74Club, em Santo André, durante um show da Atalhos e Pedro Lanches, uma noite depois de uma bebedeira, responsável por uma ressaca terrível. Minutos depois, me sento no Tablado Bubu para ouvir a dupla. Enquanto Gabriel fala sobre o processo de escrita, lembro de algumas passagens do livro, das conversas anteriores que tivemos e de algumas canções de sua banda. Ao final, quando o microfone é aberto para a plateia, Sérgio Molina, responsável pela orelha do livro, faz provocações interessantes ao escritor. Ele me arranca alguns sorrisos e também algumas ideias para a futura conversa que pretendo ter com Gabriel. Faço duas anotações no celular: "o valor do livro é o entusiasmo" e "tentar ser inteligente como Sérgio (devo falar sobre o gênero diário?)"

Recebo o livro com dedicatória - ainda não lida - e trocamos algumas palavras. Me perguntam se vou ao show da Atalhos no Bar Alto e solto um "se eu tiver viva…", em alusão à morte que atravessa o livro. Dois segundos depois, me arrependo da piada sem graça e quero fugir dali - consequências da timidez e do nervosismo. Despeço-me de todos e vou em busca de novos possíveis livros. Ao chegar ao estande do Terreno Estranho, pego uma edição de Sing Backwards and Weep – Memórias e começo a rir. A livreira pergunta se está tudo bem, já que o livro, aparentemente, não tem nada de engraçado. Respondo que está tudo ótimo e que a risada é apenas resultado da vergonha acumulada. Dou boa noite e vou embora. Conto brevemente para a amiga da fofoca o que aconteceu. Ela responde com uma figurinha de julgamento e me relembra que, durante a pandemia, quando o desalinho surgiu, eu era mais cara de pau. Era consequência da morte rondando todos nós. 

Ao chegar à estação Barra Funda, decido trocar o trem pelo ônibus 493. O trajeto é mais longo e me dá a oportunidade de continuar a leitura. Sento perto do motorista, que mantém os olhos atentos à paisagem. Quando chegamos à Avenida Goiás, divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul, a rua está vazia, o motorista acelera e buzina, fazendo graça. Sem que eu pergunte, ele me conta que o trajeto será rápido porque há poucos carros e ele pode correr. No livro, Gabriel Soares escreve sobre correr pelas estradas que percorreu. Consigo ler apenas 23 páginas, pois o motorista voou.


V.

Terminei o livro e enchi uma página do caderno de observações. Luto para decifrar minha letra miúda e passo a limpo o que mais me chama atenção. Separo algumas passagens para nossa futura conversa e, em seguida, abro o calendário para verificar as datas. Envio um e-mail com duas opções de horário. Enquanto espero a resposta, penso nas referências do autor, que vão de Ricardo Piglia a Thomas Bernhard, de Michel Houellebecq a Friedrich Nietzsche. Relembro também um momento em que a filosofia cede espaço à emoção: o longo relato sobre Copperfield, um gato resgatado das ruas. O episódio rompe o formato aforístico predominante para construir uma narrativa de fracasso, compaixão e impotência. Funciona, ainda, como uma síntese da visão de mundo presente na obra: a tentativa humana de salvar aquilo que inevitavelmente escapa ao nosso controle. O gesto de cuidar do animal não elimina a precariedade da vida, mas revela que a dignidade talvez resida justamente na persistência da tentativa.  

Conversa marcada para a próxima segunda-feira às 11h.


Quando que você começou a escrever o livro? O que que te motivou a escrevê-lo? 

Esse livro, na verdade, já faz aqui uns oito anos [que escrevi], né? Porque demorou também pra ele ser publicado, né? Até a gente encontrar a editora certa pra fazer, todo o trâmite, o tempo que leva. Então, assim, foi um processo... Comecei com o meu primeiro livro lá, o As Madeleines das Freiras foi em 2015 e depois eu lancei Cidade Pequena (2018), que eu contei um pouco no lançamento da Feira do Livro, que foi um catadão que eu fiz dos textos e resenhas que eu tinha escrito pro jornal de Birigui da época em que eu colaborava com eles, depois o jornal faliu e aí eu fui… Eu continuei escrevendo, mas como exercício mesmo, fazendo uma resenha. E lá naquele livro, no Cidade Pequena, eu descobri que, na verdade, era um pretexto… Aqueles comentários de leituras, as resenhas, eram só um pretexto pra eu falar de mim mesmo, sabe? Então acho que ali eu já fui meio que desenvolvendo aquela coisa autobiográfica bem forte. E aí depois eu comecei, sem muita pretensão, a escrever esse novo livro, Agenda do Impossível, que até esse ano, ou no finalzinho do ano passado, praticamente não tinha nem título. Ele já estava mais ou menos pronto, mas não tinha um título ainda. Ficou durante muitos anos sem título esse livro. E aí eu vou te contar depois também como é que a gente chegou nele e tal. Mas aí eu comecei a escrever ele sem muita pretensão, foi abrindo os números dos fragmentos, né? Mas como exercício também, de poder comentar as coisas que eu estava vendo, as viagens que eu fazia, alguns pensamentos que me vinham à cabeça quando eu estava em algum lugar da vida, eu ia lá, anotava, depois eu passei pro computador e lá, quando eu vi que já estava com 70, 80 páginas de word, aí eu parei um pouco pra reler tudo que eu tinha escrito e aí eu comecei a entender um pouco que ele tinha uma estrutura já de livro, de que eu poderia avançar. Aí, a partir de então, eu fui escrevendo, mas não escrevia todos os dias também. Por isso que eu falo que eu não queria ser um diário, né? Eu não dato, não coloco, não escrevia todos os dias. Mas foi um processo, assim, que durou acho que uns 5, 6 anos… Até mais pro final do livro você vê lá que já vai entrando numa parte meio da pandemia, o livro vai ficando mais político também, porque eu não podia deixar de escrever sobre isso também porque o livro trata muito sobre as coisas que eu estou vivendo naquele momento da vida, do ambiente que está acontecendo ao meu redor. 

Eu fui escrevendo e aí chegou um momento em que eu realmente quis colocar um ponto final porque é um tipo de livro que eu poderia seguir indefinidamente, né? Se eu quisesse seguir escrevendo até hoje comentando as leituras que eu tenho feito até hoje, as novas relações, os lugares onde eu estou… Então, eu me forcei ali para colocar um ponto final, até porque depois eu comecei a escrever outra coisa também, com outra estrutura e tal. Mas, enfim, é um processo que demorou uns 5 anos, bastante longo até, para se realizar. E depois também mais uns 3 anos, pelo menos, até conseguir achar a editora, conseguir os contatos e finalmente conseguir a publicação dele. 


Mesmo não sendo um diário, por que você escreve? Você escreve para não esquecer? 

Por exemplo, tem uma parte do livro que eu escrevo sobre os comentários das leituras que eu faço. Eu tava lendo muita coisa, acumulando muita leitura. E aí, de repente, se eu não escrevesse alguma coisa, se eu não colocasse ordem naquilo que eu estava recebendo de informação e conhecimento, parecia que eu não tinha lido. Então, eu senti meio que uma necessidade individual mesmo de organizar o pensamento, às vezes, escrever um pouco sobre o livro que eu tinha acabado de ler… E a maioria dos livros está muito fresco na memória do momento que eu tô escrevendo, sabe? Não é um livro de pesquisa, não é uma coisa que eu fui catando vários livros ou trechos e fragmentos de livros que eu não li inteiro para criar uma tese ou um trabalho acadêmico, nem nada… Então, é um esforço de autodidata mesmo que eu sou. E todos os livros que eu comento ali são livros que eu li inteiro e provavelmente estava escrevendo no momento em que eu tava trabalhando. Então, tava muito fresco ali e eu senti essa necessidade de colocar ali, de organizar as ideias mesmo e colocar ali. E, ao mesmo tempo, depois que eu pensei, quando eu me dei conta que seria um trabalho já para publicar, que seria um livro, eu imaginava esses comentários de leituras também como uma coisa de querer compartilhar o entusiasmo que eu tinha ao ler essas obras e tudo. Então, eu queria compartilhar o efeito que elas estavam me dando e que eu poderia emprestar aos leitores que estavam lendo. Tem muito livro lá, muita citação de livro, muita coisa, mas é de uma perspectiva muito genuína e também generosa no sentido de compartilhar mesmo o que eu estava recebendo e não de querer enfeitar o texto, nada disso. 


Em um determinado momento você escreve que "não sou; vou sendo." Achei muito bonito e me fez refletir: até que ponto a escrita ajuda a construir uma identidade? Você é quem você é hoje pela escrita, pela literatura e pela música também? 

Ah, não tenha dúvida. Eu acredito nisso, na construção de uma existência e não simplesmente receber alguma coisa que já vem pela essência e que você simplesmente coloca para fora e reproduz. Então, eu acredito muito na construção individual, especialmente na formação. Então, vários livros que eu já li, os livros que eu mais gosto são livros que o personagem está naquela fase da formação de um personagem, na formação do caráter… Você pega A Montanha Mágica [de Thomas Man], por exemplo, é um livro de formação, é um romance de formação que os alemães chamam de bildung. Não sei nem como pronunciar, mas o bildung é a formação através dos livros, através da literatura também. Eu escrevo bem menos do que eu leio, eu leio muito mais do que eu escrevo. Agora, que eu consegui publicar esse livro, estou levando mais a sério, estou escrevendo mais. Eu acho que, sem dúvida, [a literatura] na formação me ajuda muito. A literatura, tudo que eu estou lendo, o que eu estou consumindo de literatura, ao mesmo tempo fazendo música também, eu acho que isso tem um impacto direto na construção do meu caráter, da minha personalidade. Foi o que eu falei lá no lançamento do livro, na Feira do Livro, eu vejo a literatura como um recurso existencial mesmo, no sentido ativo, tem um papel ativo na minha vida. Eu acho que também para os leitores que estão lendo esse meu livro, eles conseguem entender bem isso - uma coisa que está intrincada ali, às vezes até meio que se confunde, o que é a minha vida, o que é a literatura, mas ao mesmo tempo acaba sendo uma coisa só ali, que está o tempo inteiro ali me ajudando a interpretar mesmo, como se fosse uma hermenêutica da existência. O que eu estou vivendo lá, eu estou interpretando, reinterpretando com os livros ou coisas que aconteceram no passado, eu vou e busco na memória, através de um livro que eu li, que eu acabei de ler, que me iluminou uma coisa, que eu fui entender o que aconteceu comigo, agora, lendo tal livro, é sempre uma construção ativa, um movimento.

Você falou do “não sou; vou sendo”, eu acho que é muito isso também, do movimento em si, dessa construção e desse sair de si, que o Hegel fala, que eu coloco também lá no final do livro, quando eu leio o livro dele, que é você sair de si, ir em direção ao mundo, em direção ao outro, negar esse outro, negar o mundo, e aí você volta para si, para se reconciliar consigo mesmo. E esse eterno movimento de você sair do seu eu, ir em direção ao outro, receber isso, depois voltar para si. É uma coisa de eu vou sendo, eu estou caminhando enquanto estou vivo, é uma construção ativa que não para, vai junto com o tempo é uma coisa que vai se retroalimentando. 


gabriel soares agenda do impossível
(Créditos: Filipa Damião Pinto)

Você revela logo no início do livro o porquê do título ser Agenda do Impossível, porque é uma agenda própria, que não é imposta e tal. Existe a possibilidade dessa liberdade nos dias atuais? 

A liberdade é uma questão, pela perspectiva existencial, como o Sartre fala, você está condenado a ser livre. Então, o impossível também que eu coloco lá no livro tem um pouco a ver com isso, tem um pouco a ver com o absurdo também, são só palavras e conceitos, às vezes diferentes, mas que tratam da mesma coisa. A angústia que o Heidegger fala, por exemplo, para mim, é a mesma coisa que o absurdo que o Camus trata. A liberdade que o Sartre fala, talvez seja quase a mesma coisa do absurdo do Camus ou da angústia do Heidegger que nada mais é do que você ter a consciência de que o seu tempo é finito. Como diz o Heidegger, está lançado para a morte, que o seu tempo é finito e que você tem que ser responsável pelas decisões que você faz da sua própria vida, as escolhas que você faz e isso, ao mesmo tempo, é uma… Por exemplo, a gente fala sobre liberdade, mas o Sartre fala que você está condenado a ser livre. Então é como se fosse uma... Que liberdade é essa que te condena? É uma condição, a condição humana, pra quem não acredita no pensamento mágico ou pra quem não segue uma religião, para quem tem uma visão existencial mesmo da vida é uma coisa que, às vezes, não fecha. Então, a Agenda do Impossível é um pouco isso também, a busca do autêntico. Sabendo que nós estamos condenados à nossa liberdade, a gente tem que decidir, escolher da melhor maneira possível como viver uma vida autêntica, como construir uma existência pessoal, íntima, que seja verdadeiramente autêntica. Ainda mais nos dias de hoje, parece muito difícil ou quase mesmo impossível, porque a gente é impactado por tanta publicidade, pelo algoritmo, por tantas coisas que incutem na gente que quando a gente toma uma decisão, será que a gente já não estava pré-disposto a tomar porque a gente foi massacrado com tanta publicidade, com tanta propaganda, entendeu? Então, às vezes, no final, a decisão que a gente tomou, que a gente acha que é autêntica ou que é completamente original, na verdade, já foi influenciada por várias outras coisas que aconteceram durante os últimos tempos e que a gente não percebeu. A Agenda do Impossível é isso, diria até que meio irônico, meio cínico no bom sentido, de que é impossível você ter conseguido uma agenda dessa, ter uma existência que seja 100% autêntica, original, mas vale a pena a tentativa. A busca é o interessante e tentar trilhar esse caminho, ou pelo menos acreditar que está trilhando esse caminho, é o que faz a gente seguir, tentando buscar esse caminho, mesmo que seja impossível. 

Você conseguiu encontrar esse caminho ou conseguiu uma vida autêntica, ou ainda tá buscando? 

Eu acho que é impossível. Para ser bem honesto, uma vida 100% autêntica, eu acho que é impossível, através de tantas das coisas que influenciam a gente. Mas eu acho que a gente, pelo menos, pode se dar o luxo de tentar ou de dizer que está buscando essa vida autêntica. Então, eu acho que mesmo através da literatura, eu acho que estou conseguindo trilhar um caminho que, para mim, é muito especial. Através dos livros, através de tudo que eu li e que eu consumi, especialmente nos últimos 20 anos, eu acho que me abriram oportunidades e caminhos e iluminaram mesmo partes da cabeça que eu, sem a literatura, jamais teria conseguido iluminar ou abrir. Então, às vezes, eu acho que eu estava condenado a uma vida muito mais medíocre, no sentido de não estar aberto a tanta coisa que existe no mundo. Ou até mesmo de pensamentos, coisas que eu fui amadurecendo e que me foram iluminando, mesmo através da literatura. Então, eu acho que a literatura, com certeza, tem um papel muito importante na minha formação e essa busca pelo impossível, eu acho que enquanto a gente tá vivo, a gente tem que tentar buscar ela, mesmo sabendo que é impossível. 

E quem vive uma vida medíocre? Quando eu digo medíocre aqui é quem não utiliza a arte para melhorar o raciocínio, crescer na vida, ter uma mente aberta. Essas pessoas que não utilizam isso, ou que são ignorantes para não utilizar, estão também condenados a viver? Como se vive sendo medíocre? Melhor: você também já imaginou tendo essa vida, como você falou, se eu não tivesse lido esses livros?

Com certeza. Por exemplo, vindo de uma cidade do interior e um ambiente ao redor, é claro que tem pessoas fantásticas, algumas poucas pessoas, mas a maioria, o que é a regra lá é o pensamento medíocre, ou seja, você se acostumar com as convenções, você se importar com picuinhas, coisas pequenas e você se adaptar àquele ambiente onde você olha todo mundo ao redor, parece que tá satisfeito com aquela curiosidade, com aquele clima abafadiço que não permite nada de diferente. Todo mundo tem que ter a mesma opinião sobre política quase ou tem a mesma opinião sobre arte, ou sobre a série que está assistindo, você vai nos cafés, nos lugares, todos os assuntos estão sendo comentados, são assuntos banais, você não sente que não tem nada fora da curva. Todos os preconceitos que a cidade pequena tem, se você não tiver alguma coisa que te faça escapar dali, no meu caso foi a literatura que me ajudou, e a música também no começo, me ajudaram a escapar quando eu estava vivendo lá. [Se estivesse ainda lá] eu estaria condenado a uma vida medíocre, com certeza. Teria mais ou menos a mesma opinião que a maioria das pessoas, estaria vivendo nas convenções atuais… Tem aquela frase do Herman Hesse, do Demian (Record, 2015), que foi um dos primeiros livros que eu li quando comecei a ler e que me estimulou muito, ele fala que o mundo é um ovo, pra você existir nesse mundo, você tem que quebrar a casca do ovo, destruir o mundo pra criar um outro também. Eu trabalho muito com essa ideia, o tempo inteiro vai e volta pra mim essa ideia de para eu conseguir construir uma existência autêntica, que eu imagino que possa ser autêntica hoje, era preciso destruir um outro tipo de existência. Por isso que, às vezes, no livro eu sou muito crítico, especialmente com o interior, com a cidade que eu nasci, com a família, com várias coisas, porque eu acho que tem uma necessidade de destruição para depois construir algo novo. Sobre o homem medíocre, tem um livro do argentino José Ingenieros que eu cito no livro, El Hombre Mediocre (1913) que trata muito sobre isso. Ele fala muito sobre o homem, a pessoa comum, a pessoa que se adapta facilmente às convenções, a pessoa do mundinho pequeno que realmente não tem um pensamento próprio, que não levanta a voz contra uma determinada injustiça, se todo mundo está fazendo porque não quer ficar mal com o seu grupo social, então o livro tá cheio de coisas assim. 


O que é impossível: aquilo que não pode ser feito ou aquilo que ainda não foi realizado?

Acho que as duas coisas, é um termo, uma palavra que tem distintas possibilidades, mesmo sendo impossível. Por exemplo, o impossível no sentido da vida autêntica, é uma coisa que pode ser inalcançável, no sentido que você não vai conseguir alcançar, mas a busca por ela é possível. É uma coisa interessante, não tem uma resposta fechada para esse tipo de pergunta porque é uma pergunta aberta. Eu acho que o conceito do impossível, inclusive até o título que eu tava te falando, que demorou muito para a gente achar esse título, ficou muito tempo sem título… Depois em um dos trabalhos das últimas revisões, que você pega para ler o livro de novo pra ajustar uma coisa ou outra, antes de mandar pra revisão final da editora, chegou um momento que eu tava falando com o Léo [Leonardo Silva, idealizador da editora], que é o dono da editora lá, que ele falou “antes não tinha pressa, mas agora tem que acertar o título o livro” [sorri] e aí eu tentei buscar alguma coisa, fazendo trabalho de investigação ali dentro pra entender se tinha alguma coisa que chamava atenção, que fosse coerente com as ideias do livro, que desse um sentido de coerência para o livro inteiro. Aí bem no começo, em algum dos fragmentos lá, falo sobre a agenda do impossível ou uma agenda que eu seja secretário de mim, que eu tenha total autonomia sobre mim, que eu não seja impactado sobre as coisas. Quanto mais eu fui lendo depois o restante do livro, eu vi que tinha várias ideias que se repetiam nesse sentido, talvez não com a mesma palavra do impossível, mas o tempo inteiro eu estava meio que buscando e falando sobre a mesma coisa, então eu achei que foi o título perfeito depois pra dar o livro, e eu acho que o impossível, nesse livro, não tem tanto aquele sentido de que algo... Como é que você falou mesmo? 

Não pode ser feito ou que não foi realizado. 

Isso, o que não pode... Eu acho que tá muito mais na perspectiva do que ainda não foi realizado. Então é um impossível muito mais cheio de possibilidades do que algo que realmente não pode ser feito, mas ao mesmo tempo tem aquele lado mais absurdo, como se fosse um sinônimo do absurdo, a vida é impossível, a vida é absurda, mas ao mesmo tempo ela é possível, você está vivendo, então como lidar com esse paradoxo mesmo, de algo que não foi feito, será que pode ser alcançado ou não… Então é mais como se fosse um conceito absurdo mesmo, que a gente tem que lidar e é uma coisa que está todos os dias, que a gente está lidando com isso… Porque seria muito mais simples falar “não, é impossível, então não dá para ser realizado, vamos esquecer isso e não vamos pensar mais nisso”, mas ao mesmo tempo é um conceito que tá o tempo inteiro reverberando na minha cabeça, por exemplo, será que realmente não é possível? Até onde eu posso chegar? A vida autêntica é impossível, mas também qual é a resposta para essa impossibilidade? É ter uma vida medíocre? Completamente medíocre, acostumada às convenções e estagnada? Então até quanto eu posso avançar? Até quanto eu consigo chegar próximo, pelo menos que seja dessa vida mais autêntica? Sabendo que no final 100% é impossível, mas até quanto eu consigo me aproximar, entendeu? É sobre essa tentativa de alcançar esse limite, esse impossível o tempo inteiro, buscando isso, reconhecendo que no final 100% daquilo lá é impossível, como, por exemplo, a morte. A morte coloca um limite, coloca um ponto final que você tem que aceitar, né, mas ao mesmo tempo, enquanto ela não chega, várias coisas são possíveis, então são esses caminhos que a gente tem que ir apalpando e pegando enquanto não chega ao ponto final. É mais ou menos sobre isso que eu tento falar. 

O que você pretende fazer enquanto está sendo condenado a viver? O que você quer alcançar? O que você ainda não fez e quer fazer?

Ah, eu quero fazer muitas coisas ainda que eu não fiz, mas especialmente ler livros que eu ainda não li… [risos]

A gente sempre volta para a literatura. 

Muito mais do que fazer ou realizar, eu quero conhecer mais. A primeira coisa que eu penso quando falam “o que você quer fazer ainda?” é ler os livros que eu ainda não li, tem muitas obras ainda que não tive tempo pra ler e na matemática existencial a gente não pode ler tudo na vida, então, a gente tem que escolher as leituras. Uma das primeiras coisas [que quero fazer] é ler as obras que sei que são importantes, que iluminaram o pensamento humano que eu ainda não li. Depois disso, se eu conseguir, também seguir escrevendo, contribuindo da minha maneira, dando a minha visão sobre as coisas ou compartilhando com os leitores o meu mundo, como coloco lá no primeiro fragmento do livro. Ali fica muito claro que não é um livro problemático, um livro que tenta convencer ou que quer convencer ninguém a pensar do mesmo jeito que eu penso, é só  uma maneira de compartilhar como vejo o mundo - depois existem outras formas e vários outros mundos, cada cabeça é muito individual, é uma maneira que enxerga o mundo. Eu tô escrevendo um outro livro agora, já tá bem avançado, tá com umas 140 páginas...

Mas já?

É porque esse livro, Agenda do Impossível, ficou pronto faz muito tempo, uns 5 anos praticamente. Depois foram só alguns retoques, algumas outras coisas. Você vê que o tempo da literatura é muito longo, completamente diferente da imediatez, o imediatismo da rede social, de você ter que subir coisas e conteúdos que desaparecem rapidamente, a comunicação na literatura também é uma paciência muito grande. Durante muito tempo eu pensei que esse livro também não fosse sair ou tentaria buscar uma editora menor para também já lançar rápido… Não adianta ter pressa! Nesse livro eu sabia que eu tinha que esperar o maior número de tempo possível, até com o Sérgio Molina, que escreveu a orelha do livro, que é um cara que me ajudou muito, muito experiente na literatura, ele que conseguiu fazer essa ponte com a editora Zain, até para conseguir o contato com ele, eu sabia que queria conversar com ele antes de ter até finalizado o livro, foi uma coisa que demorou pra a gente se encontrar, para a gente realmente se conhecer e tudo mais, então é todo um processo que demora muito. Com a literatura você aprende um pouco com isso também, um pouco a ter paciência, então muitas vezes as coisas que eu tava escrevendo lá, mesmo já sabendo que eu ia publicar um dia, são coisas que a gente quer comunicar, mas é uma mensagem que vai demorar anos e anos pra chegar, e se é que vai chegar em algum leitor ou alguma leitora, e se chegar, será que essa pessoa vai codificar ou vai realmente captar o que eu tava tentando dizer? É um exercício de paciência que a literatura te obriga a ter que é impressionante. Então tem muitas coisas que eu quero fazer, mas também com muita calma, muita tranquilidade, sem correria também. 


"(…) Busco algo mais: escrevo e investigo para intervir no que me acontece. Tampouco escrevo todos os dias. (…) Aqui deveria ficar claro que estou escrevendo para você também, e não só pra mim."

O livro é atravessado pela morte em diferentes facetas. A literatura tem o objetivo de enfrentar ou distrair a morte?

Eu acho que ela tem os dois papéis porque muitas vezes você tem um trabalho de enfrentamento que a literatura ajuda muito no sentido de enfrentar [ênfase na palavra] mesmo e tem muitos momentos que você só quer disfarçar, eu coloco uma coisa ou outra disso no livro. A boa literatura é aquela que permite esse disfarçar, seria quase como uma distração também, enquanto for preciso, sabe? É uma forma de você se distrair e não tenha dúvida sobre isso, eu acho que ela tenha essas duas possibilidades, não só essas duas, dependendo do dia, do momento ou da circunstância, o leitor pode usar ela como arma nessas duas frentes, né? 

Coloco muito sobre a morte no livro porque eu acho que é a questão fundamental, como os existencialistas colocavam em seus livros. O próprio Heidegger fala sobre ser lançado para a morte, o Sartre fala muito do Camus que também fala sobre isso; o Kierkegaard fala sobre o desespero humano - são todos ligados nessa angústia que o ser humano nasceu pra morrer. Durante muito tempo bastou pra mim o pensamento do Epicuro - gosto muito sobre isso -, filósofo grego pré-socrático que falava quando a morte está eu não estou, eu não vou nem saber quando eu estiver morto, eu não tenho que temer a morte porque não é uma coisa que vai me afetar diretamente. Isso funciona se você parar pra pensar, né? Por que antecipar esse medo se é uma coisa que quando tiver [que acontecer] eu já não vou estar mais presente? É uma coisa que apazigua nesse sentido, mas ela não responde a morte os outros, especialmente das pessoas ao redor que a gente gosta e que a gente tem que lidar. Não é tão simples assim, né? Durante um momento da minha vida eu achei que era super simples essa resposta do Epicuro, ela é importante, mas não resolve as outras coisas, não tem como resolver, por isso, é um eterno movimento de resistência, de enfrentamento, e reinterpretação diária eu te diria porque é um movimento… É muito fácil você cair no niilismo total de saber que vai morrer então nada vale a pena, pra que eu tô vivendo? Por outro lado tem a resposta afirmativa da vida. Quando você escolhe viver, quando você resolve abraçar sua própria existência, com todas as dificuldades e mesmo sabendo que seu tempo é finito, tem um lado interessante nisso que é dar valor a sua existência, reconhecer o valor nas coisas finitas que você tá tocando e vivendo. Reconhecer esse absurdo, esse limite, reconhecer que a morte tá sempre espreitando ao lado, mas ao mesmo tempo resistir, enfrentar e usar esses recursos que a filosofia e a literatura dão. 

Dito isso, você não tem medo da morte? 

Não posso dizer que eu não tenho, acho que todo mundo tem um pouco, especialmente se eu começar a ter uma doença que pode ser gravíssima e tudo mais e você sentir a morte muito mais próxima… Eu tenho certeza que vou temer a morte. Eu tento, pelo menos, viver de uma maneira que não tô o tempo inteiro, por mais que no livro pareça que eu tô falando o tempo todo da morte… Mas não é de uma perspectiva negativa ou de medo é mais de uma condição que eu quero relembrar, o tempo inteiro, de que no final resta aquilo. Muitas coisas que eu tô dando muita importância que eu não deveria tá dando acho que lembrar que a gente vai morrer, isso aqui [aponta pro próprio corpo] não vai valer nada talvez ajude nesse momento, entendeu? Tento usar uma perspectiva otimista sobre a morte. [sorri] [A morte] é uma companheira que eu coloco lá [no livro] – eu tô interpretando pra morte, me apresentando o tempo todo pra ela para ela me deixar viver. O meu pensamento neste livro é um pensamento afirmativo.



Em um momento do livro, vivido durante a pandemia, você escreveu que durante aquele tempo se tornou mais existencial. Como você se tornou mais existencial e não cair naquela loucura que vivemos?

Eu acho que o sentido de ser mais existencial foi momento pra todo mundo, porque funcionou como um período em que a gente foi obrigado a se voltar mais pra dentro, ter mais tempo pra si mesmo, já que as coisas foram fechando, as relações - com o outro - foram sendo proibidas, né? Foi o momento que pra todo mundo… Foi crucial, a gente teve que olhar mais pra dentro, repensar várias coisas e aprender a lidar no dia a dia consigo mesmo, porque não tinha um contato social, né? Foi um isolamento social, literalmente. Foi um período também de experimento pra cada um, pra gente entender como a gente, por mais que a gente ache que somos autônomos, como é importante o outro na nossa vida. Tava lendo um livro do Peter Sloterdijk, um filósofo alemão, que tava falando sobre o olhar. O nosso rosto serve para o outro. Quando a gente não tem o espelho ou a câmera de selfie, você imagina o rosto do outro, então, a gente depende da interpretação que o outro vai fazer de nós, do nosso rosto, pra se ver. Então a relação com o outro é fundamental e na pandemia você perdeu isso - eu fiquei mais existencial nesse sentido. Me aprofundar ainda mais nessas questões e entender que eu sou formado através do outro também.


No começo do livro, você escreve que se corrige "para ser bem lido por mim mesmo." Algumas páginas depois você afirma que o que escreve é aquilo que é. No fim, você ousa dizer que "vive como se fosse um personagem de si mesmo." Quantos Gabrieis há no livro?

Tem muitos! Depois de lendo, depois de muito tempo, eu me divertia lendo muitas passagens. Inclusive, aquelas passagens para terceira pessoa que eu coloco em alguns dos fragmentos, eu fui colocando depois de algumas leituras que eu fui entendendo que tinha fragmentos que tava dando uma impressão muito romântica, muito exagerada ou muito melancólica que eu vi que não era aquele efeito que eu queria ter realmente, ou que eu não me levava tão a sério em determinados momentos e que não me reconhecia ou me reconhecia e via que era diferente… Comecei a trabalhar com essas escapadas em terceira pessoa em alguns fragmentos porque era um diálogo meu comigo mesmo, eu vejo que tem diversas facetas minhas ali, apesar de ser a mesma pessoa que assina o livro, todo mundo habita dentro de si vários eus, né?


Enquanto você lia As Palavras, de Sartre, você comunica que fez parte da leitura, dando ênfase no "eu mesmo". Tendo isso em mente, você teve contato com o seu eu enquanto escrevia, nas edições ou depois do lançamento?  

Esse livro, As Palavras, aconteceu uma coisa realmente diferente: parecia que eu tava vivendo aquilo e que eu tava escrevendo junto com ele. Ele escreveu tão bem que naquele momento, com um pensamento bem articulado, que eu consegui entrar no pensamento e parecia que era eu que tava escrevendo o livro, junto com ele. Acho que quando acontece isso é quase a perfeição entre a escrita e a leitura, sabe? É uma coisa que parece que tá se fundindo, sabe? Teve uma comunicação imediata entre a minha leitura e a escrita dele. 


Outro autor que ganhou espaço no livro foi Goethe. Inclusive, você utiliza um trecho do livro dele que diz: "quero dedicar-me ao estudo dos grandes objetos, aprender e me instruir antes de completar 40 anos." Você conseguiu alcançar esses pontos?

[risos] Olhando em retrospectiva em tudo que eu já li… Muitas vezes quando eu tô no interior, lá no meu apartamento tem a estante, uma parede inteira de livros, eu gosto de ficar olhando lá e observando muitas coisas que eu já li e quando eu olho eu vejo que consegui ler muita coisa e me instruir, mas nunca vai ser o bastante. Quando você olha para essas figuras importantes do passado, os intelectuais que realmente liam muito e consumiam muita literatura, você vê que falta muita coisa. Eu não sei se eu cheguei lá [sorri], mas eu sei que eu li muito e que valorizo muito o conhecimento que adquiri nos últimos anos. Esse livro do Goethe, Viagem à Itália (Unesp, 2017) foi uma viagem que ele sai da Alemanha e vai pra Roma e quando ele chega em Roma muda tudo pra ele - isso mexeu muito comigo. Ele colocou como objetivo - ninguém falou pra ele - que tinha que chegar em Roma porque em Roma tava as grandes obras de arte e ele queria tá lá pra se formar mesmo como pessoa. Todo conhecimento e sabedoria durante a vida auxiliou e ajudou muito ele a ser quem ele é, a tomar decisões, enfrentar determinadas circunstâncias da vida que sem a literatura e sem o conhecimento seria completamente diferente pra ele. Acho que ele é um dos maiores exemplos de como a literatura e o conhecimento literário tem um impacto na vida das pessoas, como pode mudar a vida da pessoa. Se eu conseguir fazer o mesmo que ele tava fazendo… É tudo que eu quero!


Você comenta no livro que ao reler algumas entradas da Agenda do Impossível, você precisa se afastar para se proteger de si mesmo. Esse é um processo que acontece também durante a escrita?

É um processo complicado porque muitas vezes… Tem até uma frase do Nietzsche que eu coloco lá, as pessoas que podem compreender melhor o que a gente tá querendo escrever são as pessoas que não conhecem literalmente a gente. Por muito tempo eu senti isso comigo mesmo, sabe? Ter que dar um tempo, muitas vezes eu parava a própria escrita e voltava duas semanas [depois] ou evitava reler o que eu já tinha escrito nas últimas páginas até pra não contaminar o que eu tava escrevendo. Quando finalizo o livro, vou fazer a revisão final, me dou conta de como eu tava influenciado pelo ambiente ou pelo humor e como o meu pensamento mudava também de acordo com o tempo ou com a época do ano - tantas coisas influenciam! A voz é a mesma voz o tempo inteiro, acho que uma das coisas que eu mais me orgulho no livro. Durante muito tempo eu tive essa necessidade de afastar de mim pra não contaminar o que eu tava escrevendo e o resultado é um pouco disso: facetas de mim mesmo dentro do livro.


"Nunca escreverei um diário. Tenho horror a datações… por medo mesmo. Medo de ler e comprovar que em tal dia, tal mês, tal ano, eu era um idiota, ou era outro. E se era outro quer dizer que vou deixar de ser, e eu não quero deixar de ser."

VI.

Após 1h30 minha conversa com Gabriel termina. Agora, o Zoom está salvando nosso papo. Pina, minha cachorra, entra no quarto com seu brinquedo costurado e deita na cama. Olho para ela enquanto repasso mentalmente alguns pontos do diálogo. O existencialismo, presente no artista, segue ecoando e me dá certeza de que eu existo. A conversão termina e início a decupagem. Não quero escrever o texto jornalístico tradicional, por isso, coloco em prática o que aprendi com Tom Wolfe, Gay Talese e Hunter Thompson, mas não gosto. Decido seguir o caminho da Agenda do Impossível, fazendo uma breve homenagem, além de me divertir.


VII.

Ao revisar pela última vez o conteúdo concluo que Agenda do Impossível é o resultado de um homem que se recusa aceitar - com facilidade - a morte. Entre a melancolia e o humor, entre a erudição literária e a observação, Gabriel Soares transforma a experiência cotidiana em investigação filosófica e encontra na literatura uma forma provisória - mas profundamente humana - de resistir ao desaparecimento.


Atalhos no Bar Alto

A melhor maneira para dar sentido à existência é cantando e dançando - caindo na pista como o autor relata no livro. Na próxima quinta-feira, 25, a Atalhos faz um show emblemático com repertório que atravessam os cinco discos de estúdio da banda. Além disso, o grupo lança em vinil A Força das Coisas, presente na lista dos 50 melhores álbuns nacionais lançados em 2025. Garanta o seu ingresso aqui.

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