Dezert Horse desacelera e olha para si em novo álbum
- Michele Costa

- há 2 horas
- 7 min de leitura
Entre paisagens psicodélicas e horizontes dilatados por sua guitarra, Dezert Horse, projeto musical de Gabriel Martins, sempre foi guiado pelo tempo. Desde Time Lapse (2020) e Horizonte (2021) - lançados durante a pandemia - a sensação era de deslocamento: músicas que evocavam travessias, miragens e estados de contemplação, tendo a natureza como cenário para uma experiência sensorial.
Mas, se antes o tempo aparecia como paisagem ampla, quase cósmica, agora ele se torna íntimo. Em Dezert Horse (2026), o músico desloca o foco do horizonte para dentro de si. A psicodelia segue presente, porém ganha contornos confessionais ao revisitar memórias, questionar versões passadas de si mesmo e assumir as próprias emoções como matéria-prima central da criação.
Ao longo dos anos - tempo, assunto que sempre retorna -, Dezert Horse amadureceu: o novo trabalho revela um momento de desaceleração. O cavalo, símbolo recorrente na identidade visual do artista, deixa de galopar apenas rumo ao horizonte e passa a circular o próprio território interior. Já não se trata apenas de travessia, mas de reconhecer as pegadas antigas na areia e compreender o caminho que elas desenham.
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Seus trabalhos sempre evocaram imagens de paisagens, deslocamentos e psicodelia, tendo a natureza como plano de fundo. Como esse imaginário contribui para a construção conceitual e sonora dos seus álbuns?
Quando eu era criança meus pais tinham uma roça na beira do rio São Patrício, eu ia pra lá quase todo fim de semana, nessa época eu sempre me divertia muito lá e sendo do interior do Goiás grande parte da minha família vive na zona rural então sempre teve muito essa conexão com o mato. No primeiro disco tem muita textura da natureza, sons de rios, vento nas árvores, sempre curti explorar isso até mesmo com os outros instrumentos, usando delays granulados e modulações para deixar o som mais vivo. Curto demais qualquer rolê no mato, seja ir pro rio, subir um morro só pra ver a vista, acho que na música isso é só um reflexo dessa parte de mim.
Nos seus primeiros trabalhos, lançados durante a pandemia - Time Lapse e Horizonte -, a psicodelia aparecia com mais força. A partir de Você Não Corre Mais, no entanto, já é possível perceber uma mudança de perspectiva. Neste novo álbum, você se mostra mais aberto, falando diretamente sobre si e suas emoções. O que o motivou a voltar esse olhar para dentro? Como foi transformar sentimentos pessoais em matéria musical?
Quando comecei o projeto eu não sabia nada, não sabia cantar, escrever ou produzir, o máximo que eu sabia era o básico da guitarra, então acho que nos primeiros projetos era uma aventura maior, era ir na tentativa e erro até algo funcionar, em Time Lapse é bem evidente essa falta total de conhecimento e experiência, acho que esse solo de não saber de nada é muito fértil para criação de obras totalmente descoladas da realidade, em 2021 com Horizonte já sinto que realmente escrevi canções ao invés de tentativa e erro, mas como era tudo ainda muito novo tem essa pegada meio intrínseca, de ser muito pessoal apesar de letras mais misteriosas, da pra sentir muito essa psicodelia inocente. No Você Não Corre Mais de 2023 eu já tinha mais ideia de como fazer e produzir minhas músicas, mas não queria fazer a mesma coisa que vinha fazendo, daí veio a fase mais experimental, o disco é cheio de maluquices, guitarras revertidas 20 tons acima do original, cortadas e coladas mil vez, camadas de som tão distorcidas que nem eu ouvindo hoje sei mais o que são, foi uma exploração mesmo, descobrir o que dialogava e o que não, também comecei a escrever letras mais pessoais. Já no Dezert Horse eu percebi que efeitos malucos não definem a psicodelia, na verdade acho que passei a achar que dá pra ser psicodélico fazendo tudo ser muito mais simples e sútil e acho que tudo isso se equilibra, para de ser maluquice e vira algo mais sólido, mais compreensível, pé no chão mas sem perder essência de tudo aquilo que vim construindo ao longo dos anos, sendo mais sincero, mais eu mesmo, sem medo, sabendo onde eu quero chegar, acho que por isso é tão introspectivo e sentimental, a gente só anda pra frente depois de olhar pra dentro.
"É bem claro que esse disco é mais íntimo que os outros. Não que nos dois primeiros faltasse personalidade, mas acho que eu tentava esconder o que eu sentia e o que queria dizer. Por isso era difícil entender o que eu cantava, ou entender o que eram os instrumentos... tinha muita atmosfera e colagem de som que não faziam o menor sentido. Acho que nesse eu quis que me ouvissem. Eu não queria esconder mais, quis cantar mais alto, quis que minha voz fosse o centro e que minhas palavras doessem em mim quando eu as ouvisse. Também tentei ser menos maximalista nos instrumentais. Ainda tem aquela lisergia cósmica, mas é mais pra dentro, mais pé no chão."
Suas músicas costumam dialogar com o tempo, mas em Dezert Horse esse tema parece ainda mais evidente. O que o levou a colocá-lo no centro do álbum?
Pra mim tempo é a parte mais aterrorizante e extraordinária da experiência humana, você nunca sabe quando seu tempo vai acabar, você nunca sabe que vai sentir saudade de algo até que passe, você não sabe nada, e o modo com qual você enxerga isso muda completamente como você vive, você pode esperar a vida inteira por algo e esse algo nunca chegar, pode esperar o momento certo a vida inteira e esse momento nunca vir, a única coisa que dá pra esperar é a morte. Acho que pra mim isso sempre foi um ponto de fascínio e medo por muito tempo, eu discorro muito sobre o tempo nesse disco por que eu parei de temer, eu sei que o tempo vai me levar, não só eu mas todos, os que amo, os que odeio, tudo passa e todo mundo morre. Acho que falar disso abertamente me deu um gás pra parar de esperar e realmente viver sem medo, não esperar pra fazer o que quero, falar o que quero, ir onde eu quero, tendo consciência de que tudo seja bom ou mal, vai passar.

Ao falar mais sobre si, você sente que se expõe artisticamente de maneira mais intensa? No fim das contas, isso gera mais liberdade ou mais vulnerabilidade
Acho que no fim das contas liberdade e vulnerabilidade andam de mãos dadas, eu só consegui encontrar a liberdade de falar o que eu queria sendo vulnerável. Eu sempre tive em mente os sentimentos que eu queria passar nas minhas músicas, por isso os temas discorridos em todos os discos se parecem, mas sinto que só agora eu consegui passar essa mensagem de verdade. Nos primeiros trabalhos essa vulnerabilidade também era presente, mas sempre apagada e escondida, nunca livre, nunca como centro, dessa vez foi mais real.
Em "Eu Penso no Tempo", como o título sugere, há uma reflexão que atravessa passado e identidade - você menciona lembrar o que pensava sobre si e, em seguida, se despede do passado. Ao revisitar o seu passado, que tipo de futuro você imagina para ti?
Acho que quando eu escrevi isso foi pra sair de um buraco existencial que eu tava enterrado há alguns anos, no passado eu costumava sonhar muito alto, ter metas, querer coisas grandiosas artisticamente, mas com o passar dos anos essa ilusão foi sumindo, a gente cresce e vê que o mundo não é bem aquilo que pensávamos, com isso eu deixei de sonhar alto, deixei de achar que era possível. Nessa música eu falo sobre estar cansado de esperar, cansado de me ver perdido olhando pra trás, e acho que no fim das contas esse som é sobre voltar a sonhar, mas não mais como criança, mas como quem realiza.

Em "Silêncio Cósmico", há uma ambiguidade interessante: você canta que "não tem por que falar", mas o disco parece justamente um espaço de fala e exposição. Você sente que conseguiu dizer tudo o que precisava neste trabalho?
Eu disse tudo que eu quis, mas ainda estou muito longe de dizer tudo que precisava ser dito. Acho que em "Silêncio Cósmico" essa ambiguidade é muito bem jogada, porque, apesar de dizer tanto nesse disco, o que eu sinto ainda é bem maior do que o que eu falo. Eu queria falar mais do mundo, da experiência humana, sobre ego, política, filosofia, sobre o constante peso que carrega o ser criativo tentando viver de arte nos 2020’s, sobre a natureza da consciência, todas essas coisas batem muito na minha cabeça e eu queria conseguir explorar mais, quem sabe um dia.
Já em "Até Onde", você canta que "sonhou vivo demais" e depois questiona quem é você e quem é o outro. Em Dezert Horse, conseguimos conhecer melhor Gabriel Martins para além do projeto artístico?
Desde sempre foi claro que o Dezert Horse como projeto sempre seria eu, minhas músicas e eu tomando conta de tudo, eu colaboro muito com outros artistas mas a visão sempre é minha. Eu vinha de um hiato de quase 3 anos sem produzir nada novo, então quando eu comecei o disco eu não sabia o que seria, de começo seriam 7 faixas depois foi aumentando e eu vi que era um disco completo mesmo, e depois de ir escrevendo essas letras foi ficando cada vez mais claro que esse trabalho era bem diferente dos outros, de começo pensei até em ser outro projeto, começar do zero de novo, principalmente pelo salto de qualidade entre os álbuns, mas desisti da ideia assim que ouvi os primeiros discos de novo. No fim, o disco estava tão íntimo que nem precisei pensar muito em um nome, é tudo que é eu, Dezert Horse é eu.




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