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As micro belezas de Edssada

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 10 minutos
  • 16 min de leitura

Segundo o dicionário, beleza é uma "coisa bela, muito agradável, ou muito gostosa." Mas ela também está em diferentes lugares: nas grandes paisagens, nas obras de arte e, sobretudo, nas pequenas experiências do cotidiano que, na pressa dos dias, passam despercebidas. É com esse olhar atencioso que Edssada constrói Observatório das Micro Belezas II (2026), trabalho que transforma ancestralidade, território e pertencimento em música. 


O trabalho dá continuidade ao caminho iniciado em Observatório das Micro Belezas (2022). Se no primeiro trabalho o artista já revelava interesse pelos detalhes escondidos da vida cotidiana, agora amplia essa investigação artística e espiritual, aprofundando conexões entre memória, coletividade e sonoridade. O resultado é um disco que mantém vivas a oralidade, as tradições e culturas frequentemente empurradas para as margens do esquecimento. 


Integrante e cofundador de A Outra Banda da Lua, Edssada retoma ideias de Nêgo Bispo, posicionando a ancestralidade em lugar de destaque, a mais “alta tecnologia que persevera no futuro”. Além disso, a saúde e o amor vibram na liberdade de eu-líricos eufóricos pela vida e, nessa toada, a terra - Edssada e banda -, germina um som que ecoa Alceu Valença, Massive Attack,Tom Zé, Jorge Ben, Luiz Melodia, Chico Science & Nação Zumbi, com gotas de jazz fusion e música indiana.


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Você utiliza binóculos na capa do primeiro disco. O que o objeto ajuda a enxergar que era impossível a olho nu? 

Esse óculos vem dentro do contexto do álbum Observatório 1, como um signo mesmo, utilizado ali como uma espécie de leitura semiótica, mas tem esse paralelo que também é carregado para o disco 2 também, né? No primeiro [álbum] tem esse cerne, esse primeiro momento que traz um signo dentro desse contexto que leva para dois sentidos… Essa ferramenta é principalmente utilizada para ver pequenos detalhes, utilizada por pessoas que trabalham com joias e essas coisas, por isso eu utilizei ele, mas para ver belezas humanas - vêm aí as micro belezas. Essa narrativa vem, principalmente, do lugar que eu vivo que é Montes Claros, em Minas Gerais, norte de Minas, que é um lugar que tem uma cultura um tanto quanto de sertão, uma cultura de sertanejo, nesse sentido, como em várias outras geografias do nosso país, de Brasil profundo, né? [sorri] É perceptível essa coisa toda, de como a oralidade, como os trejeitos, os fazimentos gerais são muito simples… E a gente tende a, cada vez mais, criar barreiras com essa simplicidade, vamos dizer assim. O Observatório 1 traz esse lugar da gente poder tentar enxergar através de um álbum musical que também traz ali outras leituras para além do som, uma comunicação para além do som. A capa do disco já é uma outra linguagem, uma linguagem visual e tal pra gente abrir esse diálogo para que esse fazer simples, esse fazer interiorano, e aí eu ainda mais, não somente aqui ao norte de Minas, mas por esse Brasil profundo que a gente tem, né, para trazer essas formas de viver, elas são muito ricas. Essas micro belezas, na verdade, são uma espécie de utilizar essa pequenez - que a gente tenta colocar no lugar de pequenez - em gigante.  Essas micro belezas são, na verdade, o que movem toda uma maneira de se viver muito bonita, muito rica. 

Enxergar beleza é muito difícil em um mundo capitalista. Como enxergar essas micro belezas? Você tem alguma dica? 

Poxa, dica, dica… [risos] Preciso pensar mais sobre isso. Mas esse observatório é principalmente uma visão minha, sabe? De certa forma, essa leitura, tanto visual quanto de sentir, é [consequência] das relações que eu tenho - ter vivenciado em várias comunidades tradicionais aqui, inúmeras experiências em vários contextos, desde acompanhar plantios, colheitas até lutas também… Mas, assim, é um observar muito particular. E, claro, quem está próximo, dentro do contexto do álbum, as pessoas que participaram e participam, elas também têm uma leitura que, vamos dizer assim, tem confluência, tem ligação com a maneira que eu enxergo isso e sinto isso, né? Mas eu não sei se eu tenho uma dica, não. Acho que observar de coração aberto, cabeça aberta…. Acho que isso me move muito para as artes, para a música e para outras artes, mas principalmente como ser humano, assim, sabe? 


É interessante te ouvir, porque o seu trabalho foi criado a partir das suas vivências. Em que momento você percebeu que, a partir do que você viveu, poderia criar uma narrativa para os discos? 

Olha, tem bastante coisa, inclusive várias dessas músicas, desde o Observatório 1, que já vinham acontecendo composições e tal. Eu já passei por outros grupos, [como] Outra Banda da Lua, a Orquestra Catrumana do Groove Solto, o Baru Sonoro, que era um grupo experimental que eu tive aqui e que foi muito importante porque foi o embrião disso tudo. Tinham várias composições que, de alguma forma, não couberam em outros projetos musicais, vamos dizer assim, e isso, de alguma forma, foi muito legal, porque trouxe uma intimidade maior para poder traçar uma narrativa, sabe? Porque quando você está com outro grupo, outras pessoas, às vezes, tem uma direção diferente, etc. e tudo bem, eu acho que isso é super natural, mas ter acontecido isso fez com que trouxesse uma intimidade para eu realmente observar, assim, que eu poderia sustentar uma ideia, escrever sobre isso, compor, juntar sons e criar música sobre isso, e pensar imageticamente também sobre isso. Mas, assim, eu não me lembro muito quando isso virou, sabe? Porque é meio que muito orgânico a coisa. 

Só para te exemplificar: várias dessas composições e ideias, eu sempre partilho com os meus, com a galera que é envolvida comigo. Então eu levo coisas que, às vezes, eu não estou nem pensando para Outra Banda da Lua, mas eu levo para a galera e falo "estou rolando isso aqui, comecei a compor isso", "o que você acha? e tal." Eu não sei exatamente a data que isso virou, sabe? [sorri] Mas já tem um bom tempo que eu tenho tentado trazer, principalmente, essa leitura de que a música se torna realmente uma ferramenta social, um brinquedo, eu gosto muito desse termo, porque eu tenho compreendido dessa forma, mesmo trabalhando dentro de um contexto de mercado também, sabe? Mas é possível trazer esses pontos, essas ideias, até mesmo dentro do mercado, e eu acho que é aí que está, de fato, também, vamos dizer assim, uma luta, uma provocação para as pessoas, que a gente tende a música, as artes, vão se massificando de uma forma tão grande, a nível mercadológico, que a gente vai vivendo uma coisa cada vez mais plastificada. Eu acredito que trazer vivências, por isso o Observatório, essas observações, essas vivências que a gente vai tendo, trazer isso para a música, e de uma maneira cada vez mais afetiva e real possível. Eu acho que isso também molda, de alguma forma, mesmo que de uma forma muito pequena ainda, mas molda também o mercado, sabe? E moldar o mercado é moldar o pensamento crítico das pessoas que estão ouvindo, que estão recebendo essa informação e, de alguma forma, buscando uma comunicação com isso, sabe?


edssada
(Créditos: Maria Clara Miranda)

O seu trabalho é uma tentativa de desacelerar o tempo ou ressignificá-lo para outras pessoas? 

De certa forma, é, mas não totalmente, como eu gosto de dizer, não é estrategicamente pensado nisso, sabe? Mas existe, sim, uma leitura, vamos dizer assim, um ponto colonial nessa ideia do tempo mesmo. Porque a gente tende  a estar sempre corrido, e principalmente, trazendo para o seu contexto São Paulo que é um fluxo muito maior, o tempo realmente é outro. Eu já fui várias vezes praí e até hoje eu nunca me acostumei com este fluxo, sabe? Aí eu fico um pouco eufórico mais do que demais. [risos] Mas, de certa forma, é bom também, porque é provocativo, porque você está num outro lugar, e de alguma forma você perceber que o seu pulsar natural em outro lugar, realmente vai funcionar de outra forma, mesmo que isso demande um tempo maior para você se adaptar e tudo mais. A provocação [aparece] em ambos os álbuns nesse contexto do tempo… Agora que você me perguntou, tô pensando melhor…. A gente tem o BPM nas músicas, o andamento e tal, e até isso, em ambos os discos, eu busquei trabalhar com BPMs um pouco pra trás, um pouco mais lentos. Inclusive, uma leitura que eu gosto muito, em alguns contextos musicais, de downbeat, chill out, enfim, várias outras coisas também mais orgânicas, vamos dizer assim, porque também traz uma sensação tanto quanto diferente. Eu acho que tem sim essa provocação dentro dos álbuns, do Observatório 1 e 2, de como a música, como o som organizado de alguma forma, pode sugerir bem viver para as pessoas. No meu trabalho certamente continuará tendo algo, mesmo que pontual em alguma música, sempre vai ter alguma coisa nesse contexto.

O que você espera despertar no ouvinte?

Despertar no ouvinte? Eu nunca parei para pensar nisso, de verdade. É curioso, porque as pessoas esperam que a gente, enquanto artista, dialogue com o público e tal… 

Que tenha um desejo preparado, né? 

É. Eu acho que, principalmente, de uma forma bem crua, bem real, eu quero abrir para o diálogo, buscar um diálogo, de alguma forma… Não tenho pretensão de você sentir isso ou aquilo, o que eu quero é abrir um diálogo, conhecer algo que, às vezes, é uma coisa que você não conheça, um tipo de cultura que ainda não chegou para você, principalmente a gente falando nesse contexto dos álbuns, eles têm realmente uma pauta ligada muito para essa parte de Brasil profundo, principalmente Gerais, né? Essa extensão aqui do Gerais tem as Minas, a gente entende que tem Minas e tem o Gerais e que é um estado só, mas dentro dele têm culturas muito diferentes, muito discrepantes mesmo, como em outros lugares também, existe um certo apagamento, sabe? Eu milito para que isso não seja apagado, essa leitura também que a gente existe, existem outras formas de viver, de cultivar coisas e tudo mais que não podem ser apagadas. Eu acho que a sua pergunta é uma maneira de abrir um diálogo.


Em "Chá de Moringa" há o questionamento "quer vontade pra viver, quer?" A frase me fez questionar sobre a vida que vivemos atualmente. Você acha que existe dificuldades para viver?

Eu acho que desde que o mundo é mundo o ser humano de alguma forma ele encontra e desencontra vontade para viver. [risos] E, claro, as coisas vão mudando e tudo mais. Por exemplo, eu tenho uma filha que é adolescente, ela tá vivendo um momento que eu já vivi e eu consigo perceber muitas coisas muito parecidas com o que eu vivi, e muitas coisas novas, maneiras de lidar com as situações. Eu acho que todo momento existe isso. Agora, em "Chá de Moringa", essa música em específico, eu tô falando muito sobre a minha pessoa, claro que eu acho que ela abre para outros lugares também, provoco isso, mas eu estou ali, meio escondido. Há alguns anos eu descobri uma síndrome super rara, e os sintomas dela já me acompanhavam, mas eu nunca tive algo tão forte em um momento. A moringa, essa planta super forte, tem propriedades ligadas ao ferro e essa síndrome é uma síndrome hereditária que eu vou levar para a vida inteira. E a moringa é um remédio, vamos dizer assim, que me ajuda a segurar a onda dessa síndrome. Eu não quis colocar isso muito à tona na música, essa coisa muito particular, mas, de alguma forma, tá ali. Por exemplo, essa pergunta, "quer vontade para viver?" eu estou fazendo para mim mesmo ali na música, sabe? 

Você precisa também desse questionamento, desse diálogo?

Com certeza! [sorri] O tempo todo, né? Não sei, eu tenho utilizado, igual te falei, a música como uma ferramenta social mesmo, como um brinquedo de bem viver, de tentar ser melhor. Claro que a gente tem questões mais técnicas e mais de ofício nessa lida, mas também tem esse lado real da vida, sabe? E claro, sempre vão me provocar e provocar, de alguma forma, uma abertura de diálogo para quem vai ouvir isso, né? Mas em "Chá de Moringa" tem essa coisa aí, é quase que uma coisa híbrida de ideias, que têm esse contexto dessa minha síndrome que eu me pergunto ali, eu me coloco nessa outra pessoa ali… Claro que eu falo assim, coloco na primeira pessoa algumas coisas, algumas músicas, mas tem essa possibilidade na arte, na música e em outras artes também, de você ampliar essa obra para além da sua pessoa, né? Pensar na gente enquanto humano, a gente tem muitas coisas em comum para além da própria ideia de espécie, né? Então, de alguma forma, acho que tem essa provocação, tanto interna, comigo mesmo ali, mas também abrindo para o ouvinte, no geral. 

É interessante como você traz poucas coisas sobre você na música, em primeira pessoa. É uma dificuldade em escrever em primeira pessoa ou você abrange porque não quer focar tanto em você e deixar as interpretações falarem? 

Não, não é dificuldade, não. Eu sinto que eu não me prendo muito aí, sabe? Uma coisa que me faz com que uma música, né, falando aí nesse contexto de música e tal, ela tome forma e eu levo para um estúdio para gravar e tudo mais, e para lançar, é sentir que a música está caminhando bem, sabe? Eu acho que vai muito do que a música está sugerindo ali, sabe? Não tenho limitação a essa questão, não. E, inclusive, vou até depois dar uma revisitada nas coisas que eu fiz para entender o que está a mais e o que está a menos nesse contexto. [risos]


"Moraesiana nº1 (Cosmos)" traz uma homenagem a Moraes Moreira, gênio que foi embora muito cedo, e também um olhar sobre o tempo. Como essas duas camadas - afetivas e filosóficas - se conectam? 

Essa música foi feita naquela época pandêmica, há pouco tempo atrás, bem pertinho, a gente tá muito próximo ainda do que rolou. Sempre gostei de Moraes Moreira e é até uma influência muito forte porque ele sempre fazia questão, inclusive, de trazer muito do cantadores e repentistas, misturados ao rock'n'roll também - isso era colocado desde a letra até na maneira de tocar também. Também tem esse lugar de pensamento crítico também… Na época que rolou "Moraesiana nº1 (Cosmos)" foi pensada nessa divisão que Moraes gostava muito de ser, de seis, de três e tal… Ele compunha muito assim e também traz esse lugar de pensar sobre a vida, como é que a gente tá, o que tá rolando, como a gente pode melhorar, o que pode ser feito. "Moraesiana" tem essa homenagem para Moraes e tem essa reflexão daquele momento pandêmico e eu acho que ultrapassa até o momento pandêmico, porque tem essas dificuldades da gente, os problemas da vida, cotidiano mesmo… Em algum ponto, a pergunta que tem em “Chá de Moringa” [“quer vontade pra viver, quer?”] liga com "Moraesiana" que é a vontade que a gente tem. Então, de certa forma, liga com a vontade que a gente tem - de certa forma, vira um ponto de ligação, uma maneira de costurar as coisas.


A música exalta mestres da tradição oral. Que papel a memória e a ancestralidade desempenham no seu processo criativo? Como foi criar o Observatório I e o Observatório II com esses temas? 

O papel, talvez seja o papel mais importante para o meu mover nas artes, principalmente na música, né? Mas nas artes, acabo namorando com outras coisas também, com escrita e com alguns testes com imagem, voltado para o cinema… Mas na música, principalmente, por fazer essa junção de organizar som com instrumento musical e o som pensando em corpo/voz. Eu sou adepto da palavra, por isso que eu tenho falado aqui com você dessa questão de comunicação, da comunicação ser uma via muito importante. E, novamente, vem essa defesa, essa pauta, essa bandeira de que essas formas de falar de uma maneira mais simples, que é considerada analfabeta, não sei o quê, elas trazem uma oralidade muito bonita, sabe? Que também é uma provocação a gente desconstruir esse conceito de que a figura fulana fala errado, é feio, não sei o quê. E não é, sabe? Por exemplo, nos interiores de São Paulo também tem um sotaque muito bonito e muitas pessoas, inclusive, na música, trouxeram isso, claro que em várias nuances, mas eu estou lembrando aqui daquela mesmo do Mutantes, [a canção “Dois Mil e Um”] “Astronauta libertado, minha vida” [canta, dando ênfase no “r”, vibrando o “r”]. Eu acho que trazer essas nuances para as artes é uma maneira de pautar esse lugar real da vida das pessoas. Eu não vou conseguir, na minha música, usar um “venha conosco”, saca? 

É ir contra quem você é…

Dá pra fazer isso, mas com certeza eu vou querer falar "vem com a gente", sabe? [risos] Eu não pretendo forçar algo, eu acredito muito nessa relação, de que as coisas precisam ser mostradas da forma que são mesmo, sabe? Essa oralidade faz muito sentido. 


(Edssada fala sobre oralidade em "Rua do Umbigo")

Os dois álbuns trazem o mesmo nome. O que mudou no seu olhar desde o primeiro Observatório até este novo disco?

Sim, tem várias camadas. Como eu falei, no primeiro eu fiz mais Caio e Andrézinho e os meninos tinham uma maneira de trabalhar, o Nihil Estudios, o estúdio deles, é um estúdio itinerante e tal, mas eles trabalhavam muito com EP, eles sempre faziam EPs, sacou? Em poucas músicas. Era a característica deles, a identidade deles. Então já no primeiro eu já tinha traçado uma ideia de algo que não pude fazer, tiveram músicas que não entraram - isso já é uma coisa diferente do 1 para o 2. Mas eu acho que tem uma certa maturidade musical, leitura, de como colocar a música no mundo e como partilhar, apesar que eu fiz um pouco no primeiro também, mas foi bem menos… Nesse segundo teve, até agora inclusive, que eu estou divulgando, o disco está super recém lançado, eu pude - no processo de fazer - partilhar ao máximo com as pessoas, principalmente na rede. Desde a pré-produção aqui em casa, aqui na sala, a gente ia registrando coisas e colocando na rede. Às vezes, a gente colocava coisas mais amplas e coisas mais técnicas também, porque acaba que tem um público também que saca dessa coisa mais técnica, de gravação, sabe? Então trazia isso também. Essa coisa de partilhar também com as pessoas, o processo, foi uma coisa que eu consegui amplificar do primeiro para o segundo e isso também é outra camada de poder me sentir bem, de dialogar na rede, apesar de que eu sempre fui da comunicação, mas de uns tempos para cá eu tenho conseguido me sentir mais empoderado, vamos dizer assim, de poder entrar na rede, trocar uma ideia, abrir uma coisa, uma conversa ali, explanar coisas. Mas tem essa coisa da maturidade musical, de perceber, de como compor de maneira cada vez mais com som e silêncio, sabe? Utilizar muito disso, elementos que eu já gosto muito, que é de música minimalista, mas ligado à música popular e old music assim, de conseguir traduzir, de conseguir colocar um trabalho de maneira muito gostosa, de muito querer, de maneira muito afetiva, amorosa, na partilha com quem está fazendo... E também tecnicamente, de conseguir realmente fazer o que tá na cabeça, [podendo falar] "é isso, eu quero um trompete que só vai dar essa nota em tal momento da música." Tem uma maturidade musical alcançada que está sendo reverberada em Observatório das Micro Belezas II


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(Créditos: Reprodução/Divulgação)

Realmente, no segundo disco vemos mais a questão da música africana. Alias, como as heranças africanas atravessam sua pesquisa musical e espiritual nessa composição?

Na verdade são memórias, um caldeirão, na verdade. A gente sabe de todo o contexto de como o nosso país, estando como está, é um grande caldeirão de culturas. Então, não é somente africana, mas tem esse peso gigante da diáspora afro-brasileira aqui e tudo. Eu acho que vem de coisas… Por exemplo, a primeira vez que eu vi um tambor foi numa Folia de Reis. No primeiro a gente não conseguiu gravar muito a percussão, já no segundo, a gente já conseguiu acessibilizar mais a rítmica, a ideia de clave rítmica nas músicas, colocando pra frente essa leitura na qual eu mergulho muito, sabe? Eu gosto muito da coisa de cordas e tal, mas a rítmica, me pega muito para compor primeiro, para a criação, e nesse álbum eu pude trazer mais isso. Mas eu acho que vem mesmo dessa vivência desde criança, saindo de Almenara, morando na beira do rio Jequitinhonha, por exemplo. Uma coisa que eu me lembro, antes eu não tinha esse entendimento, eu era muito pequeno, mas eu gostava de som e eu não sabia o que era música, esse entendimento de música, sabe? Mas eu estou lembrando aqui que tinha essa coisa da Folia de Reis e perto de casa, lá em Almenara, tinha a rua que era o vai quem quer, o Porto Velho, que era onde eu morava, e a aldeinha mais embaixo. Era uma rua só, que era uma das margens da cidade, que era inclusive a margem que estava ali na beira do rio Jequitinhonha. Tinha as lavadeiras, inclusive tem trabalhos [musical] delas, as Lavadeiras de Almenara… A gente tinha o costume de ouvir elas cantando e lavando roupa na pedra do rio [imita os sons que ouvia] e isso também era som. Hoje eu consigo organizar essas coisas e pensar como música e era muito comum. A gente ouvia aquilo, ouvia aquilo e pulava no rio para tomar banho, brincar e tal. Então vem desse lugar e isso me encanta e me faz reafirmar essa narrativa de trazer essa oralidade, trazer a cultura popular dentro do contexto da música que eu estou propondo, porque é algo natural, é algo que eu vi, vivenciei, vivo. Faz muito colocar isso em pauta isso… Essa coisa da rítmica, da percussão, do som, do pulso, acho que vem desse lugar de ouvir coisas, de estar atento sempre, poder participar sempre quando me cabe. 


Falando em vivências, "Mandinka" traz um patuá na música - quem nunca usou, não é? É um objeto que muitos avós faziam e levavam para os familiares. Ao lançar o seu patuá na vida, como canta, o que você espera desse objeto? Ele protege do que? 

Ali em "Mandinka", é uma história super curiosa. Eu conheci uma pessoa, que se tornou amigo, Fernando Mandinka, aqui em Montes Claros, no Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, o CAA. Ele trabalhou lá um tempo e Mandinka me contou um pouco, tanto dos povos Mandinka, do povo dele, da etnia dele e tal, e de como é que tava essa vivência dele aqui no Brasil, principalmente em nenhum lugar do interior do Brasil. Eu achei que isso foi um mote para chegar nesse lugar, dessa citação que você fez. O patuá é algo que é muito único, de cada pessoa, o patuá é muito íntimo. E aí tem essa, vamos dizer assim, coragem de fazer essa leitura imagética de “lancei meu patuá na vida”, eu abri o meu segredo aqui, esse tesouro que eu tenho para as pessoas que eu quero bem. É bem isso, assim, o que eu guardo de mais precioso, eu quero que os meus também tenham esse sentimento. Tem uma certa provocação nisso aí, por o patuá ser algo muito íntimo de cada pessoa, mas tem essa provocação de que é íntimo e precioso pra mim, eu preciso que seja precioso para os meus aliados também. É esse lugar da gente firmar o que é precioso pra gente, podendo firmar isso para pessoas que são nossas aliadas. Culturalmente isso tá dentro de algumas culturas específicas, mas a provocação dentro da música tá exatamente colocada para que isso seja feito não necessariamente você sendo de um terreiro, sabe? Isso pode ser uma leitura semiótica também, né? Você não precisa ser necessariamente do terreiro para poder partilhar com os seus, com as pessoas próximas e tal. 


Em "Tudo se Renova" você diz que continuará a caminhada. Para onde você quer ir? Você deseja alcançar algum lugar? 

Ah, eu desejo alcançar vários lugares. "Tudo se Renova", a música em si, é uma canção nova, mas tem o tema uns bons anos e tem uma versão dela no disco da Outra Banda da Lua em uma versão diferente, cantada em inglês, inclusive. No Observatório II, ela tá com uma nova roupagem e acho interessante porque eu vou colocando de uma maneira muito minuciosa, muito sutil, nas músicas. Inclusive, uma figura que é da música eletrônica - isso já cabe na sua pergunta - que tem um programa de rádio em Coimbra, Portugal, ouviu a música e colocou a música no programa e já abriu o diálogo - como a gente tinha falado. Ao sugerir o diálogo, ele se abre para diversos lugares, né? Eu quero tocar em vários lugares, mas não é exatamente tocar, é nesse lugar de experiência, de fazer vivência, de fazer uma residência artística, sabe? E, claro, levar um pouco o nosso contexto cultural que a gente tem. 



Em tempos de excessos, algoritmos e dispersão constante, talvez exista algo de revolucionário em olhar com atenção para o pequeno - e Edssada sabe bem disso. Seu observatório não aponta para o céu em busca do extraordinário, mira a vida cotidiana, os vínculos, a terra e as histórias que seguem resistindo. As maiores belezas são justamente aquelas que cabem no instante e, ainda assim, permanecem ecoando muito depois do silêncio.


Na próxima sexta-feira, 22 de maio, o músico leva Observatório das Micro Belezas II para o palco do Conversos Cultural, em Montes Claros (MG), a partir das 22h. Mais do que um show, o encontro é uma ótima pedida para embarcar no universo construído por Edssada e reaprender a enxergar aquilo que, quase sempre, passa despercebido. Garanta o seu ingresso aqui.

©2020 por desalinho.

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