Malammore transforma vivência em resistência artística
- Michele Costa

- há 6 dias
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Para Abdias Nascimento (1914-2011), a arte sempre foi mais do que expressão estética: era uma ferramenta de afirmação, resistência e construção de identidade diante de um mundo que historicamente tentou invisibilizar corpos e narrativas negras. Ele via na criação artística um meio de reabilitar e celebrar valores culturais negados, transformando a própria arte em gesto político. Esse pensamento ecoa na trajetória de Malammore, projeto musical de Sandro Feliciano, artista que compreende a arte não apenas como expressão pessoal, mas como espaço de afirmação de subjetividades historicamente marginalizadas.

Nascido em Lisboa em 2025 e adotado ainda criança, Malammore encontrou na arte um território de pertencimento e reconstrução. Sua trajetória pessoal - marcada pela adoção, pela busca de identidade e pela vivência como indivíduo negro - alimenta sua obra e posiciona sua experiência no centro de sua criação. Ao transformar a própria história em matéria de composição em Aurora (2026), o artista dá voz às tensões e buscas que atravessam sua relação consigo mesmo e com o mundo. "A ideia do álbum surgiu a partir de um caderno meu repleto de poemas, histórias e a forma como eu me vejo neste mundo. É um testemunho da experiência negra em Portugal, do pertencimento e da alienação. Do amor e da perda", explica.
Em Aurora, o músico utiliza como um dos conceitos centrais a ressignificação da visão do "buraco negro", invertendo a metáfora para "buraco branco do mundo", representação de um universo eu apaga identidades. Ao preenchê-lo com a ideia da negritude, articulada a partir de pensamentos de Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, ele desafia narrativas dominantes e propõe uma reestruturação do olhar sobre os corpos negros na sociedade.
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Você diz que a arte te ajudou a criar um espaço de pertencimento. Em que momento percebeu que criar não era apenas expressão, mas também reconstrução pessoal?
Desde bastante cedo que escrevo poemas, por volta 12 anos foi quando comecei a levar até mais a sério. Além de gostar de ler, escrever sempre fez parte como forma de expor frustrações, revoltas e algumas alegrias também.
Aurora é um álbum extremamente pessoal, onde você conta sua história e vivências. Como foi contar essa história? Aliás, o que você espera que o público encontre e sinta ao ouvir o disco?
Este álbum acaba por ter várias histórias mas mais do que identificação, procuro que haja reflexão, é isto que pretendo que o público faça. São histórias simples em que por algumas metáforas podem ter várias interpretações e acho isso também importante, a música ser adaptada aos ouvidos e à interpretação do público.

O disco aborda a dificuldade de pertencimento e a resistência cultural no seu país de origem. Pode-se dizer que Aurora foi um espaço criado para você ser você mesmo?
Não, sempre fui eu mesmo, a Aurora só expõe quem eu sou, mas não o faço só através da música. A Aurora é talvez a forma mais fácil de compreender a minha forma de ver o mundo, vai desde amor e desamor, ao racismo, à política e consciencialização social. Não vi dificuldade na pertença porque este país sempre foi o meu, o lugar onde cresci, há é dificuldade de aceitação por parte da sociedade em perceber que pertenço aqui. Tudo é um pretexto para me tentar distanciar daquilo que sou. Um português negro.
"Não Quero Que Chores" é uma homenagem aos seus pais, porém, me chamou atenção a estrofe "se eu tiver um filho, não quero que ele chores". Como acha que as novas gerações serão aceitas no mundo?
Preocupa-me muito não só como serão aceites mas também como serão educadas? Se for na linha da desinformação, do ódio não haverá aceitação, se ainda hoje existem diversos problemas com a integração do diferente, o futuro não se adivinha melhor. Mas gosto de acreditar que pode ser diferente o quero que os meus filhos, possam ser felizes neste mundo.
O tempo - sua passagem, suas feridas e sua relação com a juventude - aparece em seu trabalho. Como você tenta reconciliar essas tensões em suas canções?
O tempo é algo que me assusta, não para! Chego a pensar se devo dormir ou não para poder aproveitar mais o dia. Há uma urgência na vida por causa desse cronómetro, urgência em é passar uma mensagem, urgência em aproveitar a minha juventude, desfrutá-la com quem mais amo, urgência em sentir-me realizado com o trabalho e vida.




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