top of page

As terras de Ricardo Nash

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 8 horas
  • 11 min de leitura

A palavra terra possui múltiplos significados. Pode ser o solo que sustenta a vida, o território de origem, o espaço de pertencimento ou à relação que os indivíduos constroem com a natureza ao longo do tempo. Em Moda à Terra (2026), novo álbum de Ricardo Nash, as diferentes interpretações se encontram para conduzir um trabalho que transforma música, tradição popular e reflexão ambiental em um mesmo percurso artístico.


ricardo nash
(Créditos: Kristina Gonçalves)

Cantor, ator, compositor e violeiro, Ricardo Nash apresenta um projeto desenvolvido ao longo de mais de duas décadas e que agora chega às plataformas digitais em formato de álbum de estúdio. Inicialmente encomendado pelo Sesc Pompeia e apresentado no Teatro Oficina como parte da defesa de mestrado do artista, Moda à Terra ganha diferentes dimensões ao reunir 16 faixas entre nove canções, sete temas instrumentais e momentos de recitação poética.


A partir da narrativa, o músico explora temas como a relação entre humanidade e planeta, os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente e a necessidade de buscar equilíbrio entre os seres que compartilham a Terra. Mais do que apontar problemas ambientais, o disco também propõe reflexão sobre transformação, pertencimento e reconexão com o mundo natural.


"Nós, enquanto população planetária, seguimos em desarmonia e somos o principal desagregador e destruidor da natureza. Crises climáticas e guerras de toda ordem assolam nossa atualidade. Cada um de nós é também responsável por todo esse pulverizar de sentidos. 'Amor e perdão' tornam-se, cada vez mais, apenas palavras de manipulação do que afetos honestos e necessários para uma vida em busca de equilíbrio. Eu quero crer nessa mesma humanidade com o potencial de agente de mudanças. As novas gerações estão aqui também para isso. Eu espero que Moda à Terra contribua, mesmo que como semente, na busca por relações mais saudáveis com a natureza e na convivência humana, nos encontros vida afora e vida adentro", declara.


Leia também:


Moda à Terra foi concebida ao longo de mais de duas décadas. Como o disco foi se transformando nesse período e quais ideias permaneceram desde o início? 

Para mim discorrer racionalmente sobre uma criação sempre foi tarefa árdua. Por mais que procuremos ou busquemos as palavras ideais… Palavras sempre escapam ao estado profundo e sensorial da intuição na hora de criar. Claro, existem as balizas: no caso de Moda à Terra, foi um trabalho inicialmente encomendado pelo Sesc para um formato solo de viola caipira e violeiro. A ideia inicial era abarcar a cultura regional, num primeiro momento paulista. Uma das referências iniciais era tomar a viola com a função de apoio/suporte à voz cantada como acontece tipicamente na moda tradicional de viola e isso a depender de qual região estamos falando, pois Moda de Viola existe em todo o país com estéticas diferentes (nos repiques, por exemplo). O curioso é que este projeto caminhou em sua primeira forma entre o início dos anos 2000 até 2006, onde aconteceram apresentações neste formato solo no Sesc Pompéia, na primeira Virada Cultural, e se tornou estudo de caso de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado – “Música Em(Cena): processo de criação em Mídias Diversas”, orientada por Silvio Ferraz, PUC-SP –, realizada a defesa prática e teórica da dissertação no Teatro Oficina, em 2006. De 2006 a 2023, o projeto ficou parado, mas eu não. No final de 2023, Moda à Terra foi contemplada na 7ª edição do edital apoio a música da cidade de São Paulo da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e neste novo momento compus novas músicas, revisei e atualizei as composições anteriores, e agora sim para ser sucinto, digo, que o que se mantém em todos esses anos é justamente o olhar atento à natureza e ao meio em que vivemos, para que nossas relações possam minimamente não serem destrutivas, ou ainda autodestrutivas. Nós, enquanto sociedade, enquanto seres que se relacionam uns com os outros, outras, ainda estamos caminhando e temos muito a aprender. E, nós, somos os devastadores, destruidores do planeta que nos oferece tudo. Este olhar permanece, mas quer acreditar que nossa humanidade-natureza é capaz de reverter este quadro destrutivo. Musicalmente, posso dizer que ao passar desses anos todos há um processo de amadurecimento como ser humano. Isto, obviamente, transforma a obra.


Como as diferentes camadas - acadêmica, artística e pessoal - influenciaram a construção da obra? 

Cada vez mais percebo que estas esferas: acadêmica, artística, pessoal coexistem amalgamadas de forma a não ser tão possível construir esta divisão. Ora, ser artista, apesar de querermos e precisarmos defender como uma profissão, em uma perspectiva mais profunda é um estado de ser, uma forma de existir, um jeito de olhar, um outro tempo para escutar. Podemos estudar a arte, história da arte, técnicas e teorias, estilos, estéticas, mas viver arte em essência é outra coisa. No entanto, ser artista, músico, ator, aí sim precisamos falar de demandas, tarefas e muito treino, e muita repetição, e muita exaustão, para se chegar em resultados. É uma dor até, não muito simples. Fazer arte é botar a dor, as dúvidas, as crises para fora e em perspectiva com o mundo. Um poema pode até nascer em instantes, e ali já está finalizado. Principalmente se o exercício for escrever um poema de supetão e deixá-lo na primeira forma. Mas, geralmente, não é assim que acontece: ralamos e ralamos sobre o material criativo horas e horas, dias, anos, décadas. Como é o caso desta obra: ela ficou dormindo por muitos anos para poder florescer no momento atual.


"Ainda elegemos monstros que fazem guerra, corrupção e são mais gananciosos que podemos ver. Mas a partir da ideia de que a natureza não é apenas uma extensão nossa ou vice-versa, e sim que somos natureza quando nos encantamos à terra que pisamos."

Você também é ator e multiartista. Essas linguagens influenciaram na narrativa e/ou na interpretação das músicas?

Uma das principais maneiras no meu processo de compor é a partir de insights, de imagens que vejo, imagino, ou ainda construo. Algumas imagens aparecem como cenas prontas, seja numa memória ‘reconstruída’, ou seja na criação de uma ‘memória’. No primeiro, no segundo e no terceiro álbum – todos disponíveis nas principais plataformas de streaming – percebo esta correlação. As músicas são como flashes de uma cena, desde a possibilidade mais real e coerente como em Achegar, música que convidei Ceumar para interpretar, e ela o faz brilhantemente: “lembre a sua moça e vá ver o luar sereno cantando, lembre a sua moça”, ou, ainda na mesma canção, algo mais subjetivo, mas que remete à brincadeiras, rodas, ou a um imaginário popular: “Não se mexa nem se atreva / Pode se apresentar / Quem tem pressa, / se apressa, não se achega / já nem lembra de brincar”. Tem vezes que percebo uma música como se fosse uma dança, mas tem vezes que a música é um quadro (em movimento).  Ainda, na forma como canto, como interpreto, sinto que estou contando uma história, narrando algum acontecimento por mais não-linear, e subjetivo que seja. Desta forma percebo que as linguagens se cruzam, e, fazendo uma analogia brincada, a linguagem matemática está na língua portuguesa, assim como a língua portuguesa está na matemática, uma coisa não acontece e nem nasce sem a outra. As referências vão se cruzando cada vez mais, e vejo isso como tendência. 


ricardo nash
(Créditos: Raphael Gonçalves/MoviePlay, Morgana Eir)

O disco alterna entre canções, instrumentais e recitação de poesia. Como você pensou na organização dessas linguagens para criar uma experiência coesa? 

O roteiro desse trabalho foi criado, como eu disse anteriormente, a partir do convite do Sesc que tinha como referência diversos trabalhos anteriores também encomendados, onde tínhamos (eu e meu parceiro de cena e criação, Nilson Muniz) a tarefa de construir uma cena que cruzasse as linguagens de teatro, música, literatura/poesia e dança. Fizemos várias performances autorais lítero-musicais neste formato onde mesclávamos teatro, dança, música e poesia basicamente, como dito. Na pesquisa de mestrado, e antes na graduação, e antes ainda já me atraía muito a experiência vanguardista dos cubistas, e de todos os outros, mas foi no cubismo, a partir da ideia sobreposição de imagens, a quebra da linearidade e outras características desse movimento a mim sempre foi muito inspirador. Eu fui banhado desse conhecimento, dos vanguardistas por incríveis mestres na faculdade, e no mestrado que traziam as experiências vanguardistas, não só em suas aulas mas também em seus trabalhos. Fui influenciado demais por isso, e já tinha também essa essência como criador. E aí utilizando como base ideias de filósofos pós-estruturalistas como Gilles Deleuze e Félix Guattari fui buscar e utilizar uma das noções básicas onde Deleuze defende a ideia da coesão de elementos distintos, heterogêneos a partir da variação do ritmo entre eles. E nesse caso o ritmo é também o ritmo musical: o baião, o pagode de viola, o fandango, o boi, o cateretê, mas não só esse ritmo e sim o ritmo compreendido de uma forma para além da música. Ritmo nos ciclos distintos da vida. Então, é na busca de construir essas diferenças, tentando desenvolver variações rítmicas tendo essa base norteadora, que organizei as linguagens cruzadas como ‘urdimentos’ do roteiro.


A viola caipira aparece como o fio condutor do disco. Como foi equilibrá-la com folk e música de concerto? 

Quando fiz as primeiras apresentações nos idos de 2000, como já dito anteriormente, foram apresentações solo. Quando fiz a gravação demo para registrar a primeira etapa do projeto (e mal poderia imaginar que ele chegaria onde chegou) convidei o músico Manuel Pessoa para tocar flauta transversal, pois inicialmente concebia o trabalho desta forma. Sentia vontade que esse trabalho fosse mais estruturado musicalmente: que ele fosse arranjado para uma banda. No entanto, naquele momento eu não tinha estrutura para ir mais longe, queria uma banda, mas ainda não era possível, não era ainda o momento, que só chegaria bem adiante. Foi apenas em 2023, quando estava escrevendo o projeto para o edital, que concebi juntamente com o parceiro que convidei para fazer os arranjos, William Guedes, quando definimos juntos a instrumentação sinfônica. Assim, todos os arranjos sinfônicos foram concebidos por William e todos os outros arranjos um pouco menos da metade do álbum foram criados por mim, Felipe Soares e Mauricio Damasceno. Acredito que este equilíbrio se deu naturalmente em função da variação dos músicos envolvidos nesta criação de arranjos. 


O álbum traz uma forte reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. Como tem sido cantá-las nos dias atuais? 

Bom, este é o tema central do trabalho. Especificamente, abordando o momento ao vivo, posso dizer, que apesar de ainda ter feito poucos shows deste projeto tem sentido uma grande oportunidade de realizar trocas com a plateia e audiência em geral. É perceptível pelas reações que a plateia fica tocada com o tema, com a musicalidade do trabalho, se envolve e, durante as apresentações, entre as canções existem os momentos de troca, diálogo, uma conversa sincera com as pessoas e sinto que a mensagem chega. A provocação para a reflexão acontece.


A palavra terra está presente em toda narrativa do disco. O que ela representa para você? 

Representa o planeta Terra, assim como também representa o próprio elemento terra. Nossa relação com o planeta, nossa relação com a terra que pisamos, e obviamente, isso está refletido ou ainda esta relação é reflexo direto de como nós nos relacionamos com a vida de forma geral, Especificamente, o que deve ser tudo: as relações - ‘deve ser tudo’ porque não existimos como projeto isolado. Somos por essência relação com o meio em que vivemos. Todo o meio. E isto é um grande desafio. Vários desafios, por exemplo, um dos mais difíceis para nossa humanidade, respeitar as especificidades, idiossincrasias de cada indivíduo, aceitar o/a outro/a como ele é. Assim, outro desafio, exemplo é entendermo-nos sendo também o próprio meio. Ailton Krenak costuma dizer que está na hora de pararmos de achar que a natureza é algo diferente de nós…, ela nem chega a ser extensão: somos a própria natureza. Por este ponto de vista, quando destruímos a natureza, obviamente estamos nos destruindo. Isso fica cada vez mais nítido quando vemos as destruições naturais que têm sido cada vez maiores e com mais frequência. O retorno disso é à Terra pisar em nós trazendo as catástrofes naturais, e ‘o céu desabando sobre nós’.



Em “Encantar-se” você canta “encantar até a terra que pisa”. Qual o sentido de encantar na canção? Aliás, você acha que ao encantar o indivíduo dará o respeito necessário à terra? 

Veja, podemos compreender de uma forma simples, binária, dual: sendo que a pessoa que pisa na terra já está sendo encantada por estar em contato com a Terra (inclusive já temos muitas pesquisas que explicam como este fenômeno bio energético de troca acontece e o quanto ele faz bem para nossa saúde) estar em contato com a natureza. Sim, fará muito bem para a pessoa o contato com a terra, mas ainda não é necessariamente o suficiente para acontecer essa conscientização. Isto é um processo lento para nós enquanto humanidade. Ainda elegemos monstros que fazem guerra, corrupção e são mais gananciosos que podemos ver. Mas a partir da ideia de que a natureza não é apenas uma extensão nossa ou vice-versa, e sim que somos natureza quando nos encantamos à terra que pisamos, e este ‘a’ é com crase realizamos uma troca, ou melhor podemos ser capazes de realizar uma troca, onde este encanto é um processo de retroalimentação - você alimenta a terra e a terra te alimenta: você pisa à terra que é pisada e a terra troca em quem a pisa. Há uma iluminação aí. Mas, é uma metáfora, e também uma ‘utopia’ que quero quer que não seja. Por outro lado, a ideia está aberta. “A obra é aberta”, como diz Umberto Eco. É mesmo para que o sentido fique amplo, até dúbio e possa gerar questões: podemos caminhar juntos em equilíbrio e com saúde ou de forma oposta podemos achar que somos potentes o suficiente para extrair tudo o que queremos e ambicionamos da Terra sem que depois disso ela nos pise!? E aí neste caso sim será um pisotear em nós, e neste caso não há encantamento. Como fazemos para caber todxs nessa Terra? 


Já em “Terra Irmã” você diz que é “tempo de sonhar, experimentar”. Com o que sonha? 

Gravar ‘Terra Irmã' foi um presente oferecido por Ceumar. Esta música é de autoria de Ceumar e Pedro Destro. Sendo assim os sentidos originais ficam a cargo da dupla criadora, no entanto, a beleza da obra é sua abertura para a vastidão de sentidos que uma mesma letra musical possa gerar em cada um/uma que a recebe. Assim também funciona - na minha visão - para o intérprete da letra. Esta letra toca para mim em vários pontos. No sonho de um tempo em que não haja mais ganância e que tenhamos finalmente a percepção de que nós e a natureza somos uma coisa só, repito que não como extensão mas que como natureza mesmo, desta forma temos que confiar que podemos plantar pensamentos e ações que permitam uma vida com menos ambição, mais trocas, mais escuta nas relações. 

Eu não me canso de sonhar. Sonho com um mundo melhor, fazendo uma ponte com a canção ‘Terra Sonha’ eu digo: “Sonho o mundo mais simples, / Que a ganância não cegue, / e não siga não…./ Sonho esse mundo mais simples, / sem tanta vaidade,  / sem guerra”.


Moda à Terra convida o ouvinte a desacelerar e observar a natureza e suas belezas, causando uma reflexão importante e necessária. Você acredita que a música pode sensibilizar as pessoas diante das urgências do mundo contemporâneo? 

Eu diria que só há 3 formas de um indivíduo se sensibilizar diante de questões urgentes do mundo contemporâneo, do mundo. Edição, intuição, e arte. Ou via educação formal: haverá um mestre, um professor, um orientador que traga à luz as questões urgentes da vida. A arte de forma geral, seja pelo cinema, teatro, música, fotografia ou qualquer forma de arte que você possa pensar, percebo eu ser uma das formas mais efetivas de sensibilização humana, a música está nessa sacola. A outra possibilidade é rara e talvez não exista. É quando o indivíduo sozinho (mas quando ele realmente está sozinho, isolado, sabemos que é mais raro ainda!?) consegue perceber a realidade, consegue ter empatia pelo outro, pela outra, consegue olhar um arco-íris e ver nisso um espetáculo, é capaz de sentar embaixo de uma árvore e se sentir contemplado apenas de estar sentado embaixo de uma árvore, é parar e olhar para o mar, para as águas das cachoeiras e se sentir maravilhado com isso. Este já seria o poeta de alma? Os dois caminhos anteriores precisam culminar neste último, já que este último caminho é quase impossível de se caminhar sem que antes você tenha alguma referência. Se você nasceu no campo e não teve acesso à formação tradicional, será a própria roça, o próprio campo que te ensinará e não tem a menor dúvida que você aprenderá neste caso sozinho ou melhor com a vida natural. Sim, a música, e arte de forma geral, podem sensibilizar as pessoas diante de urgências do mundo.

Comentários


©2020 por desalinho.

bottom of page