Uma Vida Pequena
- Michele Costa

- há 2 dias
- 3 min de leitura
No artigo "A leitura algorítmica matou o prazer", o pesquisador Gabriel Mattos levanta um questionamento pertinente: "estaria a leitura, nosso refúgio analógico, também se plataformizando sob uma lógica de performance?" Desde 2020, o TikTok transformou-se em uma comunidade digital de booktok, na qual usuários compartilham leituras, competem para finalizar obras e, consequentemente, conquistar likes e ampliar o engajamento. Embora esse movimento incentive o hábito da leitura, ele pouco contribui para a formação de leitores. Um exemplo disso foi o fenômeno em torno do livro Uma Vida Pequena (Record, 2016), de Hanya Yanagihara.
O calhamaço já chama atenção pela capa: a imagem de um homem chorando. A partir desse elemento, antecipa-se o tom dramático da narrativa. Dessa maneira, Uma Vida Pequena narra a trajetória de quatro amigos que se mudam para Nova York em busca de uma vida melhor. Lá, eles se veem falidos, sem rumo e amparados apenas pela amizade e por suas ambições. Willem, belo e generoso, é um aspirante a ator; JB, nascido no Brooklyn, é um pintor perspicaz e por vezes cruel, determinado a ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado que trabalha em uma empresa de renome; e Jude, um advogado solitário, brilhante e enigmático, funciona como o centro gravitacional do grupo.
Tendo Jude como protagonista, a obra revela um passado marcado por traumas profundos e experiências dolorosas desde a infância, alternando entre presente e passado para mostrar como esses acontecimentos moldaram sua vida adulta. Em entrevista, a autora afirmou que a estrutura do livro foi pensada para driblar o leitor, pois "você acha que é uma história de ficção típica de um subgênero que eu adoro, o pós-universidade. Mas, na segunda parte, percebe que está no meio de algo próximo de um conto de fadas".
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O início da narrativa se apresenta como um livro "normal", atravessado por conflitos comuns a qualquer indivíduo: inveja, desejos, sonhos e fantasmas do passado. No entanto, com o avanço da história, surgem episódios cada vez mais perturbadores, marcados por práticas autodestrutivas recorrentes do protagonista em momentos de desespero. Posteriormente, a autora explica as motivações desses comportamentos, intensificando ainda mais o impacto emocional sobre o leitor. É evidente que a vida pode ser dura e que muitos enfrentam sofrimentos semelhantes aos de Jude, mas até que ponto é aceitável submeter o leitor a uma sucessão incessante de tragédias que se repetem ao longo de centenas de páginas?
Além do excesso de violência emocional, Uma Vida Pequena apresenta outras fragilidades. Sua estrutura é desorganizada, há repetição excessiva de palavras e situações e, por se tratar de um livro extenso, a autora retoma constantemente pontos já apresentados, o que torna a leitura cansativa. As histórias dos demais personagens não cativam, pois carecem de desenvolvimento e profundidade. Soma-se a isso a insistência na ideia de que Jude precisa se dedicar intensamente a algo para aliviar suas dores, reforçando um discurso de produtividade como forma de sobrevivência. Existem passagens sensíveis e momentos interessantes, mas eles não se sustentam por muito tempo, já que a desgraça sempre retorna - como se Yanagihara quisesse afirmar que não há qualquer possibilidade de beleza na vida. O livro seria muito melhor se tivesse no máximo 200 páginas.
Em Diante da Dor dos Outros (Companhia das Letras, 2003), Susan Sontag argumenta que o excesso de imagens pode provocar uma anestesia emocional, transformando o horror em espetáculo, além de criticar a conversão do sofrimento alheio em objeto de consumo visual. Embora seu foco esteja nas guerras, essa reflexão se aplica à obra de Yanagihara: por que a vida de um homem órfão LGBTQIAPN+ precisa ser atravessada por uma sucessão tão extrema de sofrimentos? Um livro de ficção deve expor todas as violências de forma tão explícita e reiterada?
O sucesso de Uma Vida Pequena nas redes sociais parece menos relacionado à complexidade de sua narrativa e mais à capacidade de provocar reações intensas e performáticas. Vídeos de leitores chorando, desabafos emocionados e desafios de resistência à leitura reforçam a lógica algorítmica apontada por Gabriel Mattos, na qual o sofrimento se transforma em capital simbólico. Assim, a dor deixa de ser apenas um elemento narrativo e passa a funcionar como espetáculo, esvaziando sua potência reflexiva.




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