• Michele Costa

Marcelo Cabral e o mundo pós-apocalíptico

Cantor, compositor, arranjador e produtor musical, Marcelo Cabral não tem medo de ousar. Seja sozinho ou ao lado amigos, com um baixo ou sintetizadores, Marcelo deixa claro que na música pode tudo. O resultado pode ser visto nos álbuns que produziu, de cantores como Criolo e Elza Soares; no Passo Torto, conjunto que faz parte ao lado de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes; em Metá Metá, com Kiko, Juçara Marçal e Thiago França; e em seu recente álbum, "Naunyn", recém lançado.


Gerado durante o isolamento social, "Naunyn" é o oposto de "Motor" (2018), seu primeiro disco. Dessa vez, Cabral relembra - e se inspira - sua temporada de um ano e meio em Berlim e cria um álbum eletrônico, totalmente sozinho. Além de relembrar seu passado, o álbum também soa como um grito - talvez de desespero ou frustração ou nada disso -, que cai muito bem com o momento em que estamos vivendo.


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Seu novo álbum, "Naunyn" é completamente diferente de "Motor". Como foi chegar no eletrônico?

Tenho ligado dois pontos principais da minha vida que foram dar neste disco, de uma forma resumida: minha infância e adolescência vivendo do skate imersa ao pós punk, new wave e ao rap dos anos 80 e em 2014 durante a produção do "Convoque Seu Buda" do Criolo em que comprei meu Bass Synth. Parece que a partir disso juntou tudo e fui mais atrás de ouvir e conhecer do mundo dos instrumentos sintéticos e que foi coroar e sentir na pele o poder e a profundidade do eletrônico na minha temporada de um ano e meio em Berlim. O eletrônico na forma dos sintetizadores está presente em tudo que venho fazendo desde a aquisição deste sintetizador de graves, o primeiro foi "A Mulher do Fim do Mundo" da Elza Soares. No meu disco "Motor", por exemplo, não gravei nenhum baixo, foi tudo no Bass Synth. Senti que a profundidade e a duração dos graves que queria só ele me dava, além de jogar a estética sonora para outro lugar. Estes dias até o Thiago França brincou "por que que o Cabral não grava baixo nos discos dele?" [risos] A novidade do início de 2020, foi o OP-1, um sintetizador, sampler e sequencer que me enlouqueceu, e foi através dele que tudo desaguou, o "Naunyn" foi inteiro feito só nele.


"Naunyn" é inspirado na sua vivência em Berlim. Essa vivência vai além de clubes e músicas que são originadas da Alemanha? Podemos considerar que o seu dia a dia, ser um estrangeiro por lá, também serviu como inspiração?

A música de Berlim é o eletrônico, como a do Rio é o samba e etc pelo mundo com seus ritmos e diferentes linguagens. A experiência nestes lugares é potencializada, muito diferente, parece que rola uma osmose, a própria cidade, o seu clima cinza, o idioma, tudo parece que te influência quando se vive por um tempo em algum lugar e eu estava atrás disso, não queria ouvir nada do que já conhecia. O eletrônico é uma linguagem universal, escuto e pesquiso artistas do mundo todo, gosto de sentir os sotaques diferentes que cada um traz.


O que me chamou atenção do seu novo projeto, foram os nomes das músicas. O que elas significam?

São nomes de ruas de Berlim. Primeiro lugar que morei foi na Oker, durante 3 meses, ao lado do Tempelhofer Feld, antigo aeroporto do regime nazista e hoje desativado e transformado em parque, e todo o restante do tempo na rua Naunyn, que deu título ao disco. São ruas dos bairros de Kreuzberg e Neukôlln que me marcaram muito e que as usava no dia a dia. Cada música foi me lembrando o clima de cada rua e assim as nomeei.


Dessa vez, você fez um álbum sozinho, durante o isolamento social. Como foi o processo para você? Foi solitário em algum momento?

O processo e o fazer foram a salvação dos primeiros meses do isolamento. Quando estava criando e gravando conseguia esquecer de tudo e me deixava levar pelas inspirações que iam batendo. Quando fechava o laptop é que dava espaço para virem reflexões, solidão, ansiedades, talvez este tenha sido o motor maior do meu mergulho em criar o disco todo num curto espaço de tempo, de fevereiro a maio. Não tenho a menor ideia de quantas horas fiquei experimentando e descobrindo cada timbre do sintetizador, sequências e batidas até chegar no que eu queria para cada música.



Confesso: precisei ouvir duas vezes o álbum para captar (ou algo assim), a essência. Não, não houve o estranhamento ou aquela arqueada de sobrancelha - longe disso! No primeiro momento, senti que Marcelo gritava e era o mesmo grito que o ser humano, enclausurado, solta todos os dias. A segunda vez, percebi que o músico quer que você, ouvinte, sinta um pouco a vivência que ele teve no passado, para, mais tarde, você ter alguma conclusão - no entanto, não existe um final, porque Cabral (faz isso muito bem!) não pára, deixando o eletrônico tocar em loop, até chegar nas veias de quem está consumindo.


Ainda falando sobre o isolamento, seu processo de criação foi alterado? Foi o momento para ser mais "selvagem" para não enlouquecer?

A criação foi a minha válvula de escape, tanto ao violão como produzindo no Protools. Nunca compus e produzi tanto sozinho. Primeiro veio um medo de como eu me comportaria, se iria travar ou algo assim. Com o baixo acústico por exemplo, eu não consegui tocar durante os 5 primeiros meses, ficava meio sem porque estar fazendo aquilo, mas aos poucos foi soltando e achando como me reaproximar e hoje em dia estamos amigos novamente [risos]. Me fez muito bem o ato de todo dia abrir uma sessão e começar a criar sem me preocupar onde iria dar, só me divertindo, descobrindo e estudando o sintetizador, foi desse laboratório que começou a surgir o disco.


No meio da pandemia, genocídio da população negra e indígena, inflação e o desgoverno, muitas pessoas estão avaliando vida, profissão, ideologias e etc. Você passou por esse processo? Alias, a música teve um novo significado para você?

Muito difícil não panicar e deixar a raiva vencer. Comecei a meditar todas as manhãs e me forçar a ter alguma rotina diária com horário pra acordar e não deixar espaço pro mal habitar. Percebi mais ainda o quão imprescindível é a música na minha vida, ouvir, tocar e criar são absolutos, igual a comer. Nada me acalma mais do que tocar, compor e cantar minhas músicas no violão, ou iniciar uma produção, em um segundo já estou em outro lugar e não penso em mais nada, tem me ajudado a viver um dia de cada vez.


Em algumas entrevistas, você disse que “Motor” veio naturalmente e que você não sabia se teria um show - no final teve. Quais são os planos para seu novo projeto, você acha que terá um show no futuro?

Por enquanto eu realmente não vejo um show dele, em como desmembrá-lo todo e trazê-lo pro ao vivo, só nas mãos dos Djs mesmo. Talvez em meio a tudo isso que estamos vivendo e sem perspectivas nenhuma de shows nos próximos meses venha alguma ideia luminosa na cabeça, mas acho difícil, a não ser que eu fosse Dj.


Tenho a impressão de que você nunca para, sempre está criando, produzindo, pesquisando novos sons. Você tem planos para o pós-Naunyn?

Boa impressão [risos]. Ficar parado ou fazendo o mesmo som durante muito tempo é algo que realmente me incomoda, minha cabeça já vai sozinha pra outro lugar querendo algo novo, um novo desafio. Estava no meio do "Naunyn" e já começaram a surgir novas ideias que fui registrando e que logo mais vou lapidá-las e ver qual delas eu priorizo. São ideias que surgem, mas que às vezes não cabem naquele projeto, então começo outro ao invés de jogar fora, tenho salvado tudo hoje em dia. Acho bom mexer em dois ou mais projetos ao mesmo tempo pra descansar o ouvido de um assunto e ou misturar as ideias. Estou com quatro projetos bem distintos, vamos ver quem grita mais e ganha.


Ouça "Naunyn", disponível em todas as plataformas de streaming.

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