Sentimental Value
- Michele Costa

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Uma casa contém memórias, histórias e rachaduras. Assim como uma pessoa, o espaço acumula marcas do tempo, silêncios mal resolvidos e cicatrizes que nem sempre podem ser escondidas sob uma nova camada de tinta. A partir dessa imagem, Sentimental Value (Joachim Trier, 2025) narra a relação conturbada entre um pai egoísta e suas filhas que, marcadas por traumas da infância, tornaram-se mulheres muito diferentes do que se esperava delas - e talvez do que esperavam de si mesmas.

O filme constrói sua força ao transformar a casa em personagem central. Não se trata apenas do cenário onde a ação se desenrola, mas de um organismo vivo que observa, reage e, sobretudo, guarda. Cada cômodo carrega vestígios das gerações que passaram por ali. Como herança familiar, a casa foi transmitida de pais para filhos - e é justamente a partir dessa herança que compreendemos como aquela estrutura afetiva se tornou disfuncional. Enquanto confrontam o passado, os personagens esbarram em ressentimentos, ausências e frustrações que permanecem impregnados nas paredes.
O retorno do cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgard) à casa onde viu as filhas crescerem ocorre após a morte da ex-esposa. Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) o receberam, mas a primogênita não baixou a guarda. Desde o primeiro encontro, percebe-se que ela carrega mágoa e raiva do pai. O que poderia ser um reencontro normal e rápido, torna-se em um campo minado emocional, provocando reações intensas tanto nos personagens quanto no espectador.
Leia também:
À medida que a narrativa avança, descobrimos que o retorno de Gustav está ligado ao novo filme que escreveu, e que deseja ver Nora protagonizar. A ironia é evidente: um cineasta renomado, capaz de elaborar sentimentos na tela, mostra-se incapaz de dialogar com a própria filha. Em nenhum momento busca uma aproximação genuína antes de fazer o convite; limita-se a expor sua vontade, aprofundando a distância entre ambos. Diante da recusa de Nora, ele oferece o papel à estrela de Hollywood Rachel Kemp (Elle Fanning), ambiciosa e entusiasmada. Conforme os ensaios avançam, Rachel é gradualmente inserida nas complexas dinâmicas daquela família, tornando-se espectadora - e, em certa medida, catalisadora - de conflitos antigos.
Ao revisitar os diferentes passados das irmãs Borg, Sentimental Value evidencia como cada uma foi moldada de maneira distinta. Nora presenciou as brigas e as rachaduras - da casa e da família -, enquanto Agnes foi parcialmente poupada, protegida pela irmã mais velha, que encontrou estratégias para blindá-la da violência emocional dos pais. As fissuras na estrutura física dialogam diretamente com as fissuras internas de cada personagem.

O ápice emocional ocorre em um diálogo entre Gustav e Nora durante a comemoração do aniversário do filho de Agnes. Ao perceber a intensidade da raiva da filha, o diretor afirma que, enquanto ela estiver tomada por esse sentimento, não conseguirá amar plenamente nem encontrar seu próprio caminho. A fala soa menos como conselho e mais como projeção: Gustav reconhece na filha o mesmo ressentimento que o define.
A arte ocupa papel central nessa engrenagem dramática. Nora a utiliza como escudo: ao interpretar outras personagens, evita confrontar a própria dor. Gustav, por sua vez, recorre ao cinema como forma de externalizar aquilo que jamais conseguiu verbalizar. Se para a filha a atuação é mecanismo de fuga, para o pai é tentativa de redenção. Em ambos os casos, a arte surge como possibilidade de salvação, mesmo que imperfeita.
Sentimental Value se destaca ao compreender que uma família, tal qual uma casa antiga, não se sustenta apenas pela fachada: são as rachaduras que revelam sua história. No desfecho, a obra assume o tom de um pedido de desculpas do pai às filhas ao conseguir expor, por meio da arte, aquilo que durante anos permaneceu silenciado.




Comentários