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Dos ratos aos homens: a literatura desconcertante de Vitor Miranda

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 5 dias
  • 13 min de leitura

"Enquanto existir seres humanos vivos não haverá paz." A conclusão surge da boca do menino que acaba de perder a inocência. Depois de testemunhar a morte de um rato dentro de casa, ele percebe algo que até então lhe escapava: a finitude não pertence apenas aos animais. Quando o choque passa, resta questionar a Deus: "Os ratos vão para o céu?" A pergunta dá título ao novo livro de Vitor Miranda. 


Leio compulsivamente Os Ratos Vão para o Céu? (Selo Neomarginal, 2025) que me desperta diferentes sentimentos. A prosa poética e o realismo fantástico constroem um universo onde o absurdo e o cotidiano caminham juntos. Há um menino que engravida de um girino, histórias marcadas por abusos, perdas e mortes. Situações insólitas que, paradoxalmente, revelam algo profundamente humano.


Com humor ácido, lirismo sujo e uma honestidade desconcertante, Vitor olha para a infância não como um território de pureza, mas como um campo minado. Seus textos exploram a violência doméstica, a desigualdade social, a masculinidade tóxica, a religiosidade, o abandono e as pequenas crueldades que se escondem dentro das relações familiares. Ao desmontar a ideia de uma infância protegida, o autor obriga o leitor a encarar aquilo que normalmente prefere manter escondido. 


A obra de Vitor Miranda não oferece respostas para as grandes questões da existência. O escritor transforma a literatura em um espaço onde os pesadelos amadurecem junto com as pessoas. 


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Nossa conversa começa pelo WhatsApp. Após enviar a primeira pergunta, imagino que, em poucos dias, terei material suficiente para escrever este texto. A previsão durou pouco - já na segunda resposta percebo meu engano. Assim como acontece em seus contos, o autor não economiza palavras. Cada mensagem abre novos significados, memórias e reflexões. O que eu imaginava ser uma entrevista (odeio essa palavra!) breve se transforma em uma longa conversa sobre literatura, vida, violências e as consequências de escrever sobre aquilo que muitos preferem esquecer. 


Quando terminamos (dias depois), percebo que a conversa não terminou de verdade. As respostas de Vitor continuam ecoando dias depois, da mesma forma que seus contos insistem em permanecer na memória após a última página. Há crueldade, beleza, sujeira e sensibilidade em sua escrita. Quem lê este texto, ou qualquer obra de Vitor Miranda, inevitavelmente carregará esse eco consigo. Porque, por mais fantástica que pareça em alguns momentos, a matéria-prima de suas histórias é a mesma que compõe a vida: imperfeita, violenta, afetuosa, absurda e dolorosamente real.


A infância aparece no livro como um espaço de trauma, imaginação e violência. Por que muitos personagens, crianças e adolescentes, sofrem no livro? Os personagens infantis que vivem experiências duras são atravessados, em alguns momentos, por fantasia. A fantasia surge justamente como um ato de sobrevivência?

porque de acordo com o que o mundo nos ensina, parece que nascemos para sofrer. é Belchior contradizendo o antigo compositor baiano que dizia que "tudo é divino, tudo é maravilhoso", pois "ao vivo é muito pior". a fantasia é a nossa poesia em acreditar que "gente nasce pra brilhar e não pra morrer de fome". dentro do contexto das infâncias, a fantasia é o artifício literário lúdico, que ajuda a colocar o texto nessa atmosfera das crianças. e a crítica essencial da obra é justamente sobre o assassinato dessa fantasia, dessa poesia, dessa ingenuidade cada vez mais precoce na vida de um ser humano. precisamos alimentar a poesia, o brincar, a fantasia para que a gente não sofra tanto, para que exista um alívio para nossas dores.

Se a fantasia é o que nos permite suportar a dureza do mundo, por que a sociedade insiste em assassinar tão a poesia, o brincar e a ingenuidade das infâncias? Como nos alimentamos quando o capitalismo é selvagem?

o capitalismo queima a selva. concreta os rios. inibe o movimento da água, do vento, dos corpos. o ser humano é um animal selvagem que foi sendo domesticado a partir das primeiras cercas, das crenças em deuses e nas regras estabelecidas por homens de direito. conter a selvageria, a nossa natureza, para que a gente acredite em Deus e no dinheiro, é a mais perversa maldade humana. ser poeta é talvez, além de escrever poemas, atentar contra quem odeia poesia. aqui já misturando Os ratos vão para o céu? com meu mais novo livro de poesia Ódio ao Poema (Barraco Editorial, 2026) onde o Poema é o corpo alvo a ser odiado e atacado por essa sociedade que mata infâncias. um livro como continuação do outro.


vitor miranda
(Créditos: Anna Carol Diniz)

O título do livro parte de um conto onde o personagem, que é uma criança, descobre o que é a morte e, assim, perde a inocência. Quando você questiona se os ratos vão para o céu é consequência da vivência desse personagem?

o título do livro é a ideia principal do livro: quem são os ratos? o que é o céu? essa ideia de céu como paraíso é uma ideia católica, cristã, evangélica que até hoje influencia a direção  dessa nau perdida que é o nosso país. e a ideia de se perguntar quem são os ratos, aqueles que sofrem ou que cometem a experiência da maldade, está em todos os contos do livro. a perversão como experiência do gozo maléfico. os nazistas vendiam judeus para a indústria farmacêutica usá-los nas experiências. depois que proibiram o uso de seres humanos, os ratos que são usados. na gíria, usamos “ratos” para chamar a polícia assassina, corrupta, desses policiais que gozam ao cometer maldade. então quem são os ratos de cada conto? a família ou o rato? o bebê ou a bigtech? a sociedade ou o menino que engoliu o girino? a igreja ou a criança?

Uma provocação: existe alguém totalmente livre da maldade ou todo mundo acaba sendo contaminado pela violência do mundo em que vive?

acredito que ninguém é livre. veja só Mussolini pendurado de ponta cabeça junto com a família no posto de gasolina. é a máxima: violência gera violência. aqui se faz aqui se paga. um mundo perverso. a maldade é uma condição humana. a maldade é também natureza. mas dentro de uma sociedade domesticada, a maldade é uma experiência muitas vezes pensada, calculada. um experimento. muita gente é treinada e educada para ser perversa. vivemos num mundo horrível onde a literatura e a poesia que se produz é inevitável.


Seus contos transformam situações em experiências quase surreais, como é o caso de A primeira palavra e O menino e o girino. O cotidiano é naturalmente absurdo?

o cotidiano é um realismo fantástico e nem sempre se vê mágica no absurdo, diria o ex poeta Lobão. "O menino e o girino" é uma metáfora. a história por trás é uma gravidez de uma criança que foi estuprada. e a saga do menino grávido do girino é toda a exposição que a garotinha estuprada passa quando políticos de direita e de esquerda a usam em seus discursos políticos à procura de votos e engajamento nas redes sociais. essa sociedade em que políticos são celebridades influencers é um completo absurdo.

Jorge Luis Borges acreditava que a metáfora é a forma mais profunda de enxergar o mundo. Utilizá-la em sua obra é importante para denunciar, expor e também imaginar outro tipo de mundo?

eu acredito na literatura. se eu fosse jornalista narraria fatos, mas sou escritor. a literatura nos permite e nos exige a criação de uma beleza linguística, de um experimento. é uma brincadeira séria. e temos que ter essa responsabilidade perante o ofício. então eu procuro me utilizar de todas as ferramentas possíveis para enriquecer meu texto. então tudo é uma busca por atingir o que eu imagino como literatura. as temáticas são a vida, o que a gente vê no mundo, os assuntos que os jornalistas e as pessoas que lutam, nos trazem. a minha luta é literária. é escutar, observar e sentar em frente ao computador e arregaçar com a realidade. ironizar a vida, pois ela é cruel.

Como tem sido sua luta literária?

é uma luta neomarginal. através do Movimento Neomarginal. é uma organização dos artistas independentes. labuta, trabalho de operário, construindo pontes entre todas as formas de se escrever. participando de eventos e dialogando com a literatura burguesa, com a literatura de condomínio, já que eles estão no poder e a gente necessita conversar com eles. é ironizar as estruturas do mercado burguês artístico. passando isso para o texto, é ironizar a hipocrisia humana através do ritmo, da ironia, da metalinguagem, da metáfora, da pontuação, de todos os artifícios possíveis.


"pensando bem agora, na escola, a cada dia uma pessoa era escolhida pra ser o rato. na verdade os ratos eram sempre os mesmos e não existia esse negócio de bullying. já fui rato e sei como é."

Já que você abordou a ironia, seu livro me fez lembrar de David Foster Wallace. Em algumas entrevistas, o escritor dizia que a ironia nos tiranizava. Você acha que o livro dialoga com essa ideia? De que forma a ironia aparece na obra e como ela pode transformar a perspectiva do leitor diante das relações e conflitos retratados?

sinto inveja de David Foster Wallace, pois eu também queria escrever em outro idioma para sentir o prazer de ser traduzido por Caetano W. Galindo. Galindo é das grandes maravilhas contemporâneas da literatura. a ironia é um mecanismo de defesa para não falarmos sério, fugir dos assuntos espinhosos. ao mesmo tempo que a gente se utiliza para se divertir e fazer a monotonia dos dias ser mais irreverente. isso prejudica as relações humanas. é uma casca. você machuca as pessoas, se torna solitário. a ironia muitas vezes machuca, pois desata o nó da hipocrisia e quando alguém nos coloca em frente ao espelho, é difícil. mas a literatura não é para uma pessoa específica. é um entretenimento sentimental, intelectual, é pra gente sentir prazer, lembrar, refletir. e a ironia vem nesse lugar de desatar os nós de nossas hipocrisias. e não deixar essa violência que atravessa infâncias ser posta à mesa de forma tão brutal.


Já que você tem interesse em ironizar a hipocrisia humana, gostaria de falar sobre a figura paterna e a masculinidade tóxica que aparece no livro. O que você espera que leitores - principalmente homens cis héteros - sintam ao perceberem, nos contos, padrões de comportamento que por muito tempo foram tratados socialmente como normais?

espero que eles se sintam igual a mim quando li Carta ao pai do Kafka. que aprendam um pouco com o meu livro e não precisem perder tantas coisas como eu perdi na vida. e aqui chegando aos 37 anos continuo sofrendo com isso. e que a gente não precisa ensinar meninos a serem homens e nem meninas a serem mulheres, mas sim a se tornarem pessoas boas, espertas, inteligentes e com habilidades de se relacionar com a vida, o que inclui conviver com outros seres humanos. há uma coisa triste no mundo que é a solidão. e precisamos aprender coisas para evitar que essa condição seja a nossa. tem um conto, "janela da frente", que é um relato de uma rua que o menino vê através da janela. e há tanta crueldade ali. a periferia dos anos 90 era perversa com as meninas, com os gays. e as camadas sociais que vão colocando os moleques em estado de guerra. é bater ou apanhar. lei da selva. que sobreviva o mais forte. o menino tentando fugir disso para dentro de si.


Em "Perdoando o pai" você faz um retrato interessante de um indivíduo que ao ficar sozinho para cortar as unhas consegue "compreender" e até se desvincular, de alguma maneira, do próprio pai. Na sua opinião, de escritor e observador, por que muitos não conseguem se separar de seus pais?

por mais que exista a reflexão, não acredito que o personagem tenha conseguido se desvincular do pai. pensando agora sobre o conto, é interessante que a perda do cachorro fez ele caminhar pelo bairro e é nessa andança que ele chora, que ele pensa sobre sua condição de homem, sobre ser pai e ser filho, sobre não perdoar o pai. eu não sei responder essa pergunta. não sei se tenho ambição em saber a resposta. talvez não exista resposta, por isso se escreve tanto sobre o assunto. não saber talvez seja a melhor forma de observar. acho que um dos motivos das pessoas desejarem ser pais, tem a ver com a vontade de tentar entender algumas coisas que nunca serão entendidas. se eu puder dizer alguma coisa sobre para as pessoas, eu diria: continue andando...

Já que você abordou Carta ao Pai, pergunto: no seu livro, tem algo biográfico?

eu matei o rato afogado. a janela da frente era a minha janela da infância. eu perdi nosso hamster quando era criança, mas meu pai perdeu nosso cachorro. eu não gosto muito de ficar falando se é auto biográfico ou biográfico, pois hoje tem essa bobagem da "auto-ficção". a literatura é como o texto é escrito, como a história é narrada. sabe que tenho um projeto de escrever uma auto biografia assumindo como fatos reais as histórias dos contos que publiquei em livro. terei engolido o girino e ficado grávido, terei sido motorista de aplicativo, me transformado em cavalo marinho, sofrido abuso, terminado com a namorada por ela ter me obrigado a procurar emprego, pedido dinheiro para enterrar meu pai, me prostituído sexualmente, entre outras coisas. porque eu penso que vivi aquilo que sonhei, aquilo que imaginei. vivi intensamente a imaginação. então tudo aconteceu, pois eu senti na pele. eu acho minha vida daora! mas a imaginação é foda! imagine meu pai voltando pra casa com a consciência toda fodida por ter pedido o cachorro e o cachorro está lá no quintal ainda. uma vez deixei o cachorro de um amigo fugir e saí correndo atrás dele pelo bairro. você não sabe o que eu vivi ali, mas eu escrevi e publiquei num livro. esse poema aqui:

abri o portão

o cachorro fugiu

joguei tudo pelos ares

corri atrás dele

que virou a esquina


o cachorro virou lebre

eu virei cachorro


enquanto os ciganos

apostavam na lebre

ou no cachorro

eu virei Alice

e nós viramos tudo

que queríamos ser


assim correndo pela noite

fomos sendo qualquer coisa

pois assim como Waly Salomão

temos fome de ser tudo que não somos


assim sendo

corremos por todos os mundos

que nunca correríamos


de repente já somos dois

qualquer coisa

correndo lado a lado


de repente um casal de namorados

de mãos dadas caminhando

por uma folha amassada

que o escritor arrancou da máquina

e jogou no chão

que agora era lida pela empregada

que foi obrigada pela vida

a recolher sonhos frustrados

de outras pessoas

que amassam papéis


corremos pela folha

deixando histórias

corremos pelo quarto

corremos pela vida da empregada

levando ela pela sala


fizemos uma salada

de amor


agora éramos três

e eu já nem sabia 

quem era Alice

quem era eu

quem era o cão

já nem sabia

quem era a empregada

quem era cigano

quem era patrão


estávamos numa festa

junto com os ciganos

nós três éramos dez

dançando num abraço apertado

onde o gato era a lebre

e a lebre era o gato

e eu já era empregada do mês


corri dali atrás 

do gato lebre

que correu

outra vez


dessa vez

fomos mais longe

pois a lebre

era mais rápida

que o cachorro

o gato subia muro

e eu


eu descia do escuro 

para o claro

lembrei-me

que era raro

alterar o percurso da vida

nas idas e vindas

do trabalho pra casa

só fui desviar de rota

quando o cachorro fugiu


aquilo que eu chamava de vida

já nem sabia se assim

se chamava


descobri então

que não me amava


e então

continuei a correr

sabendo que jamais

alcançaria o cachorro


pois a gente não queria voltar pra casa


Fico constantemente pensando nesse ponto. Será que escrevemos, falamos, ouvimos e pesquisamos tanto sobre o tema para não sermos igual nossos pais ou encontrarmos maneiras para entendê-los e, consequentemente, perdoá-los?

talvez a gente escreva para tentar se perdoar por estarmos sendo aquilo que prometemos que nunca seríamos. eu não vou ficar responsabilizando ninguém. a gente está tendo a nossa chance de viver. cada um que se perdoe a si mesmo. a vida é muito difícil e não precisamos de ninguém enchendo nosso saco. mas isso é o Vitor de hoje pensando. todo dia a gente precisa aproveitar o ensinamento da vida e amadurecer um pouco mais. é difícil manter a consciência o tempo todo. os limites serão sempre testados na convivência humana. as pessoas precisam ser felizes, apenas isso. não é questão de perdoar, é sobre não culpar. é sobre não haver a necessidade de conviver com quem se ama. uma amiga, a Joana Rizério, escreveu numa crônica: "eu te amo, mas não gosto de você". acho que era pra irmã dela. acho que é isso. aliás, Joana é uma ótima escritora para ser entrevistada.


Falando em escrita, Xico Sá escreveu que os "fantasmas preferem literatura à terapia." Tendo isso em mente, a escrita funciona como enfrentamento dos próprios fantasmas? Por que você escreve?

então, não penso que a literatura serve para resolver nossas questões psicanalíticas. de repente, escrever para si mesmo até pode ser uma ferramenta para se ler de maneira mais profunda. aliás, ser leitor é muito mais terapêutico do que ser escritor, no meu caso. cada um é uma pessoa, que apesar de mais semelhantes do que diferentes, ainda assim todo mundo é um ser humano exclusivo. a vida de escritor carrega outras complexidades tremendas que vão disputar com aquelas do passado.

escrever literatura para mim é algo mais extraordinário do que o umbigo. é mágico. veja só, estou dando aula de escrita para uma paciente psiquiátrica diagnosticada com esquizofrenia que vive na clínica. na primeira aula preparei algo a seguir como fio condutor e chegando lá engavetei todos meus pensamentos. a paciente simplesmente sentou e começou a escrever em seu caderno. a cada parágrafo me mostrava um tanto da história que estava narrando. até que após quarenta minutos escrevendo, ela cessou e começou a me contar coisas da sua vida que nada tinha a ver com a história que estava escrevendo, baseada numa das novelas que assiste. na segunda aula, levei eu também um caderno e disse "hoje eu vou escrever também". então começamos a escrever cada um sua história e mostrar um para o outro. fomos assim até o final da aula e mal conversamos dessa vez. 

o texto que escrevi era sobre sonhos. sobre estar preso nos sonhos. um sonho recorrente que tinha quando estava entre 28 e 30 anos. chegava ao colégio onde estudei com a idade que estava, 30 anos, e lá estava o resultado do ano letivo e eu havia repetido de novo. inventei um outro sonho sobre prisão, looping, onde eu estava dentro do meu carro dirigindo em alguma estrada. sempre dirigindo e a cada sonho um pouco mais velho. eternamente preso na estrada. ela começou a se interessar pela história. eu estava escrevendo sobre uma pessoa que vive como interna em uma clínica psiquiátrica. uma metáfora através da minha vida dirigindo em estradas, coisa que faço com exagerada frequência por morar em duas casas em diferentes cidades e por contas dos festivais literários.

o grande lance é que eu estava divertindo ao viver aquele texto, colocando as palavras exatamente onde eu queria, no ritmo, no looping certo, a magia de quando você acerta a mão estava acontecendo ali. só que ela gostou do meu caderno e do texto, então dei o caderno pra ela de presente com as paginas onde escrevi o texto. quando cheguei em casa tentei reescrever e não saiu merda alguma. o Ferreira Gullar tem um texto sobre isso, uma crônica sobre o poema, aonde diz que "o poema é inevitável" e que é impossível reescrever o mesmo poema. e quando eu tô escrevendo só estou pensando em literatura, em poesia, não estou pensando na minha vida, nem nos meus traumas. tô pensando no som e nesse estado de magia.

Interessante essa aula! Ao escrever com outra pessoa, neste contexto, você achou que sua escrita mudou?

minha escrita muda a todo instante. tudo se torna revolução no texto. escrever no papel é um exercício fabuloso, pois é uma viagem só de ida. escrever junto e mostrando a cada parágrafo é interessante, pois a gente joga com a pessoa leitora enquanto o texto está vivendo. são revoltas se revolucionando ao mesmo tempo e no mesmo caminho. mas o caminho é único para cada um de nós. jamais viveremos o mesmo momento, pois cada terá sua versão do acontecimento.


Você trouxe a palavra sonho, assim como magia. A literatura pode ser resultado de um sonho?

pode. assim como o sonho pode ser resultado de uma literatura. e as duas podem ser resultados ou motes de outras coisas também. assim como pode não ser nada, apenas nada, uma realidade cotidianamente normal onde tudo é insignificante e dessa insignificância pode surgir de repente literatura e sonho.


"o corpo é só algo que existe pra alguém lembrar que a gente viveu."

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