O território de Telma Hoyler
- Michele Costa

- há 6 horas
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"Território", segundo o dicionário Aurélio, é a "base geográfica do Estado (solo, rios, lagos, baías, portos, etc.), sobre a qual exerce ele a sua soberania". A palavra, utilizada em diferentes contextos, adquire significados distintos para cada pessoa. Para Telma Hoyler, etnógrafa política e documentarista, território é uma pergunta. A questão está explícita em seu primeiro documentário, Território (2026), sobre escuta política.
A obra acompanha Geraldo, morador do M'Boi Mirim e candidato de esquerda à Câmara Municipal de São Paulo, na eleição municipal de 2024. A partir do olhar atento da diretora, observamos os desafios de Geraldo ao se adaptar às estratégias modernas de campanha, conquistar eleitores e confrontar a ascensão da extrema-direita em sua comunidade. Ambientado em um distrito moldado por organizações progressistas, o filme retrata o trabalho emocional, social e estratégico da militância, sem deixar de captar como os moradores enxergam esse momento.
O primeiro contato com Geraldo aconteceu em 2016, enquanto Telma realizava seu doutorado. Na época, ele era assessor parlamentar do Antonio Donato (PT). Após a saída de Donato, Geraldo se candidatou com a Bancada Periférica, coletivo de lideranças comunitárias de diferentes regiões de São Paulo. O que Telma viu e pesquisou há dez anos a inspirou para construir Território, longa que retrata vividamente como uma campanha é construída na integração com os eleitores, além de investigar como a religião, o crime e os valores do empreendedorismo estão transformando a percepção das pessoas sobre política e democracia.
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O seu primeiro contato com o Geraldo foi de uma forma diferente, ele estava acompanhando o Donato. Como foi ver essa mudança? Você acha também que o Geraldo mudou nesse tempo? Ele ficou mais forte para enfrentar os dilemas que você apresenta em Território…
É uma ótima pergunta, porque para ele se tornar um candidato, ele teve que... [breve silêncio]
Trabalhar muito, né?
É, e assumindo essa posição… Naturalmente que eu o vi mudando ao longo do tempo, sendo mais líder. Ele sempre foi, como era uma liderança sindical de garagem, de ônibus, como ele fala até no começo do filme, ele sempre foi bom na retórica, de se posicionar, de angariar grupos, de ter esse fervor na voz, capaz de mobilizar. Então sempre foi um pouco esse o repertório dele, de botar o povo na rua. Aquele abraço demorado que o Boulos e ele se dão no final é porque o Boulos, quando estava tocando uma ocupação lá, eles eram muito parceiros, então o Boulos botava o povo na rua para uma demanda que o Geraldo organizava, então eles foram se afastando pelos caminhos da política, mas eles ainda são bastante parceiros. Então eu o vi crescendo enquanto liderança falando, tentando pelo menos falar com os recursos que tem para um povo cada vez maior e dialogar de diferentes formas. A filha dele, a Giovana, que aparece no filme, também foi uma figura importante nisso. Quando ele fala do cabelo, "a Giovana falou para ficar mais jovem", ela dá uns toques para o pai, que é muito legal de ver, então, ele foi mudando um pouco nesse lugar. Quando eu o conheci, ele só me chamava para grandes eventos, reuniões plenárias grandes e que juntavam quase cem pessoas, o que é bastante para um dia de trabalho das pessoas em geral, e eu falava "poxa, ele só quer me levar para os eventos que são para mostrar que são de grande magnitude, que ele consegue juntar tudo isso", mas não é isso que eu quero - eu quero ver o pequeno ali, como é o dia a dia. E aí fui entendendo que o repertório de ação dele, diferente de outro que acompanhei, por exemplo, que é muito mais protocolar ofício, ficar ligando para a prefeitura, é de grandes mobilizações, dessa massa, desse fervor. Ele estava lá no palanque com Boulos, pulando. Ele é isso, não é fake, ele realmente faz isso. Nesse sentido, acho que ele já estava pronto como, ou foi se tornando, mas já tinha uma semente importante ali de se tornar esse candidato.

A proposta inicial de Território era apresentar como se constrói uma campanha eleitoral, mas a narrativa foi alterada. Em que momento você percebeu que essa proposta inicial tinha que ser alterada?
Hum, eu nunca pensei sobre isso, devo pensar em tudo que eu falo. Eu acho que eu fui vendo no... [olha para cima] Eu acho que foi com a mudança de... Tinha uma pessoa que filmava para mim e foi bem no começo. E aí ele filmou essas primeiras cenas que são do Geraldo na rua, na pré-campanha e daí eu fui querendo ouvir visões das pessoas sobre o Geraldo. E aí, por exemplo, na barbearia... Acho que a barbearia foi um momento importante, porque eu fiquei ali convivendo com as pessoas. A barbearia é bem na frente, assim [gesticula com as mãos], da casa do Geraldo, praticamente, em poucos metros para frente. E na barbearia eu falei "nossa, a barbearia é um lugar de discussão política importante do bairro". E olha essa figura do Wellington que aparece é um presente. Ele vota no Geraldo e vota no Pablo Marçal. Para entender o Geraldo, talvez a gente precise entender se ele vai ser eleito ou não, talvez, a gente precise olhar um pouquinho para fora da casa dele…
Para aquele território…
É, acho que é a barbearia como ponto de encontro, assim, ir dali derivando-se dos personagens.
Como foi sair do seu território para entrar em um novo território?
Bonita essa pergunta. Sabe que na época, quando eu comecei a frequentar o M'Boi Mirim, eu morava num prédio que a pessoa que ficava na portaria, morava no M'Boi mirim. Então a gente fazia o caminho contrário. Ela tinha gastado duas horas para chegar ao centro e eu ia gastar um pouco menos, porque no contrafluxo, para ir para lá. E eu fazia também de transporte público, então era um... Assim, eu tinha tanta energia dez anos atrás que eu não pensava muito sobre o que eu estava fazendo. E agora voltar com o filme, com o equipamento e tal, eu comecei a refletir sobre isso. Foi uma oportunidade de refletir sobre isso melhor mesmo. Tem algo de que... Também passou um tempo. Eu fiquei um intervalo sem ir depois da pandemia, e passou um tempo. E esse tempo que passou deixou, parece que, uma energia mais agitada no ar, uma intranquilidade, assim. Não sei, uma tensão também.
Essa tensão que você diz também tem relação com o que você viveu ali, sair daquele território e, vamos abranger também, viver o governo Bolsonaro e uma pandemia? O documentário é também uma chance de trazer essas vidas que, de alguma maneira, são invisibilizadas também?
Sim, sim. Eu nunca quis exotizar o outro e ter esse território mostrando o meu estranhamento… Não é sobre isso. Agora, sempre há esse estranhamento, tem esse processo de se entender ali e para me entender ali, é como eu faço, em geral, em pesquisas de campo, tem mesmo uma relação franca. O Pedrinho usando a minha câmera, o Rafael saindo para fumar e pedindo para a gente ficar com o menino, que é a hora que ele me filma. Tem esse [momento], digamos, [de] se entender naquele dia a dia. E é claro que eu sentia... Dormi lá no dia da eleição para o outro pra pegar aquilo bem cedinho, aquelas imagens iniciais da eleição são tipo seis da manhã e tal, que a gente queria ir… Tem barulhos enormes, tem o funk, aí você começa a entender que não é que as tiazinhas da igreja odeiam o funk à toa, você não consegue dormir, é um exagero. Tem umas disputas, tem uma ideia de comunidade que é muito idealizada, mas no dia a dia é permeado por inúmeras disputas que a gente tem no centro expandido com qualquer vizinho também. Então acho que sair da idealização, sair da exotização e realmente experimentar aquilo por um tempo estendido. Construir uma relação, porque para construir a imagem do outro e tentar ser o mais... É sempre uma interpretação, mas o mais fidedigno, como ele se sentiria confortável, é preciso passar por esse processo, sabe?
O que é território para você?
Agora eu vou responder como acadêmica. [risos] A gente não tem uma definição única. Os geógrafos físicos, sociais, vão falar de uma coisa. Para ciência política, território tem muito a ver com fronteiras que delimitam a nação e sobre qual se exerce um poder soberano. Então, para mim, território... Eu gosto de beber um pouco de todas essas fontes e, para mim, território evoca justamente o que está dentro, mas o que está fora. Ele fala dessa delimitação e das disputas entre fronteiras. Eu gosto de pensar território também como sobreposições de territórios. Território, para mim, é uma pergunta também. Acabou sendo esse o nome do filme, porque é uma pergunta - para cada um que se pergunta isso, eu fazia essa pergunta. Território é uma coisa, porque está diferente, porque ela está conectada a como se busca pertencimento, a como se busca status, a como se procura vínculos, ordem social. Então, para cada uma dessas narrativas que aparecem no filme, para os personagens, território vai ser uma coisa diferente.
E, no final, território também parta na definição de política para o outro. Porque quando vocês vão com a câmera em um estabelecimento e uma moça diz que aqui ninguém faz nada, política não faz nada, eles se recebem para não fazer nada. Então, também tem isso. A questão de onde você mora, o que você convive e tal, determina também, de uma maneira, o que significa a política para o outro.
Muito. Nossa, bem lembrado! Lembrei de uma outra cena que fala sobre isso, em que um dos pastores que estão comendo ali na mesa, com o Geraldo e a Conceição...
Sim, que ele se diz, conservador. Muito interessante essa fala. "Eu sou conservador, mas, olha, eu apoio aqui o Geraldo, mas não é tudo."
É, e daí ele tem um que fala e daí o Geraldo é o único do PT que a gente vê fazendo alguma coisa aqui para a gente. E tem algo no final também daquele personagem perto da represa falando "eu não moro lá, eu moro aqui". Então, impacta como você vê, como você vota e também a gente... Claro, você pode votar no vereador da cidade inteira, mas existe uma... Os mapas eleitorais mostram certas concentrações em áreas. Embora seja absolutamente concentrado e um líder domine tudo, existem certas concentrações na cidade. Então, o território organiza como se faz política. Ainda que haja territórios virtuais, ainda que haja essas coisas coexistem. Acho que a gente tem esquecido de falar sobre territórios físicos.
"A pesquisa que eu fiz na minha tese de doutorado sobre mobilização política inspirou, construiu o argumento do filme e também me deu proximidade com as personagens, com o território."
Em um momento do documentário, Geraldo destaca a ausência de grandes lideranças na periferia. Isso me lembrou a fala de Mano Brown em 2018, quando ele acabou sendo vaiado. Por que você acha que uma parte do campo político tem dificuldade de compreender esse tipo de crítica que gera um distanciamento?
Bom, primeiro tem um incentivo perverso. É difícil falar do PT, eu não quero que seja sobre isso, mas o PT é, de fato, um partido enorme, muito bem estruturado e fundante de muitas coisas. No Brasil não tem como não falar, mas existem certas estruturas partidárias, digamos, que são muito boas, porque elas conseguem chegar em vários temas da sociedade, elas formam lideranças. Uma vez que essas lideranças estão lá, elas vão querer, muitas vezes, se manter no poder e defender suas visões de mundo, suas ideias, seus valores. E muitas vezes essas visões de mundo que estão ali para defender e levar adiante, até de política pública, elas são formadas, acabam sendo encapsuladas por esse grupo que gira em torno dessa estrutura partidária. Então, a permeabilidade ao que está nos territórios físicos acaba contraditoriamente diminuindo à medida que se acende a esses lugares. Acho que isso explica uma parte do porquê é difícil formar novas lideranças de esquerda. É muito difícil. Você vê uma figura como a Marielle no Rio de Janeiro, quantos anos demora para formar uma joia preciosa daquela?
Documentar o processo de eleição do Geraldo foi uma maneira, talvez inconscientemente, de combater às diversas fake news que são criadas para diminuir pessoas da esquerda?
Ah, eu não tinha pensado nesse aspecto. Eu acho que isso é, digamos, um efeito não previsto positivo - e sim. Nesse sentido que eu falo se houver um caminho passa em dar visibilidade com profundidade a diferentes narrativas… É claro que não aquilo que quer eliminar o outro, esse é o limite [gesticula com as mãos], estamos falando dentro de um limite respeitoso e democrático. Dar visibilidade a essas diferentes narrativas pra gente não construir espantalho de ninguém, entendeu? Acho que esse é um caminho da promoção do diálogo, talvez seja essa minha pequenina contribuição.

Território traz muitas dúvidas e desespero do que respostas. O que você quer transmitir para o outro? Ao trazer dúvidas vamos conseguir conversar para encontrar um caminho? Aliás, você tá pronta para esse diálogo como mediadora?
Esse é o meu desejo. Inclusive, o lugar que eu tô mais ansiosa para exibir o filme é no M'Boi Mirim para as pessoas que participaram e justamente eu preciso tá preparada para essa mediação. É também uma certa fé no cinema, né? Tem muitas iniciativas no cinema, sei lá, Laís Bodanzky tinha aquele trabalho com a van [Cine Mambembe] que rodava e promovia debate, o [Eduardo] Coutinho fez isso com Cabra Marcado Para Morrer (1984), eu bebo desse espírito.
Como tá a sua expectativa para apresentar o filme para os moradores desse território? O que você acha que pode acontecer?
Para todo mundo que eu exibi o filme até agora a reação foi muito positiva. Teve, inclusive, uma pessoa que veio me abraçar no final chorando e falando "eu sou evangélica, estudo antropologia, e nunca vi a igreja ser retratada desse jeito. As pessoas estão demonizando a igreja evangélica" muita gente não se sente representada, né, então fica sem lugar… Eu acho que essa coisa de provocar dúvidas, de suspeitar de narrativas hegemônicas, sejam de esquerda ou de direita, acho que suspeitar e ter curiosidade, fomentar essa curiosidade, é um aspecto fundamental se a gente quiser mudar qualquer coisa.
As várias questões que você aborda, não pensamos muito bem sobre, vamos indo pelo senso crítico e etc. Você que viveu tudo isso foi transformada em algum sentido?
Eu acho que eu me tornei uma pessoa um pouquinho mais generosa. Acho que me fez fazer as pazes com algumas coisas, sabe? Acho que me ajudou a ser mais tolerante com o tempo do outro também, porque não é o meu - eu tava ali e quando você se coloca à disposição para isso, você abre a câmera e é o que será. [risos] Me deixou mais tolerante e generosa.
Você traz a mudança que aconteceu em você, mas o que o filme te ensinou sobre escuta, tanto política quanto artística que você vai levar adiante?
Teve uma diferença grande… Numa entrevista como pesquisadora, a gente tende a fazer sinais de validação com a voz, né? E esses sinais de validação com a voz, como "ãhn?" e "nossa" demonstram curiosidade que pedem para a pessoa continuar [a falar]. Na edição do vídeo e da voz, ficam muito difíceis, tem trechos ótimos que, às vezes, não dá pra salvar se você não tem os recursos suficientes, como era o caso desse filme. Eu fui tendo que levar isso a sério e entendendo o que seria validação e demonstração de interesse naquele momento para que aquela imagem pudesse ir para o filme. Isso me levou a pensar em como a câmera tava intermediando a relação… A pessoa não precisa de validação, ela não tá falando comigo, ela tá falando pra câmera. Isso me levou a pensar na mediação da câmera e foi nesse momento que fui me tornando mais diretora.
Após a conclusão do documentário, o que mudou no seu próprio entendimento sobre democracia brasileira hoje?
[silêncio, olha para o lado] Talvez a democracia teórica e a democracia que cada um tem em sua cabeça sobre o que é, sabe? A democracia que eu tenho na minha cabeça passou a ser povoada por mais vozes - vozes que eu digo em interesses, ideias, concepções de mundo, passou a ser - ainda mais - plural na minha cabeça, por isso, ainda mais complexa, porque se supõe negociações, concessões, acordos. É um pouco a contradição da coisa, né? Mais vozes, mais dificuldade em colocar tudo isso em diálogo.
"Quando se muda um partido o que muda? Não é que não muda nada, muda um monte de coisa que é invisível para o cidadão comum e a gente tá cada vez mais incapaz de comunicar isso."
Pré-estreia de Território
Na próxima quinta-feira, 7, a partir das 19h, Telma Hoyler apresentará Território no Cine Bijou. Para participar, reserve seu ingresso aqui.




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