top of page

Alice Caymmi: Caymmi

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

Existem músicas que atravessam gerações criando memórias afetivas. Lembro de ouvir "É Doce Morrer no Mar", "Noite de Temporal" e "O que é que a Baiana Tem" com familiares, criando uma conexão emocional. Quando ouço as canções de Dorival Caymmi (1914 - 2008), me transporto para os momentos que não voltam. Por isso, fiquei feliz com o novo disco Caymmi (Daluz Música, 2026), de Alice Caymmi, que mantém vivo o legado do avô. 


alice caymmi caymmi
(Créditos: Divulgação / Reprodução)

Alice se recusa em deixar Dorival no pedestal intocável da música brasileira. Em vez de seguir pelo caminho previsível das releituras tradicionais, ela desloca as canções para novas atmosferas, aproximando a obra do avô da música eletrônica e dos ritmos latino-americanos. Dessa maneira, a cantora aproxima as canções com novas gerações, já que os estilos dialogam diretamente com a contemporaneidade.


Produzido por Iuri Rio Branco e lançado no aniversário de 112 anos de Dorival Caymmi, Caymmi não reproduz o passado; pelo contrário, ele provoca. Alice canta como quem deseja abrir fissuras em um repertório já cristalizado pela memória afetiva brasileira - e esse é o maior mérito do projeto. Dorival é um compositor tão monumental que repetir suas interpretações seria apenas redundante.


Leia também:


O clássico "O que é que a baiana tem?" abre o disco com uma versão dançante, contrastando logo em seguida com "Acalanto", em que a voz de Alice brinca com elementos eletrônicos na canção de ninar. O reggae surge em "Modinha Para Gabriela", enquanto os ritmos caribenhos aparecem em "Canção da Partida". 


Em "Maracangalha", Alice abandona a leveza folclórica da versão original para mergulhar em uma sonoridade quente, quase carnavalesca, que evidencia a proposta do álbum: atualizar Dorival Caymmi sem apagar sua essência. Em "Dora", Alice desacelera a canção e cria uma interpretação mais dramática, sustentada pela força grave de sua voz, enquanto "Canto de Obá" invoca a emoção ao pedir a proteção de Xangô para sua linhagem familiar.


A leitura criada no disco se aproxima de uma América Latina quente, híbrida e contemporânea, sem apagar a força poética original das canções. No fim, Caymmi me parece menos um tributo e mais uma conversa entre gerações. Alice entende que manter viva a obra do avô não significa congelá-la no tempo, mas permitir que ela continue respirando em novos contextos - ainda bem.




Comentários


©2020 por desalinho.

bottom of page