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Pedro Lanches reafirma sua identidade em Sementes

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 10 horas
  • 8 min de leitura

Foi na adolescência que a primeira semente artística de Pedro Lanches surgiu. As influências e referências deram o empurrão para que o jovem participasse de bandas com os amigos, iniciando sua trajetória musical. Com o tempo, a semente foi se expandindo até que, em 2024, o compositor e multi-instrumentista sul-mato-grossense lançou sua carreira solo.


Em veio sem maionese (2024), aclamado disco de estreia, o músico transforma experiências pessoais, como dilemas amorosos, solidão e a travessia, em experiências compartilháveis, pois há um reconhecimento imediato com o público. Pedro Lanches acessa sentimentos comuns sem recorrer a fórmulas, sustentando suas narrativas em um lirismo lapidado ao longo dos anos. É nessa combinação entre franqueza e construção estética que sua obra ganha força, revelando não apenas quem ele é, mas também abrindo espaço para que o ouvinte se enxergue. Assim, a própria semente se expande em outras pessoas. 


Após uma estrada marcada por shows, crescimento de público, amadurecimento e experimentações, Pedro Lanches apresenta Sementes (Matraca Records, 2026), um trabalho que dialoga com o passado, mas também aponta para novos caminhos. As seis faixas do EP abordam inseguranças, términos e a experiência de se apaixonar novamente, agora atravessadas por sonoridades mais abstratas e hiper processadas. Com produção assinada pelo próprio artista ao lado de sua banda - formada por Lucas Anderson, Guido Almeida, Leonardo Sardela e Pedro Zurma -, o artista amplia seu campo de criação sem abandonar a essência que o trouxe até aqui.


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Você trabalhou em suas próprias canções por dez anos. Por que tanto tempo e como soube que era a hora de apresentá-las ao público? 

Ah, eu acho que a demora é respeitar muito o que a música deve ser. Eu sou meio contra fazer as coisas na pressa e, de repente, ouvir a música pro resto da sua vida e falar “cara, podia ter feito diferente. Se eu esperasse um pouco mais, a gente poderia ter feito um pouco melhor.”  Então, eu fico muito nessa de, tipo, vamos segurar um pouco e ver até onde a gente pode ser melhor. 

Como que a música deveria ser? 

É muito doido [risos] e é muito subjetivo também. Eu acho que é uma coisa meio inexplicável, não tem uma resposta muito clara. Tipo, tal coisa, assim, a música tem que ser assim…  Eu acho que a gente tem que sentir que ela tá pronta, sabe? Eu acho que é muito um feeling mesmo de… É muito um sentimento meio inexplicável, de você ouvir e falar “pode crer, isso aqui já tá no jeito, tá lindo”, “isso aqui, pô, tá bom, mas eu acho que ainda a gente tem coisas pra mexer”, a música ainda tem um processo. Então, eu acho que é tudo realmente um processo de capricho de uma música, né? 

Você acha que tem alguma relação também com o que você tá escrevendo, de amadurecer essa ideia, de viver aquilo, de passar por aquilo? Também amadurecer aquela vivência para transformá-la em algo? 

Total, total. Às vezes eu escrevo muito sobre coisas empíricas que eu mesmo vivo, experiências boas. E às vezes você viveu aquilo há tão pouco tempo que você nem deixou a coisa marinar e amadurecer na sua cabeça, você só tem uma ideia meio pronta que faz parte, mas às vezes é bom você deixar o tempo passar - dorme, toma um banho, pensa… Às vezes você nem necessariamente precisa pensar no assunto. Deixa o seu inconsciente entender a situação e aí, às vezes, as respostas se tornam muito mais claras, né? 


pedro lanches sementes
(Créditos: Pietro Leonardi)

Suas vivências estão em veio sem maionese com uma sonoridade experimental. Hoje, quando revisita a obra, você acha que concluiu os assuntos abordados? 

Ah, eu acho que sim, acho que sim. São assuntos meio… Talvez eu viva isso ainda, de um jeito diferente, mas daquele jeito como eu vivi no disco, eu acho que é uma coisa meio adolescente ainda. As pessoas sempre vão estar vivendo isso, mas acho que é uma perspectiva meio adolescente mesmo das coisas e hoje em dia, eu boto fé que eu tô mais em paz com essas situações. Então eu acho que sim, é um ciclo que se concluiu muito bem, pelo menos pra mim.

É uma maneira de fazer as pazes com o passado?

Com certeza, com certeza. Eu acho que as letras do veio sem maionese são coisas que eu queria dizer de uma maneira muito específica, mas que às vezes eu não tinha recursos pra fazer isso ainda, tipo, só com palavras, aí eu busquei fazer as músicas como um jeito de falar, porque era o único jeito que eu tinha como botar tudo aquilo pra fora - eu sinto muito isso,  de verdade. Eu fiz as pazes com algumas pessoas, fiz as pazes comigo também em não se cobrar tanto por coisas que aconteceram e ser mais feliz. A vida é tão boa pra ficar remoendo coisas ridículas! 

Quando você canta sobre determinada vivência, você consegue trazer a emoção daquele momento que passou e deixá-lo mais leve? 

Nossa, boa pergunta. Eu acho que eu não penso muito nos shows sobre as situações, eu acho que eu tô sempre mais concentrado em tocar as músicas de fato. Mas de tempos em tempos, eu lembro o porquê de eu ter feito a música no meio dela e aí sim, de fato, quando eu me lembro do porquê eu fiz aquilo, eu acho que eu inevitavelmente trago mais uma carga emocional maior na execução da música em si.


Suas canções trazem sentimentos que dialogam com o outro, ou seja, o público se enxerga no que você canta. Como você se sente ao ver o teu público compreender esses sentimentos? Aliás, é uma maneira de juntar as pessoas para compreender essas emoções? 

É muito doido quando eu vejo que as pessoas se identificam de alguma forma com algo que eu escrevi, porque, na verdade, eu não fiz as músicas pensando em gerar nenhuma identificação, eu fiz meio que como uma válvula de escape e a identificação foi só uma consequência das músicas já existirem. Eu fico muito feliz quando as pessoas entendem as coisas que eu quis dizer. E sim, eu acho que tem tudo a ver esse sentimento de ser humano de pertencimento, né? Você ouvir a música e falar “nossa, eu sei o que esse cara tá dizendo” e isso nos aproxima mais, né? Nossa [olha para os lados], me faz pensar mesmo que a música é a união das pessoas e que ela pode ser tão grandiosa pra tanta gente. 

Você usou o termo válvula de escape. Ela continua existindo? 

Eu acho que sim. Hoje em dia eu vejo a escrita como uma coisa meio... Como eu posso dizer? Eu vejo ela um pouco mais pálida, assim, sabe? [gesticula com as mãos] Tipo, é um processo um pouco mais monótono. Tipo, às vezes eu tenho que escrever porque eu tenho que fazer uma música, mas, de certa forma, eu ainda acho que pra vários momentos ela é. Ainda bem que eu consigo escrever coisas que só escrevendo eu consigo expressar, sabe? Às vezes, nem falando direito, as pessoas conseguem captar a ideia direito, eu acho que eu preciso achar uma métrica exata para as palavras se encaixarem… Eu acho que ainda escrevo bastante por válvula de escape.


“Montanha Russa” é uma canção sensível onde você reflete sobre o crescimento e, consequentemente, o futuro. Você ainda tem medo da sua mortalidade e de olhar para baixo? 

Tenho muito! [risos] A gente tem que aceitar isso… Eu tenho, em mim, que isso é certo, mas eu ainda tenho esse mesmo medo de quando eu fiz a música, do tipo “e se não eu não viver o bastante?” “E se eu estiver fazendo coisas hoje que eu vou me arrepender no futuro ou de ter vivido essas coisas, de ter tomado caminhos errados?” Acho que o lance da mortalidade tem muito a ver com isso, de chegar no final da minha vida e ter orgulho de mim mesmo, sabe? É uma responsabilidade que eu não sei se eu tenho hoje, que é uma nóia que eu nem sei se eu deveria estar pensando nisso, mas eu penso e é meio engraçado. [risos]  

Você acha que no futuro vamos olhar para trás e falar “foi maneiro viver”?

Ah, eu espero muito que sim, mas eu queria chegar numa idade em que eu não me importasse mais com isso, sabe? Eu tô numa fase da vida, pelo menos, que eu tenho que tomar muitas escolhas que são, tipo, bifurcações muito absurdas, sabe? Tipo, ou é isso ou é isso, entendeu? Eu só queria que chegasse um momento em que essas escolhas não tivessem mais tanta importância. 


Já em “Olho Roxo” você diz que é difícil suportar tanta porrada de uma vez. Hoje em dia, você continua tendo esse pensamento ou as coisas melhoraram? 

Eu tenho essa visão ainda… Sei lá, acho que eu tenho que tomar muito cuidado comigo mesmo, sabe? De me autossabotar e às vezes tem tudo pra dar certo alguma coisa e eu não me sinto merecedor disso. Então, tipo, eu acho que eu inevitavelmente tenho que tomar cuidado.  

Na mesma faixa, você diz que acessar a memória te faz perder a calma. Por que? Inclusive, existe um motivo da memória estar tão presente em sua obra? 

[breve silêncio, solta um suspiro] Pô, não sei. Acho que tem muito a ver também esse lance de escolhas e tem a ver em, de repente, duvidar sobre o meu próprio caráter. Acho que tem muito a ver com essa dualidade de entender também que o ser humano, não só eu, mas uma pessoa em geral, tem fases boas e ruins e ela toma decisões boas e ruins e isso não é dizer que necessariamente todo mundo é bom ou mau, sabe? Às vezes eu ficava pensando sobre os filmes de Hollywood, bem estadunidense, que o mocinho é um cara lindo e o cara do mau é o cara mais escroto e malvado do mundo. Faz parte também de crescer [e ver que] talvez pessoas boas façam coisas ruins também… É o lance de parar de odiar um pouco. 


"O processo de gravar o EP foi uma consequência direta dos shows que fizemos como banda, incorporando elementos nas músicas novas que mais funcionaram nas canções antigas ao vivo - para além de composições mais maduras, a produção desse material também nos aproximou muito como amigos."

Sementes continua trazendo questões reflexivas, mas com novos assuntos, fortalecendo a identidade estética criada para o projeto. Como foi gravar esse EP tendo os shows como consequência da sonoridade? Como é revisitar o passado e hoje você perceber que você é outra pessoa e que também está dando consequência ao que você criou, mas também de outra maneira?

Eu acho que esse lance de também revisitar um pouco as letras que eu escrevi há muito tempo, o veio sem maionese tem letras muito antigas, e ter a oportunidade de escrever letras mais frescas e condizentes com momentos que eu vivo hoje, é meio isso… Eu acho que tem algumas letras que parecem ser uma continuação de alguns pensamentos que eu tinha quando eu era moleque, a própria música “Sementes” tem muito a ver com insegurança, algo que todo ser humano sente e é algo que eu sentia e que eu sigo sentindo… Mas também tem músicas que se contradizem bastante com o trabalho passado. Tem uma música que se chama “Vergonha”, que é uma vibe mais tipo estar em paz consigo mesmo, que no disco não tem nada disso, é só eu em guerra comigo mesmo, é uma música de se resolver, de se sentir um pouco mais adulto. Acho que tem um pouquinho, uma pitadinha dos dois [álbuns], das duas ideias: retomar o que eu já fiz e ao mesmo tempo apresentar novas ideias de coisas que eu andei pensando.


Se antes a semente era íntima e quase confessional, agora ela se ramifica: ganha novas formas, ocupa outros espaços e alcança mais gente. Sementes não apenas revisita a origem, mas reafirma o percurso, mostrando que aquilo que foi plantado lá atrás continua crescendo, criando raízes e, sobretudo, dando frutos.



A turnê de Sementes, de Pedro Lanches


Após a primeira apresentação no início do mês, em Americana (SP), o músico retoma a turnê a partir de 23 de abril, no Rio de Janeiro (Vizinha 123). No dia 25, Pedro Lanches se apresenta no Estúdio Central, em Belo Horizonte, e, no dia 30, em Curitiba, no Belvedere.


Em maio, a turnê passa por São Paulo: no dia 2, em Campinas; no dia 9, em Piracicaba; e, no dia 30, no Hangar 110. Garanta o seu ingresso aqui.

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