Siso entre o ferro e o fogo
- Michele Costa
- há 2 horas
- 14 min de leitura
Movimento: ato ou processo de mover(-se); mudança de um corpo, ou de parte dele, de um para outro lugar; deslocamento. Utilizando o corpo - membros, memória e voz -, Siso se deslocou para mergulhar nas histórias de familiares vividas entre Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais, e na sua própria, para criar um repertório que soa ao mesmo tempo íntimo e coletivo. As canções de Ferro e Fogo (2026) lembram a expressão a ferra e fogo: forjadas no calor das lembranças, no peso das origens e na força das narrativas que atravessam gerações.
Após passar por diferentes temas em seus trabalhos anteriores, Siso parece escavar camadas de memória para compreender o seu presente. Guiado por uma orientação espiritual, as canções de Ferro e Fogo funcionam como pequenos arquivos afetivos, nos quais histórias familiares, trajetórias migratórias e heranças culturais se entrelaçam. Nesse processo, o artista transforma lembranças em movimento criativo: cada faixa carrega ecos de diferentes regiões do país e reafirma a música como espaço de coletividade.
Esse movimento ganha ainda mais força com as colaborações de Luiza Brina, Virgo Virgo, Felipe Neiva, Brina Costa e Paulo Mutti (Bumbum Astral). Ao lado dos amigos, a voz do artista ecoa naquilo que está marcado em cada um e, ao mesmo tempo, no que atravessa a todos.
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Quando nos falamos pela primeira vez, por email, abordamos o terceiro molar que deu nome ao projeto musical. Você está com ele há muitos anos, ainda sente algum incômodo?
Hmmm, incômodo? [olha para o lado] Acho que sim, acho que não tem como estar nessa nossa sociedade sem sentir algum tipo de incômodo, né? O motivo certo pelo qual uma pessoa vai atrás de uma carreira artística é para entender melhor a si e como coexistir melhor com o mundo, porque é esquisita a experiência humana e tem muitas experiências ao mesmo tempo que a gente tem, que vai disso, vai da dor, vai do afeto, à solitude, ao desespero e é uma gama tão variada de expressões, de frequências, por assim dizer, que é meio… Eu acho que sempre vai haver algum desencaixa, algum incômodo e eu acho que talvez, na minha obra, a coisa que eu me sinta mais, a coisa que me inspira mais facilmente a escrever, a compor e tudo mais, é de certa maneira uma sensação de incômodo, é uma sensação de identificar certa coisa que precisa ser transformada, que precisa ser ressignificada e isso parte de um incômodo inevitavelmente, né? Então, acho que sim, acho que sim e acho que sempre haverá e tudo certo. [sorri]
Quando você consegue identificar esse incômodo, como é o processo para você aliviar esse incômodo?
Nossa, acho que acontece de diferentes maneiras. Ontem mesmo eu estava num dia que eu estava com um sentimento estranho, que eu falei "não, deixa eu sentar aqui e escrever alguma coisa, porque eu acho que eu vou conseguir dar forma a esse incômodo de uma maneira que eu vou conseguir solucionar ele de alguma maneira ou pelo menos tirar de mim", botar no papel ou qualquer coisa do tipo. Mas é isso, acho que às vezes também vira um lugar de criação que ajuda a identificar o que é o incômodo, mas também tem o lugar de tipo "ok, eu já tenho isso identificado, eu já tenho isso elaborado." Acho que essa perspectiva vale a pena ser trazida para um lugar de música, vale ser trazida para um lugar de… Porque é isso, queira ou não, a música é esse tipo de experiência que você consegue, de certa maneira, conectar com as pessoas num lugar de menor resistência, de certa maneira, porque você está ali ouvindo, você não tem como não ouvir uma vez que você já começou a ouvir, então você fica ali exposto a uma situação, você pode utilizar-se dessa experiência para poder fazer algo de relevante, para poder fazer algo de importante. Acho que há diferentes maneiras de abordar essa questão, de trazer esse desenvolvimento, essa prática, por assim dizer.

Todos os seus trabalhos possuem tema. Você já abordou lembranças, sua chegada a São Paulo, e relações. Após passar por esses assuntos, como foi chegar no tema de Ferro e Fogo que aborda sua jornada de transformação e ancestralidade? Foi necessário fazer todo esse caminho?
Acho que sim, muitas vezes eu fico pensando… Às vezes brota esse lance de tipo [o zoom trava], eu acho que se eu não tivesse feito isso, eu não teria feito aquilo, às vezes brota esse tipo de pensamento, mas ao mesmo tempo eu fico pensando, cara, é a deriva, tá tudo certo, é isso. Eu tenho uma visão muito específica também: eu enxergo o meu primeiro EP, o Terceiro Molar, lá de 2016, como uma espécie de semente do meu trabalho artístico, tudo que eu faço, ele tá contido ali de alguma maneira. Eu acho que, talvez, tudo que eu vá fazer na frente, de certa maneira, existirá um pequeno aspecto do Terceiro Molar. Cara, ali, é tipo a célula-tronco do meu trabalho artístico, sabe? Cada álbum acabou sendo um exercício de uma temática diferente, de uma energia diferente, uma perspectiva diferente, mas eu acho que tudo faz sentido nesse todo, porque tem, de certa maneira, essa característica meio quase existencial no meu trabalho que acaba sendo um aspecto da mesma coisa, né?
No final, todas essas histórias abordadas dialogam com histórias de outras pessoas, como você fez no último projeto, em Ferro e Fogo. Como foi revisitar essas histórias e memórias para escrever um novo capítulo?
Foi muito interessante, foi muito num lugar de rememorar certas coisas de família muito antigas [olha para os lados]. Acho que foi uma junção de coisas que me acabou culminando nesse período específico que eu compus o disco, assim, sabe? Meu pai estava muito debruçado sobre uma certa pesquisa de coisas antigas - ele vem da fotografia e, talvez, tenha influenciado, de certa maneira, essa exploração, porque eu tive também uma série de experiências espirituais que também apontavam para a ancestralidade de alguma maneira. Em conversas com meus pais, eu fui rememorando histórias que sempre foram contadas na família, coisas dos meus avós, coisas de gerações ainda anteriores a isso… E eu entendendo, assim, "cara, é meio que uma história coletiva!" Quando a gente se prende a uma determinada perspectiva, a gente vive em 2026 numa metrópole, na maior metrópole da América Latina, e aí a gente olha para essas histórias e fala "cara, isso aqui é tudo parte de mim, essa deriva chegou até mim, eu sou isso também", então, como é que a gente consegue falar de nós? Como é que eu posso falar de algo que não é apenas meu, mas que é nosso? Partindo disso, do específico, que vira algo que é sobre o todo, sabe? Por exemplo, "O Tombo" é a história mais explícita dentro do álbum, uma história super específica do meu avô, pai da minha mãe, que quando jovem, no interior da Paraíba, tava carregando uma carga para a família dentro da mata, levou um tombo, saiu rolando morro abaixo, nessa queda ele perdeu a memória e foi resgatado pelos irmãos e ele viveu sete anos desmemoriado, sete anos sem entender, sem ter concepção do que ele era, e aí ele leva um outro tombo acidental e recobra a memória de como ele era sete anos antes, e aí vai olhar para a mãe mais velha, para os irmãos mais velhos, e o choque daquilo tudo, o espanto daquilo tudo… [gesticula as mãos] Isso é uma história que roda a família há muitas décadas. Eu falei "cara, apesar de muito específica, ela diz de uma certa instância de memória". Ela diz de uma questão que é de resiliência também, de uma questão de como a gente conta as histórias e como a gente, de certa maneira, faz aquilo que realmente importa: sobreviver por meio das histórias. A gente é um grande novelo de lã, né? Então, a gente é essa trama, esse fio que vai se cruzando. Eu parto de uma premissa de que, cara, quase nada é individual [risos], quase tudo é coletivo, as experiências são meio compartilhadas em alguma instância.
Como você se sentiu ao ouvir mais sobre a sua família e, consequentemente, sua história? Em algum momento, você sentiu algum sentimento, visto que quando falamos de família sentimos muita coisa, né?
Justo, sim. [breve silêncio] Eu acho que talvez seja num lugar de uma compreensão mais generosa e também de um lugar de quase uma autorização dos sentimentos, por assim dizer, sabe? Porque eu acho que talvez pelo jeito como eu fui criado e pela estrutura toda ao meu redor… Eu sou uma pessoa da diplomacia, por assim dizer, eu sou a pessoa que contemporiza que, de certa maneira, maneja as situações de um modo a ser pacífico para todos os envolvidos e muitas vezes isso me faz perder certo contato com uma instância de raiva ou até mesmo não reconhecer quando ela existe - de confundir a raiva com outros sentimentos, como ansiedade, com o que quer que seja e tudo mais. Existe essa sensação de que a raiva, de que a indignação, dependendo das experiências que você tem em vida, ela pode ser interpretada de uma maneira destrutiva, mas não necessariamente, a raiva ela é apenas um sentimento, ela é uma coisa que atravessa e que ela aponta para algo que está errado e que precisa ser corrigido e que, na verdade, ela é um sintoma que está mais ligado a um lugar de tristeza do que qualquer coisa, é tipo "que merda que as coisas estão dessa maneira". É um lugar de movimento e esse disco é um disco de movimento. Então acho que talvez passou por um lugar de falar "não, tá tudo certo em movimentar, está tudo certo em expandir, transformar, nem tudo que transforma é destruição", que é bem um pedaço da letra de "Linha de Plutão" [sorri]. Nem sempre o que se sente de intenso é destrutivo, há como se ter usos construtivos dessa energia primordial [ênfase na palavra] e vai por esse caminho. Eu acho que essas histórias ancestrais, até por ter vindo de uma família humilde, metade da família veio de alguns estados do Nordeste, outra metade ali de Minas Gerais e Bahia, são histórias de gente humilde, que teve que engrossar a casca ali, arregaçar as mangas e lidar com umas situações bem horrorosas muitas vezes, e você falar "não, eu acho que está tudo certo, está tudo certo em sentir essas emoções mais intensas" e validá-las e elas serem motor para alguma transformação positiva, então acho que talvez o disco aponte nessa direção.
"É aceitar o que acontece, mas não se encerrar na aceitação também."
Uma coisa que me chamou bastante atenção e eu achei muito bonito no álbum é sobre sua experiência espiritual. Você foi guiado por uma orientação espiritual e é muito diferente dos outros trabalhos que você já realizou. Como foi esse processo de guia e como foi desenvolvê-lo para o disco?
Eu não diria que desenvolvi para o disco porque foi uma coisa simplesmente vivida, sabe? A espiritualidade se manifestou ao longo desses últimos anos na minha vida de uma maneira muito múltipla, porque tem um lado que tem a ver com mediunidade - eu digo não apenas minha, mas de pessoas ao meu redor, de situações em que eu me vi -, mas também tem um outro lado de intuição, do sonho. Tem canção que veio em sonho, a capa veio em sonho. Foi um exercício de estar aberto para receber e isso foi o mais diferente desse processo. Ao longo dos últimos trabalhos eu tava sempre ali com uma ideia específica da qual eu queria trabalhar, um universo de sons com o qual eu queria trabalhar e, dessa vez, eu deixei tudo emergido, tudo veio, apenas. É um trabalho que é verborrágico, em certa instância, mas também porque ele surgiu da palavra, a primeira música a surgir desse trabalho foi "A Palavra Furacão" e "Atraque" que são irmãs ali dentro do disco, elas surgiram antes de Vestígios (2022), meu álbum de releituras. Como eu não sabia exatamente para que caminho artístico eu ia com o próximo projeto, eu pausei esse processo criativo, porque falei “não, deixa que alguma hora eu vou ter mais clareza a respeito disso”, eu fiz o Vestígios, passei por todas as experiências do Vestígios, e aí veio todo esse momento espiritual, e aí eu falei "cara, é isso, eu vou deixar isso simplesmente se manifestar a partir dessas experiências, a partir dessas memórias" e no fim das contas eu acabei fazendo um monte de letras e eu não sabia o que fazer com essas letras, então, comecei a colocar nas mãos de amigos, mandei uma letra para Virgo Virgo, uma para [Felipe] Neiva, uma para Brina Costa e Paulo Mutti, outra para Luiza Brina e aí as canções foram começando a chegar e eu fui falando "caramba, que massa toda essa história" e isso foi me inspirando a pegar algumas das letras e fazer eu mesmo. De repente, num movimento muito louco - mais uma vez o movimento surgindo -, esse material, enquanto composição, ficou pronto em um mês e foi meio absurdo assim, eu ainda não sabia muito bem como é que ia ser a sonoridade das canções, eu não sabia como é que eu ia arranjá-las, se fosse uma coisa mais eletrônica, mais acústica… Aí surgiram alguns convites de shows, e eu falei "vou testar esse material para entender, para sentir, mas não quero ficar pensando, vou sentir o que é isso" e aí teve o show do Sesc Pompeia, eu falei "vou experimentar esse repertório da maneira mais crua possível, com voz e guitarra" e a partir dessa interação com o público, entendendo como que fazia sentido para as pessoas, como é que batia nelas, eu falei, "ok, acho que agora eu entendi qual que é a pegada desse disco." Sentei no computador e surgiu, eu levantei o disco inteiro em uma semana, mais uma vez, muito rápido. Eu falei com a Alejandra Luciani [gravação de vozes, mixagem e masterização] e com o João Abtibol, que está aqui com a gente também, que também é co-diretor artístico e co-produtor executivo nesse projeto também, muitos processos de troca com ele ao longo desse momento também… A gente gravou todas as vozes, incluindo as da Tiê e Virgo Virgo, em dois dias, e aí, pá [ênfase na palavra e mexe as mãos], o disco ficou pronto muito rápido e [a partir disso] foi um processo também de sentir o disco e deixá-lo ficar pronto no ritmo dele também, porque a gravação ficou pronta, e aí tem todos os outros processos, o que é que vai ser a capa, como é que vão ser as imagens, o que é que vai ser o videoclipe… Isso tudo foi se apresentando muito dessa maneira, dessa maneira intuitiva, subconsciente e tudo mais. Eu sonhei com a capa do disco, eu levantei [da cama], na mesma hora, peguei uma caneta pilot, um papel, fui rascunhar e falei "é isso". Eu olhei para aquilo e falei "tá, acho que é a capa do disco" e esse desenho levou aos outros desenhos, os desenhos individuais de cada música e, ao mesmo tempo, as ideias também para os videoclipes, foi tudo partindo desse lugar, dessa deriva, dessa entrega ao mistério - esse é um disco de mistério e eu adorei me jogar nessa experiência, eu vou querer fazer isso de novo e de novo, de me entregar a esse tipo de experiência em próximos projetos, porque eu acho que é muito satisfatório.
Não foi só um movimento, foi um furacão. Não foi muita energia para você?
Super, foi super intenso! São muitos assuntos, eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, porque fora isso, a vida acontece e ela é de viés, as coisas vão se chocando e tudo é uma grande loucura [gesticula com as mãos]. Teve coisas que emergiram enquanto letra nesse álbum que depois se manifestaram, coisas mágicas e coisas trágicas também… É um processo absolutamente vivido e é isso, é sobre aceitar a vida enquanto movimento, enquanto algo que se transforma e se transforma para o bem e para o mal e se vier para o mal, ela pode virar para o bem também - o que é importante é não se perder no eixo da história, não se enrijecer nos seus processos enquanto tudo move; não se desfazer no meio do vento, se permitir ter esse lugar de maleabilidade. Esse disco é uma investigação disso também, de certa maneira.
Como não se perder nesse furacão?
Eu acho que a resposta tá nessa entrega ao mágico e ao mistério, de se entender quem você é, entender o que está ao seu redor e entender as circunstâncias, mas ao mesmo tempo não querer controlá-las, é a velha coisa do não reagir, mas responder ao que aparece: você se deparar com determinada situação e você, a cada situação, escolher o que é que você quer fazer com aquilo. Entender que os acontecimentos não necessariamente te definem, o que define é como você responde a eles - eu acho que várias canções desse projeto tocam nesse determinado lugar.

Em "Quebra-Mundo" você enfatiza que foi no quebra-mundo que enxergou quem era. Olhando para trás, acha que mudou muito? Você é realmente quem idealizou?
Olha, eu não sei se eu sou quem eu idealizei ser mas, de certa maneira, existe um certo reconhecimento. Talvez eu não tenha me deixado perder tanto quanto as circunstâncias poderiam ter me levado [sorri]. Quando eu fiz "Quebra-Mundo" foi muito pensando nessa coisa de quando a gente vive um momento muito difícil, tudo que é acessório, tudo que é meio fútil, desimportante, cai por terra porque deixa de ser prioridade. Quando eu fiz essa música, eu fui falar com a minha mãe e falei "a gente já viveu muito" e é isso, todas as pessoas tem vários quebra-mundo no decorrer da vida.
Você acha que em um futuro breve, você ainda vai mudar muito e vai se conhecer melhor em outros quebra-mundo?
Acho possível. Eu tenho certeza que eu vou mudar pra caralho, mas eu tenho certeza que em alguma instância algo vai permanecer. É estar aberto para o que manifesta ao longo desse caminho.
Em "Linha de Plutão", você reconhece que aquilo que te move também pode te derrubar. Existe uma espécie de risco inevitável em seguir aquilo que nos atravessa? Não seria mais fácil abandonar aquilo para não ser atravessado?
Eu acho que abandonar é sempre mais fácil [risos], mas eu não sou a pessoa que segue o caminho mais fácil - é aquela coisa de assumir o risco do desejo: se é aquilo que desejo, vou atrás, não importa o que aconteça, eu tenho esse tipo de relação com a música. É super interessante você ter trazido "Linha de Plutão" porque essa música - voltando na questão da intuição e tudo mais - eu sonhei. Acordei no meio da noite, peguei meu celular [pega o celular e mostra o que fez] e blábláblá e voltei a dormir até que no dia seguinte eu pensei "acho que isso é uma música, tá decente isso aqui". Eu fui ver minhas anotações para pensar na letra para estruturar e tudo mais… Ela era uma coisa muito vinda do subconsciente, essa coisa do eco familiar também, essa cultura que me atravessa, né? O ponto de vista dessa música tem a ver com duas coisas que passaram pela minha cabeça: o primeiro é um texto da Joan Didion que tá aqui atrás [se vira para a estante de livros que está atrás dele], que tem um texto específico que fala a respeito sobre como a geografia de onde você cresce te define ou define certos traços da sua personalidade. Eu fui cruzando isso com uma das coisas que eu fui estudando sobre a espiritualidade que é a questão da astrocartografia que é uma teoria da astrologia de que você pode pegar o seu mapa astral e colocá-lo no mapa mundi ou no mapa de uma cidade e ali se formam linhas energéticas que são positivas ou negativas, intensas ou não nas experiências. Nesse processo eu fui olhando os mapas dos lugares que cresci, as casas que morei, e eu sempre morei em lugares próximos da minha linha de plutão - e plutão é essa energia, esse planeta da destruição e da criação, essa coisa completamente intensa e desestruturadora, mas muito forte e muito potente. O início da música, justamente essa frase que você citou, vem da minha história familiar: quando eu era criança, eu tava dormindo no colo da minha mãe e veio um tio que me pegou no colo e me jogou pra cima e eu acordei no ar caindo e isso gerou uma série de coisas em mim… Eu precisei fazer tratamento psicológico quando criança [porque] comecei a ter grande medo de altura, medo de espaços abertos… Precisei passar por todo um processo [risos] por um gesto amoroso e é isso, aquilo que é do afeto pode ser também do desafeto.
Essas questões que você traz, você conseguiu enxergar durante o processo do disco ou já conseguia ver antes?
Eu já enxergava, mas, talvez, essas experiências espirituais foram me acomodando em um lugar mais de aceitação, sem julgamento e acolher. Isso é cíclico, isso é parte da vida.
Já em "Ferro e Fogo" você deixa explícito sobre quem cortar o caminho terá sua viagem desviada. Você já encontrou o seu caminho ou está encontrando? Como tem sido essa trajetória?
Olha, existe uma sensação pessoal - e eu recebi uma mensagem através da espiritualidade ao longo desse processo - em certa instância, pelas circunstâncias, talvez o caminho que eu desenvolvi até determinado ponto da minha carreira possa ser interpretado como um desvio, por isso, que eu vou e volto nessa coisa de experimentações diferentes. Houve certas transformações da minha vida, principalmente entre 2019 até 2023, que foram, em certa maneira, me tiraram de um determinado eixo que eu tava e até mesmo em uma percepção artística e de um entendimento de mim mesmo enquanto artista… Eu sinto que S2 (2020) e Vestígios são trabalhos-resgates, um resgate de mim mesmo inclusive. Eu acho que esse álbum é como se fosse uma retomada do caminho original: eu dei a volta e cai onde tinha que ter caído. Agora eu quero jogar com as minhas forças e só quero saber de coisas que me interessam, sabe?
Ferro e Fogo de Siso no Sesc Pinheiros
Na próxima quarta-feira, 25, Siso leva sua ancestralidade ao Sesc Pinheiros. O show de Ferro e Fogo contará com um formato que reúne voz, teclados e bateria híbrida. O repertório será ampliado com músicas de fases anteriores, contando com as participações especiais de Tiê e Virgo Virgo.
