top of page

Astra Vaga transforma o terno corporativo em arte

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

O terno e a gravata, símbolos clássicos da eficiência e da vida corporativa, mudam de função quando atravessam o universo de Astra Vaga. Inspirado na figura dos salarymen japoneses, o figurino que antes comunicava disciplina passa a operar como linguagem artística, um manifesto visual. Dessa maneira, o projeto musical do português Pedro Ledo transforma símbolos do trabalho em arte. 


astra vaga
(Créditos: Hugo Adelino)

Criado em 2025, Astra Vaga marca o momento em que Pedro decide assumir por completo sua criação musical, após sua trajetória nas bandas The Miami Flu e Lululemon. Ao abandonar a rotina corporativa, o artista não rejeita seus signos: ele os reapresenta. O traje social, agora deslocado de seu contexto original, torna-se extensão do discurso sonoro do projeto, que cruza dream pop, pós-punk e uma melancolia urbana carregada de introspecção.


A comunicação está presente no visual e na sonoridade de Unção Honrosa (Saliva Diva, 2026), álbum de estreia do músico. O trabalho se constrói como um reconhecimento silencioso após anos de desgaste emocional, evocando ideias de reconciliação com o passado e reparação interior que atravessam as nove faixas do disco. As canções foram compostas e produzidas em estúdios improvisados nas diferentes casas onde o músico viveu no Porto, quase sempre em sessões noturnas, depois do expediente. Esse contexto influencia diretamente o clima do álbum, que soa denso, urbano e confessional.


Sem filtros, Astra Vaga aborda temas como depressão, saudade, desencanto amoroso e o desejo de libertação pessoal, usando a música como espaço de elaboração emocional. A melancolia, aparece como fio condutor da obra, não como estagnação, mas como movimento interno. Essa atmosfera já vinha sendo anunciada pelos singles lançados em 2025 - "Lamento", "Cor-de-rosa", "Noite a Cair" e "Roxo" - que funcionam como fragmentos sensíveis do universo do disco.


Leia também:


Depois de uma década inseridos em bandas, como tem sido assumir integralmente o controle criativo de Astra Vaga? 

Foi e ainda está sendo um processo de aprendizagem. Toda a vida tive o hábito de consultar os meus colegas de banda para mostrar ideias musicais e pedir aprovação deles, e agora com Astra Vaga tive que aprender forçosamente a confiar em mim para tomar todas as decisões e perceber o que realmente gosto porque a única barreira entre as minhas ideias e o que fica registado, agora, sou eu.


Astra Vaga surgiu em 2025, mas dialoga intensamente com o passado e o presente. Esse projeto representa um ponto de chegada ou um recomeço emocional na sua trajetória?

É claramente um recomeço emocional, estou trabalhando duma forma completamente diferente a nível musical, explorando outros caminhos e estéticas e expandindo a minha arte a outros lugares tal como o vídeo analógico e a vídeo arte.


O rompimento com a vida corporativa é um dos símbolos presentes no projeto. De que forma essa decisão atravessa a estética, o som e o discurso do álbum?

Afeta sobretudo as letras do disco, que falam de libertação pessoal e refletem o desejo que eu sempre tive de me poder dedicar inteiramente à arte, 24 horas por dia, sem ter que levar uma vida dupla com a qual nunca me identifiquei.


O título do disco evoca reconcili

astra vaga
(Créditos: Whynotpipi)

ação com o passado e o interior. Quando percebeu que era possível transformar o desgaste emocional em música? 

Na verdade, acho que sempre usei a música (tanto agora, como em bandas passadas) para expressar o desgaste emocional e frustração, por isso não é algo inteiramente novo em Astra Vaga. No entanto, agora sinto que consegui levar ainda mais longe essa forma de expressão.


Unção Honrosa foi criado depois do trabalho, com sessões tardias e introspectivas. Você encara esse trabalho como um processo de catarse pessoal e/ou como um convite para que o ouvinte revisite também suas memórias e reflita sobre? 

Ambas.


"O título evoca reconciliação com o passado e reparação interior, um reconhecimento silencioso depois de anos de desgaste emocional."

As sessões noturnas influenciaram o clima urbano e melancólico do disco. Como esse contexto moldou o estado das composições? 

É difícil de exprimir concretamente essa influência mas diria que o facto de compor de noite e "after-hours" fez essencialmente com que eu pudesse estar focado a 100% na música, sem nenhuma outra distração. A noite é boa conselheira.


Em "Cor de Rosa" você diz que é duro recordar. Precisamos mesmo revisitar o passado para seguir adiante? 

Penso que não, mas a verdade é que se não estivermos resolvidos com o nosso passado, ele sempre volta para nos fazer refletir no futuro. Eu gosto de ver o passado com “lente cor-de-rosa”, mais belo do que o que realmente foi, daí que essas memórias se transformem ao mesmo tempo em sonhos, que não refletem a realidade a 100% mas que me dão asas ao imaginário.


"Ninguém me vê" traduz sentimentos que são difíceis de serem falados. Hoje, após criar a canção, você alcançou a vida que sempre quis? 

Não, e acho que isso será sempre inalcançável. Mas na verdade é que nunca estive tão satisfeito na minha vida como estou agora. Estou finalmente a viver da forma que sempre quis. Poder-me expressar artisticamente de forma livre e sem amarras é a melhor sensação que alguma vez senti.


Agora que Unção Honrosa está no ar, você é capaz de levantar e seguir em frente? Se sim, como imagina o seu caminho? 

O caminho é continuar fazendo música e andar a mostrar ao maior número de pessoas. Tocar as pessoas com o que eu faço e perceber que existem pessoas que sentem o mesmo que eu é a maior gratificação que obtenho da música. Entretanto já tenho alguns rascunhos do que virá a ser um próximo disco e quero muito preparar uma tour para levar Astra Vaga ao Brasil no próximo ano.



©2020 por desalinho.

bottom of page