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Dalloway

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

Em 1929, Virginia Woolf escreveu sobre os obstáculos sociais que impediam a produção intelectual feminina em Um Teto Todo Seu. Para ela, "uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção." Quase um século depois, o cenário mudou: é possível escrever no bloco de notas do celular durante o trajeto ao trabalho, em cafés, bibliotecas e até em aplicativos que corrigem, sugerem e até completam frases. A partir dessas transformações culturais, Dalloway (Yann Gozlan, 2025) propõe uma crítica ao avanço da Inteligência Artificial na contemporaneidade.


O filme parte de uma premissa contemporânea - a integração entre vida cotidiana e tecnologia - para explorar o quanto delegamos às máquinas tarefas que antes considerávamos íntimas, como organizar ideias, escrever textos e tomar decisões. Nesse contexto, Dalloway (voz de Mylène Farmer), uma IA, auxilia o dia a dia de Clarissa (Cécile de France), escritora que já experimentou o sucesso, mas agora enfrenta um bloqueio criativo. 


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(Créditos: Divulgação/Reprodução)

Instalada em uma conceituada residência artística voltada à inovação tecnológica, Clarissa recebe o suporte necessário para reencontrar sua voz. A narrativa, porém, ganha novos contornos quando ela conhece Matias (Lars Mikkelsen), membro da academia. Para ele, os artistas participantes do programa são, na verdade, cobaias para modelar e aperfeiçoar futuras versões de Inteligências Artificiais. Sentindo-se constantemente observada por Dalloway, a protagonista inicia uma investigação para descobrir as verdadeiras intenções de seus anfitriões. 


Tendo uma pandemia global como pano de fundo, Dalloway se passa em um cenário futurista saturado de dispositivos e interfaces digitais. Esse excesso, contudo, revela uma fragilidade: ao tentar ampliar sua crítica à atualidade, Gozlan dispersa o foco e não aprofunda plenamente seu tema central. É a atuação de Cecile que se destaca, sustentando o suspense que atravessa o drama familiar e acompanha a transformação da escrita de Clarissa. 


O diálogo com Virginia Woolf não é mero ornamento intelectual. Ao escolher o nome Dalloway, o filme propõe uma inversão simbólica: se em Mrs Dalloway (1925) o fluxo de consciência é singular e profundamente humano, na obra ele se torna simulável, isto é, a IA imita a introspecção, mas não vive, portanto, não é verdadeira. 


A pergunta final de Dalloway é urgente: quando a tecnologia começa a escrever conosco, ainda somos plenamente autores? 



©2020 por desalinho.

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