O fado tropical de Rita Braga
- Michele Costa

- há 2 dias
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"Sou miúda, mas que importa?", questiona Rita Braga em "Sou Miúda", sétima faixa de Fado Tropical (2026). A canção, interpretada em 1930 por Hermínia Silva, transforma o seu tamanho em motivo de orgulho e é a partir daí que nasce uma ideia maior: o que realmente se projeta não é o corpo, mas o talento. Na voz de Rita, "miúda" deixa de ser limite e se torna presença, porque, quando a arte encontra seu lugar, qualquer medida perde importância diante da potência que se expressa.

O gesto ganha mais força quando se olha para o processo por trás do disco: movida por uma curiosidade quase arqueológica, a cantora portuguesa mergulhou em arquivos, livros, partituras e relatos sobre os primórdios do fado, descobrindo um universo distante da imagem cristalizada do gênero, ou seja, marginal, boêmio e subversivo. A partir da pesquisa, Rita não segue a tradição, mas reimagina-a, mantendo letras e estruturas originais enquanto desloca os arranjos e a instrumentação para territórios inesperados, criando o seu fado tropical que honra o passado e projeta novas possibilidades.
As onze faixas de Fado Tropical reúnem composições autorais de Rita e de outros poetas e compositores, costurando tempos e vozes distintas em um mesmo corpo sonoro. Entre releituras e criações, o álbum se constrói como uma travessia - não apenas pela história do fado, mas por suas reinvenções possíveis. Ao tensionar tradição e deslocamento, Rita Braga reafirma que o gênero nunca foi estático: ele nasce da rua, da mistura e da transformação - movimento que também atravessa e redefine continuamente sua própria trajetória artística.
"Quis produzir um trabalho que tivesse qualquer coisa de fado na estrutura e nas letras, mas com instrumentos que se multiplicassem em variadas percussões", comenta Rita a respeito do trabalho feito ao lado de sua banda, formada por Bruna Moura no violoncelo, Ryoko Imai na marimba, violoncelo, cajón, "junk percussion", bombo e castanholas, Suse Ribeiro e João Cabrita no saxofone. Aníbal Andrade (lap steel), Rui Rodrigues (percussões extras), JP Simões (voz), Tó Trips (Dead Combo) e Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) nas guitarras.
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Sua discografia é marcada por experimentação e reinvenção. Como você enxerga a evolução do seu trabalho?
Eu tento que cada álbum seja diferente do anterior, embora seja uma continuação… A minha música não pode ser facilmente definida porque absorve várias influências e mistura todas elas; os dois anteriores, Time Warp Blues (2020) e Illegal Planet (2023), tinham uma sonoridade mais eletrónica, com caixas de ritmos e teclados analógicos antigos. Com Fado Tropical voltei a uma sonoridade mais acústica, embora ainda tenha um pouco de eletrónica em algumas faixas.
Há elementos do seu início de carreira que ainda permanecem como base de sua criação?
Sim. Curiosamente, acho que este quinto álbum tem algo a ver com o primeiro, Cherries That Went To The Police (2011). Nesse também eram versões de temas esquecidos com novos arranjos, embora de vários países — tem músicas de Portugal, Estados Unidos, Grécia…
Com cinco álbuns lançados, você sente que encontrou uma “linguagem própria” ou ainda está em constante transformação?
Penso que é um pouco das duas coisas. Tentei uma enorme reinvenção com este novo disco, mas a verdade é que tem muito de Rita. O repertório de fado esquecido serviu para misturar com outros estilos que eu gosto, como Exotica/música havaiana, rock, música dos Balcãs, entre outras coisas…
Sua obra frequentemente atravessa fronteiras sonoras. Como tem sido construir essa identidade que é ao mesmo tempo portuguesa e global?
É algo que faço naturalmente, pois eu ouço música muito variada. Por exemplo, já fiz versões em diversos idiomas — 15 no total! Algumas só toco nesses países, pois são referências muito específicas: por exemplo, um tema de cabaret da Polónia por uma cantora famosa, Violetta Villas (uma diva muito excêntrica dos anos 60), tem piada principalmente para quem entende o texto e o contexto…
"Neste trabalho eu atravesso os primórdios do fado, conduzindo-o a novos territórios sonoros. Um trabalho arrojado, repleto de surpresas e colaborações especiais."

Fado Tropical surgiu a partir de uma pesquisa histórica sobre o fado. Como foi esse mergulho e como você viu que sua pesquisa renderia um disco?
Eu fiz a pesquisa com o objetivo de chegar a um disco. E adorei o lado da pesquisa, através de audições de discos do início do século passado, e até livros que contavam como era o fado nas tabernas lisboetas do século XIX, ou partituras, etc. A dada altura tive de pôr tudo de lado e passar à parte da produção musical, pois o objetivo era mesmo uma nova criação artística, e não uma tese académica ou uma recriação de algo histórico.
O álbum propõe uma releitura do fado a partir de uma experimentação com outros gêneros musicais. O que te interessava tencionar ou expandir dentro desse gênero?
A descoberta de cantoras muito antigas como Ercília Costa (muito famosa nos anos 30, foi a primeira fadista a fazer digressões no Brasil, Argentina e Estados Unidos, mas hoje em dia poucas pessoas conhecem), entre outras, fez-me repensar que muitas coisas que associamos ao fado hoje em dia não existiam — o estilo esteve constantemente em evolução. Por exemplo, havia muito a imagem da fadista que se acompanhava a solo na guitarra; só mais tarde passou a haver o acompanhamento da guitarra portuguesa, que hoje em dia soa essencial.
As canções de Fado Tropical são carregadas de emoções. Como equilibrar o experimental com o tradicional sem perder a sua identidade?
Para mim, o mais importante é que as canções contem histórias (e daí que também carreguem emoções). Acho que há até uma vaga narrativa ao longo do alinhamento do disco: uma ideia de morte e renascimento.
Eu sigo a estrutura clássica das canções e o seu texto; a voz é inspirada nas fadistas antigas (pois a minha voz naturalmente encaixa naquele tempo — já cantei muito Carmen Miranda também!); o que muda é mais a escolha dos instrumentos, os arranjos — mas todos eles servem o tema da canção, não foram escolhidos ao acaso. Mais do que música puramente experimental, é como se fosse um “pop”, mas fora do padrão…
Em "Fado Tango" você canta "eu não sei quando alguém canta se é feliz ou desgraçado". Em algum momento, cantar já foi, para você, um lugar onde felicidade e sofrimento se misturaram?
Eu adorei essa letra, escrita nos anos 1920, e identifico-me com ela porque também tenho momentos em que transbordo emoções — uma mistura de alegria e melancolia…




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