O pertencimento de Táia
- Michele Costa
- há 1 hora
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A primeira vez que o vermelho apareceu no trabalho de Táia foi no EP Tormento (2019). A cor, que representa poder, fogo, revolução, paixão e energia, reaparece agora em OBÁ TAJÁ (2026), disco recém-lançado, assim como a máscara criada por Sônia Melone, símbolo das múltiplas facetas da cantora e multi artista sergipana. A partir desses pontos, o álbum aprofunda a pesquisa estética no encontro do brega pop, elementos orquestrais e performance, a partir de uma busca íntima por identidade e pertencimento.
O título também carrega camadas de sentido: OBÁ TAJÁ surge da investigação sobre o significado de "Tajá", variação sonora próxima de seu nome artístico e denominação popular da planta caladium bicolor, que nasceu espontaneamente à porta de seu antigo quarto. Ao pesquisar a origem da espécie, Táia encontrou a lenda de uma planta que brota da lágrima de um amor perdido. A temática amorosa, recorrente em sua obra, ganhou então contornos míticos. "A música que dá nome ao disco nasceu como bomba-relógio e se transformou, inclusive na letra, com o nascimento de Obá Tajá, na inquietude dessa eterna autodescoberta e como um grito de alerta para conhecermos nossa história verdadeira", afirma.
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Em OBÁ TAJÁ, o popular é tensionado: o brega, gênero muitas vezes marginalizado, desloca-se para um espaço de sofisticação sonora e potência simbólica, sem abrir mão de sua vocação dançante e afetiva. A obra articula música, visualidade e presença cênica como partes inseparáveis de uma mesma narrativa.

O projeto surgiu do desejo da artista de se cercar de pessoas que fizeram parte de seu cotidiano e de sua construção afetiva. Entre os colaboradores estão os músicos Jotaerre (Psirico), Julico (The Baggios), Diane Veloso (A Banda dos Corações Partidos), Maysa Reis, Cah Acioli, Alessandro Mongini, Jim Morrisom, Gabriel Farani e o produtor Talibã, que assina a direção musical de OBÁ TAJÁ. A captação de voz ficou a cargo da FabSound, enquanto a mixagem e a masterização são de Léo Airplane.
Ao mesmo tempo, Táia reafirma o Nordeste como centro de criação, propondo novas narrativas para o pop brasileiro e ampliando a circulação da música autoral sergipana para além de seu território de origem.
OBÁ TAJÁ nasceu de uma busca íntima por identidade e pertencimento. Em que momento você percebeu que essa investigação pessoal precisava se transformar em obra?
Acho que tudo que me atravessa vira "obra". Não intencionalmente, mas justamente por meu trabalho ser feito através do que eu vivo. E virando arte passa a ser possibilidade de identificação de outras pessoas, aí, já racionalizando o trabalho feito, percebo que ele se transforma em muitas histórias que foram apagadas e o quanto é importante a gente se rever e, com isso, se conectar a nossa história e àqueles que vieram antes de nós, entender uma parte do porquê de estarmos onde estamos.
A busca por sua ancestralidade atravessa a narrativa do álbum. O que essa investigação mudou na forma como você se enxerga como artista e como mulher?
Que preciso cada vez mais ser honesta com a minha verdade. Somos atropelados pela indústria musical do que é vendável e algumas vezes pensei que estava no caminho errado por falar e tocar algo que podiam considerar misturado demais, mas penso que é, justamente, o que faz minha música ser autêntica e verdadeira e isso é que faz as pessoas de verdade se conectarem. Não tenho como desassociar a artista da mulher, a indústria é patriarcal, assim como o mundo, buscar minha ancestralidade é me fortalecer, fortalecer as minhas e fortalecer todes que se identificam.
Algo na sua postura em cena mudou ao ver que a obra envolve memória familiar e ancestralidade?
A performance agora é sobre o eu real. Quando iniciei minha carreira, criei a personagem "Táia" para conseguir subir ao palco. E ela era imbatível, femme fatale [risos]. A eu real não é, é forte, mas é cansada, é sensual, mas é desajeitada, é bipolar, às vezes quer tudo e às vezes luta pra sair da cama. Minha construção enquanto pessoa e o que a família e ancestralidade atravessou e me ensinou até aqui. Isso está na cena, essa sou eu e meu trabalho a partir daqui.
O disco aparece operar entre o grito de alerta e a inquietude da autodescoberta. Quais alertas você percebeu e/ou recebeu para auxiliar no desenvolvimento do mesmo?
Primeiramente, os alertas do corpo preu entender que eles vinham do exterior. Sou diagnosticada com TAG e tive algumas crises (agora menores) que extrapolavam para o físico, com travamento de musculatura e desmaios, por exemplo. Sempre estou conversando com minha psicóloga o quanto é difícil ser uma adulta, mulher, mãe, profissional e tantas coisas funcional no mundo atual e o quanto me sinto culpada por ter dificuldade, sendo que, dentro da realidade da maioria, ainda tenho meus privilégios. É angustiante estar dentro da minha cabeça [risos], aí já se vão a hiperatividade e a instabilidade de humor. E aí vou tentando equilibrar tudo pra não ficar me justificando e tentando entender tudo que acontece comigo e ao meu redor e analisando onde foi que eu me meti até aqui [risos]. Acho que só de ler já dá pra ver um pouco de onde vem os alertas.

OBÁ TAJÁ tensiona o contemporâneo a partir do popular, deslocando o brega para um lugar de sofisticação. Como foi construir esse equilíbrio entre afeto e elaboração orquestral?
Morro de medo desse lugar de brega com sofisticação. O brega vem dos boleros e não tem nada mais sofisticado que isso. Acho que a gente tem uma mania de colocar o erudito e o virtuosismo como coisas de qualidade, enquanto consideramos o popular ou os poucos acordes sem valor. Isso se reflete em tudo. Ao mesmo tempo, a grande massa tá aí consumindo o dito "simples" e a indústria se aproveitando do jeito que pode. Minha música é diretamente influenciada pelo o que ouvi e ouço e a ideia, principalmente, de sopros, foi por meu bisavô ser multi instrumentista e lá em casa ter o trompete de vara e bombardino antigos dele ficarem na casa da minha mãe por um tempo. O produtor e diretor musical, Talibã, é super conhecido aqui pelos seus bregas e nossa troca foi super rica, eu amando as malemolências dele e ele se desafiando com as métricas e timbres do meu agrado [risos].
A temática amorosa atravessa o álbum de diferentes formas. Esse amor - que vai além do romântico - também se manifesta na sua busca por pertencimento e identidade?
Totalmente. Minha história na música começa escrevendo sobre o amor. Na época, o amor romântico e agora ele abre um leque para auto amor, amor familiar e desamores também. Amar fala sobre nossa forma de se relacionar com o mundo.
Em "Disfórica", ao dizer que gostaria de falar com o tempo e fugir de si, você transforma um conflito íntimo em linguagem artística. Esse desejo nasce mais de uma angústia pessoal ou de uma sensação geracional de inadequação ao ritmo do mundo?
Quando escrevi, especificamente, foi de uma angústia pessoal. Eu escrevi essa música depois de ler o livro Favor Fechar os Olhos: Em Busca de um Outro Tempo de Byung-Chul Han. Já tive ideações s* em momentos de depressão e hoje, nesses mesmos momentos, consigo determinar que com o tempo vai ficar menos pior. Depois de terapia e do meu reencontro com o Candomblé, que também tem o Orixá Tempo (Iroko), venho aprendendo muito e é aí que "Disfórica" se transformou também num grito geracional de adultos que aprenderam a buscar sonhos e parece que tudo virou pesadelo e o sonho ficou para pouquíssimos já selecionados no berço.
A faixa-título nasceu como uma "bomba-relógio" e se transformou ao longo do processo. O que detonou essa mudança?
Eu queria só reclamar nela e nem seria a faixa principal [risos]. Aí percebi essa bomba-relógio como angústia de um apagamento histórico, que trago como o meu cruzado com a história brasileira e, ainda, o quanto o sergipano não se conhece e não se gosta. Infelizmente, vejo muito aqui a cultura de se gostar do de fora ou de quem é reconhecido fora. Temos uma identidade que tem tudo pra ser super forte, mas que se balança entre os estados da fronteira ou grandes eixos, por insegurança, talvez, não sei, é outra área que me sinto totalmente incapaz, mas que acredito que ainda vamos conquistar de volta. Temos as bençãos do cacique Serigy nas nossas terras.
