• Michele Costa

LoreB a todo vapor

A voz da alagoana LoreB conquista o cômodo em que escrevo essas palavras. Com voz doce, misturando diversos gêneros musicais, a cantora conquista o ouvinte rapidamente. Em "Flores Amarelas", música que abre o seu álbum Étero (2019), encontramos teclados vibrantes, lofi hip hop e um toque de música popular brasileira. Quando vejo, já estou em outro mundo divino, o mundo que a artista criou, o seu próprio étero.


A artista seguiu seus instintos artísticos desde cedo, cantando no coral. Assim que cresce, percebe que não é possível fugir daquilo que ama e insiste na música. LoreB fez parte de bandas covers, fez backing vocal e parceria com outros músicos. Mesmo sem planos de seguir carreira solo, o caminho (ou seria destino?) a encaminhou para o outro lado e ela se jogou nisso. A alagoana mostrou seus dois objetivos: cantar e fazer com o que o público dança/sinta suas canções.


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O que te levou ao mundo da música?

Acho que eu não fui levada, eu só não tive como fugir. Na minha família existem outros músicos também. Eu iniciei ainda criança no canto coral e segui minha vida paralela com outros sonhos e objetivos comuns como qualquer pessoa inserida num mundo capitalista de competição, mas eu sempre estive acompanhada da música, cantando na escola, depois na igreja, enfim. Então, depois que eu comecei a dedicar meu tempo e meu dinheiro exclusivo a música, eu não quis mais saber dos outros caminhos, porque eu me encontrei nesse. É onde eu me sinto eu.


Você já fez parte de bandas covers. Quando percebeu que era o momento de seguir carreira solo? De alguma maneira, ter participado de uma banda te ajudou a dar esse passo?

Eu ainda faço parte de um projeto com a Bandinha, onde a gente toca músicas de outras pessoas em casamentos, continuo fazendo isso porque no mercado da música é onde eu tenho rentabilidade hoje. Participar de outras bandas me ajudou mais no sentido de perceber o público, de me comunicar melhor e confesso que ainda estou nesse processo. Mas, com relação ao momento da carreira solo, quando eu percebi eu já estava nela porque eu nunca tive esse objetivo de ser "frontgirl”. Eu sempre disse que meu sonho sempre foi ser backing vocal de uma banda/artista legal. Então, quando eu decidi gravar minhas composições para guardá-las comigo, eu percebi que estava trançando minha carreira solo, daí eu me joguei.


"Etéreo", seu primeiro álbum, é uma mistura de diversos gêneros musicais. Como foi o processo dessa mistura?

"Etéreo" é uma mistura de gêneros porque possui músicas de momentos diversos da minha vida e eram músicas que eu queria gravar despretensiosamente para arquivá-las. Mas, quando percebi que elas poderiam ir para o mundo, eu decidi compilar tudo num EP, que serviu como uma pequena mostra de quase todas as minhas referências e tudo que eu poderia oferecer. Além disso, por minha carreira não ter tido o planejamento prévio, eu ainda não conhecia a identidade sonora que eu queria seguir. Então, esse EP serviu de auto aprendizado. Ele me apresentou ao mundo e, apesar de tudo, eu tenho muito orgulho dele.


Ainda falando do seu primeiro álbum, a canção "Vazio Moral" traz críticas aos conservadores e ao cenário político de 2018/2019. Para lá muitas coisas aconteceram. Como você vê o cenário musical nos três últimos anos?

Na verdade, eu compus "Vazio Moral" no período de 2016/2017 que foi quando estava ocorrendo o processo de impeachment da presidenta Dilma. Desde lá, nós tivemos muitas perdas. A cultura, de uma maneira geral, tem vivido muitos retrocessos com perdas de ministério e condenação aos artistas. O cenário foi dos piores possíveis, ao meu ver. Acredito que após as restrições da pandemia, os artistas puderam voltar a ter um certo reconhecimento, parte da população conseguiu perceber que a cultura também é uma pauta importante dentro de um plano de governo. Infelizmente, ainda temos muito o que reivindicar e desmistificar, mas historicamente, nós artistas, nunca desistimos de lutar pela nossa liberdade democrática, então seguiremos.


Suas canções foram compostas em diferentes momentos da sua vida, fazendo com que o ouvinte se identifique com sua obra. Qual o seu processo de escrita? Expor sentimentos e dores causa algum impacto em você?

Eu sou uma pessoa mais observadora que alguém que se expressa e fala tudo que pensa na hora. Eu costumo guardar sentimentos, momentos, frases, imagens… Quando eu me sinto à vontade, eu tendo a desafogar tudo na música. Então me expressar através da música é uma válvula de escape, muitas vezes.


Em 2019, você fez shows. Aí, um ano depois, vem a pandemia e para tudo. Como está sendo o isolamento? Tem esperanças que será possível voltar para os shows em breve?

Então, eu lancei meu EP, fiz alguns shows, tinha planos de fazer mais alguns fora da minha cidade, mas veio a pandemia e tivemos que nos transformar. Acredito que eu vivi várias fases na pandemia. No início, todo aquele pânico sem saber o que estava acontecendo. Tive um isolamento um pouco privilegiado porque moro com meus pais; então não passei por grandes dificuldades. Em algum momento, eu "curti" me isolar mesmo, não produzi nada de novo, desocupei a mente do trabalho um pouco. Mas depois veio a fase do aprisionamento, da necessidade de socializar. Então, quando meu estado entrou numa fase estável no número de casos de covid-19, eu voltei ao estúdio para terminar a produção dos meus singles e aí era quando eu me aliviava um pouco de toda essa tensão que a gente está vivendo ainda.



No ano passado, LoreB se juntou com Maju Shanii e criaram "Haja Cor", canção linda que retrata a liberdade do amor, que não tem cara, sangue, gênero e classe social: "As cores não resumem ao que os nossos olhos querem ver / Não são só as sete do arco-íris, existem muito mais para conhecer".


Depois de participar do álbum de Wado "A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa" (2020), a parceria se repete mais uma vez, no single "Sem Pressa", que narra o cotidiano de um jeito leve, fazendo com que o ouvinte preste atenção nos mínimos detalhes que o cerca - "A pressa perdeu para a imperfeição e para espantar a paz". O single nos mostra que é possível viver sem pressa em um mundo caótico e que a presença do outro deve ser aproveitada lentamente, com amor.


Em 2020, você lançou "Haja Cor" com participação de Maju Shanii, onde cada uma deixou suas características. Como foi o processo desse dueto? Vocês escreveram a música juntas?

Sim, eu escrevi o refrão e a primeira estrofe, daí enviei para Maju e ela me enviou outra estrofe pronta, a gente foi ajustando e foi assim que fizemos a música, toda através de mensagem e áudio no WhatsApp.


No mesmo ano, você participou do álbum de Wado. Como foi essa experiência?

Foi uma experiência única. Eu já acompanhava os trabalhos do Wado há algum tempo, arrisco dizer que pra minha geração ele é a nossa maior influência aqui na minha cidade. Então, ser convidada para participar de um trabalho dele foi uma imensa honra e eu sou muito grata por isso.


A parceria volta mais uma vez, agora para o seu trabalho. "Sem Pressa" é um pop calmo que sustenta a letra do cotidiano. Queria saber como surgiu essa canção e o porquê do Wado cantá-la.

Eu decidi convidá-lo para a canção justamente depois da gente ter trabalhado junto no projeto dele. Eu compus toda a letra, harmonia, melodia da música e eu queria alguém pra fazer um dueto comigo, então eu não pensei em outra pessoa, a não ser ele e eu acho que deu certo, eu fiquei muito feliz por ele ter topado participar.


O que você anda ouvindo durante a quarentena que te auxilia no processo criativo?

Eu ouvi lançamentos que eu ainda não tinha conseguido parar pra ouvir em 2019 e 2020 como Jup do Bairro, Luedji Luna, Tagua Tagua e também parei pra ouvir algumas coisas antigas que eu queria ouvir com atenção e os meus ouvidos de hoje. Então, ouvi alguns álbuns antigos do Jorge Ben Jor, Criolo, Amy Winehouse, Fleet Foxes e, depois de ouvir o álbum da Dua Lipa, eu voltei a ouvir algumas coisas dos anos 80, Daft Punk, Michael Jackson, Jamiroquai. Comecei a me apegar mais aos álbuns e isso me ajudou a refletir melhor sobre o meu futuro trabalho.


Para finalizar, quais são os seus planos para o futuro? Podemos esperar mais um single seu?

Sim! Eu tenho mais um single engavetado pra sair por aí logo, logo. Vou lançar esse single pra fechar essa série e por enquanto é o máximo que eu posso falar [risos].


"Étero" e outras canções de LoreB estão disponíveis em todas as plataformas musicais.


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