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No Muro da Nossa Casa

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

O que os muros pichados podem dizer da família que reside naquele lugar? Devemos acreditar nas palavras escritas? Em que momento reconhecemos a violência contida na frase dirigida ao outro? Aliás, a afirmação é verdadeira ou falsa - ou apenas produz verdade pela força das palavras? Em No Muro da Nossa Casa (Bazar do Tempo, 2024), Ana Kiffer nos faz refletir sobre essas questões ao narrar a própria história e o sofrimento da família durante a ditadura civil-militar brasileira.


O relato tem início em 1968, ano da promulgação do Ato Institucional nº 5, que autorizou a cassação de mandatos, a intervenção federal em estados e municípios e a suspensão de direitos e garantias constitucionais, como o habeas corpus. É nesse contexto de endurecimento da repressão que Cléa, mãe da escritora, é presa dentro de casa por militares. Grávida de seu terceiro filho - a primeira menina -, ela é confinada e torturada em razão da perseguição ao marido, o deputado João Kiffer Netto, que se encontrava escondido com o apoio do governador. Dessa maneira, a prisão, o medo e a violência passam a perpetuar a vida familiar, instaurando um pacto silencioso entre todos. 


Após o falecimento de Cléa, a história dos tempos sombrios ressurge na forma de um diálogo fictício entre mãe e filha, em uma busca dolorosa pela verdade e pela possibilidade de reescrever um novo começo por meio da palavra. Amparado por memórias e documentos, No Muro da Nossa Casa se apresenta como o gesto que Ana encontra para romper o silêncio, permitindo que aquelas palavras - escondidas por anos - finalmente emergem carregadas da fúria recalcada.


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no muro da nossa casa
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

A história começa com uma imagem forte: a mãe, grávida, limpando a frase "aqui mora um bandido comunista", escrita em tinta vermelha no muro da casa onde vivia com os filhos e o marido. O gesto raivoso mostra que Cléa gostaria de esquecer aquele momento para seguir adiante, acreditando que o esquecimento era a melhor maneira. "(...) Quanto mais apagava tinha certeza de que nada se apagaria, e mesmo assim esfregava, esfregava, com o custo de apagar a todos nós, decidi que esfregaria até o último traço vermelho, de tinta, de sangue, de vida. Tudo o que queria era apagar. Apagar todos os traços passados das nossas vidas." 


No decorrer da narrativa, descobrimos que o pai da autora não era comunista, mas, por defender transformações no Brasil, acabou enquadrado e rotulado como tal. O peso de compartilhar as ideias do marido se manifesta na culpa que Cléa carrega por ter colocado os filhos em perigo, sobretudo a filha que foi torturada junto com ela. "A única pergunta sempre foi: como se salvar? No nosso caso salvar-nos era salvar vocês três. Você ainda comigo. Respirando dentro. Não havia filtros possíveis. Tudo estava ali. (...)" 


"(...) Como nasci depois de tudo, senti muitas vezes que aquela não era a minha casa, nem a minha vida. Sentia dor, e pena, sentia tanto por vocês, como se vocês não fossem minha família. Me sentia sem rumo, como se não estivesse ali. Outras vezes sentia que vim para tirá-los dali. Como se minha missão tivesse sido salvá-los da tristeza, e ser só alegria."

Diferente de obras que abordam a ditadura a partir de seus marcos institucionais, No Muro da Nossa Casa a apresenta como uma presença difusa que atravessa corpos, memórias e relações familiares. A violência do regime não se encerra com o fim da prisão: ela se prolonga no cotidiano, nos gestos contidos e na dificuldade de narrar. Dessa maneira, No Muro da Nossa Casa se constrói a partir daquilo que nunca foi dito: os silêncios que se instalaram tanto nas casas de quem foi perseguido quanto na vida daqueles que não viveram diretamente os anos de chumbo, mas cresceram sob sua sombra.


Nesse sentido, o silêncio não aparece como ausência, mas como herança. Filhos e filhas aprendem a decifrar o passado por meio de sinais, olhares e autocontroles. Em suas 98 páginas, o livro evidencia como a ditadura produziu uma verdadeira pedagogia do medo, ensinando a calar como estratégia de sobrevivência. A violência política, assim, se converte em marca íntima, transmitida entre gerações e pelo cordão umbilical. 


A mãe em No Muro da Nossa Casa: viver apesar do trauma não elaborado


O silêncio da mãe - iniciado ainda durante a gestação - está presente em toda a narrativa; assim como sua força que não se manifesta em discursos públicos ou gestos espetaculares, mas na resistência cotidiana: criar os filhos, manter a casa de pé, sustentar a vida apesar de um trauma nunca plenamente elaborado. Essa figura dialoga diretamente com Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres no filme Ainda Estou Aqui (2025), de Walter Salles. Ambas encarnam mulheres que enfrentaram os anos de chumbo sem o direito da fala e do luto pleno, obrigadas a sustentar a vida enquanto o Estado produzia desaparecimentos, apagamentos e mentiras oficiais.


Assim como Eunice, a mãe em No Muro da Nossa Casa representa uma forma de coragem historicamente pouco celebrada: a de quem suporta o peso do silêncio imposto e, ainda assim, permanece. São mulheres que não escolheram o heroísmo, mas foram empurradas para ele pela brutalidade do regime. Sua força reside na permanência, na tentativa de proteger os filhos do pior sem jamais conseguir protegê-los completamente da herança do trauma.


"Eles conseguiram se infiltrar na nossa casa, a tinta vermelha no concreto; atrás dele, um pedaço da prisão de vocês. Fui acreditando, sem saber, ao longo da vida, que o interrogatório era um método, que a palavra teria que ser sempre verdadeira. Há de reconhecer que não conseguimos matar esse bicho."

Ao transformar o muro em metáfora e a casa em campo de disputa da memória, Ana reafirma que a ditadura não se encerrou com o fim formal do regime. Seus efeitos persistem nos corpos, nos afetos e nas narrativas fragmentadas de quem viveu - e de quem herdou - seus impactos. No Muro da Nossa Casa evidencia que, quando permitimos que a palavra finalmente atravesse o muro, escancaramos o passado para que ele deixe de se repetir como trauma.

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