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Boneca Russa

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • 16 de mar.
  • 2 min de leitura

Relacionamentos amorosos podem ser comparados ao carnaval: o início é marcado pelo desejo; depois vêm os dias de euforia, quando os encontros se transformam em desfile e o amor parece ocupar a avenida inteira. Mas, como toda festa prolongada, também chegam as crises, os desencontros e o cansaço. Quando o amor termina, restam a maquiagem borrada e a sensação de vazio, como se algo muito bonito tivesse acabado de passar. É justamente dessa fase que nasce Boneca Russa (YB Music, 2026), novo trabalho de Rômulo Fróes.


Lançado simbolicamente na quarta-feira de cinzas, o disco mergulha nas dores e nos vestígios de um relacionamento que chegou ao fim, transformando a experiência do rompimento em um percurso poético sobre o luto amoroso. Mais do que narrar um término, Fróes organiza o álbum como um desfile melancólico.


As canções avançam como um abre-alas, cada uma revelando fragmentos de memória, imagens dispersas e sentimentos que ainda procuram lugar. O efeito é o de um samba-enredo emocional: diferentes cenas, mas todas orbitando a mesma história.


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(Créditos: Divulgação/Reprodução)

Sob a regência do baixo de Marcelo Cabral, Fróes não constrói uma narrativa linear. Em vez disso, trabalha com lembranças que surgem como flashes: gestos cotidianos, frases suspensas, toques e imagens fantasmáticas que retornam enquanto o narrador tenta compreender o que restou depois do amor. É o que se percebe já na abertura do álbum, "A Hora Mágica", em que a sensação de deslocamento aparece condensada no verso: "agora o mundo é um mundo que não cabe um sol".


Grande parte das canções se apoia na presença grave e mutável do baixo, que conduz o disco como a espinha dorsal dos arranjos. Em alguns momentos, o instrumento assume função percussiva; em outros, soa como uma guitarra metálica ou um violoncelo sombrio, criando um ambiente austero que sustenta o peso das palavras. A escrita das faixas é direta, às vezes quase documental, recusando qualquer idealização do romance e encarando o término com uma lucidez poética dolorosa.


Há tristeza, mas também beleza e dignidade em Boneca Russa. Em vez de dramatizar o sofrimento, o compositor observa os escombros do relacionamento com uma mistura de fragilidade e consciência. O amor não aparece apenas como experiência perdida, mas como algo que continua reverberando na memória, nos objetos e nos lugares.


No fim, Boneca Russa se revela menos um disco sobre separação e mais um estudo sobre as camadas do afeto. Como no carnaval que inspira sua estrutura simbólica, a intensidade do amor não desaparece de uma vez: ela se desfaz aos poucos, deixando rastros.



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