Pupillo
- Michele Costa

- há 4 dias
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Existem álbuns que ficam com a gente por muito tempo - período necessário para que as faixas entre em todos os poros - e quando tentamos falar sobre, falhamos, porque não há nenhum erro, é perfeito do início ao fim. Neste ano, Pupillo ocupou esse espaço com seu primeiro disco autoral, ao visitar ritmos fundamentais de sua trajetória: do forró ao jazz, do hip-hop ao som do pífano.
Após anos tocando com diferentes artistas e assinando produções importantes, como Novo Mundo (Selo Risco, 2025), de Arnaldo Antunes, o músico finalmente volta o olhar para si e expõe uma trajetória de mais de 30 anos. Dessa forma, Pupillo (Amor in Sound, 2026) se apresenta - e se reafirma - ao público com maracatu, eletrônica e psicodelia, elementos que já aparecem como símbolos desde a capa e ajudam a formular um verdadeiro filme sonoro. As 12 faixas criam um repertório a partir de vivências: festas populares, paisagens urbanas e memórias difusas que ganham corpo na percussão e se expandem em camadas sonoras que nunca se acomodam.
Ao adicionar as vozes de Agnes Nunes, Carminho e Céu em momentos pontuais, o músico abre espaço para que o ouvinte projete suas próprias imagens. Não há centralidade na palavra; por isso, o vocal se funde aos ritmos, dialogando com a sonoridade do trabalho. Assim, o disco deixa de ser um conjunto de canções e passa a funcionar como um fluxo contínuo de cenas, guiado por ritmo, ambiência e sugestão.
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Acompanhado de Alberto Continentino, "Tropical Exotica" abre a narrativa de forma serena, quase como um convite. Já em "Forró no Asfalto" - uma das melhores faixas -, Pupillo revisita suas vivências no Nordeste, deslocando o gênero para um ambiente urbano. Ao longo do disco, ele organiza blocos de experiência: "Bem Bom", com Cut Chemist e o projeto General Elektriks, adiciona uma camada mais eletrônica e cosmopolita, enquanto "Pifando" retoma o sopro do pífano como elemento estruturante, quase ritualístico.
Ao lado de Amaro Freitas, "Fervendo o Chão com Amaro!" se destaca pela presença do piano, que tensiona e amplia a percussão; já em "O Sopro de Naná", Pupillo utiliza a percussão para celebrar a obra de Naná Vasconcellos. Não há aqui uma lógica de hits, mas de fluxo: cada faixa parece existir em função da anterior e da seguinte.
Talvez o momento mais evidente dessa dimensão narrativa esteja em "Navegando os Novos Tempos", com Carminho e Adrian Younge. A faixa carrega um deslocamento geográfico e simbólico - Portugal, Brasil, Estados Unidos - como se o disco, até então centrado em raízes, começasse a se expandir para outras margens.
Uma das coisas mais interessantes no álbum é como as imagens criadas por Pupillo se misturam às minhas próprias lembranças, construindo uma experiência que ultrapassa o individual. No fim, é um disco que, mesmo profundamente ancorado na trajetória do artista, encontra uma forma de dialogar de maneira universal, ou seja, como todo bom filme que continua reverberando mesmo depois de terminar.




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