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Mulher em Fuga

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • 21 de jan.
  • 3 min de leitura

Ela repete que vai embora, ser livre, de diversas maneiras. Seus gestos e falas apontam pela fuga - palavra que, ao passar o tempo, ganha novos significados como, por exemplo, vingança e beleza. A mulher que fala e gesticula está no palco e se chama Monique. Aos 55 anos, ela decide recomeçar. Com coragem e ênfase, afirma que abandonará o homem violento - como fez com os dois ex-maridos - e que será livre. Após criar cinco filhos e anos de sofrimento, a mulher está em fuga. 


Adaptada dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (Todavia, 2023) e Monique se Liberta (Todavia, 2024), do jovem escritor Édouard Louis, Mulher em Fuga narra a trajetória da mãe do autor, transformando uma história íntima em reflexão política. Sob direção de Inez Viana e dramaturgia de Pedro Kosovski, o espetáculo evidencia que a violência de gênero não se resume ao ato físico: ela também se manifesta na falta de renda, na ausência de oportunidades, no peso do trabalho de cuidado invisibilizado e na dificuldade de acesso a recursos que possibilitariam mudanças e, consequentemente, escolhas.


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(Créditos: João Pacca)

O cenário é composto por uma mesa, cadeiras, duas divisões e uma iluminação que sugere um ambiente doméstico. Os poucos objetos remetem ao lar em que Édouard viveu na infância, descrito em suas obras. A peça começa no escuro. Em seguida, com pouca iluminação, Monique (interpretada perfeitamente por Malu Galli) entra em cena e dança em silêncio, sorrindo. Depois é a vez do filho (Tiago Martelli) sentar-se em uma cadeira para iniciar a narrativa. A semelhança física com o escritor causa impacto num primeiro momento, mas logo se dissolve quando a narração começa. 


Me recordo de uma parte de Lutas e Metamorfoses de uma Mulher em que o escritor relata que, ao contar a história de sua mãe, percebeu estar narrando a trajetória de “uma pessoa que lutava pelo direito de ser mulher, contra a não existência que lhe impunham sua vida e a vida com meu pai”. Diferente dos homens com quem Monique se relacionou, ele a enxergou como mulher - não apenas como mãe, cuidadora do lar ou responsável pelos filhos. 


“Ela tinha certeza de que merecia outra vida, de que essa vida existia em algum lugar, abstratamente, num mundo virtual, de que seria necessário muito pouco para alcançá-la, e de que sua vida só era o que era no mundo real por acaso.” 


Esses dois corpos, emprestados a Mulher em Fuga, percorrem o palco por 90 minutos. Ela sobe na mesa, fuma, recria o cotidiano de uma mulher exausta, grita, chora, sofre e se anima; enquanto ele ocupa posições estratégicas para que ela tenha o destaque necessário para expor sua realidade. Assim, a adaptação aproxima essas duas vozes - mãe e filho - em um grito cênico que evidencia conflito e afeto, memória e insurgência. 


Os diálogos - alguns fiéis aos livros - são duros de ouvir. Quando Monique expõe suas dores e sonhos, é impossível não pensar nas inúmeras mulheres presas a relações violentas. Por mais dolorosa que seja, a peça reforça uma ideia central na obra de Louis: sem poder econômico, a fuga deixa de ser uma metáfora e se transforma em uma questão de sobrevivência. Para ser livre é preciso ter uma casa e dinheiro, como escreveu Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu (1929). 


Com o suporte do filho, Monique se liberta. Muitos afirmam que Édouard foi essencial nesse processo, mas, para mim, foi ela quem reuniu coragem suficiente para repetir, incansavelmente, que seria livre. (“Eu queria ir embora antes que ele me tornasse uma pessoa má, como seu pai me tornava uma pessoa má”.) Dessa maneira, a peça nos obriga a compreender que o problema está no sistema, não apenas no indivíduo, e que a transformação começa quando oferecemos às mulheres condições concretas de existir e prosperar. 


“(…) Ao ler esta história, você também deve se perguntar: Por que alguns fogem, enquanto outros não têm do que fugir? Por que alguns precisam correr sempre, enquanto outros podem dormir? Por que alguns precisam lutar sempre, enquanto outros podem desfrutar? (…)”


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