• Michele Costa

Brunner: o artista incendiário

É impossível não pirar com o trabalho de Brunner. Suas obras respondem muito bem ao significado da arte: é provocador. Não é para te chocar, longe disso, ele quer que você pense, reflita e que fique ao lado das minorias. A verdade brasileira. Brunner largou o jornalismo para tornar-se um artista que luta contra o conservadorismo, fascismo e os diversos problemas sociais que o Brasil passa - principalmente nesse momento conturbado que estamos passando. Foi uma boa escolha.


A arte sempre esteve presente em sua vida. Era impossível correr, a veia artística sempre falou mais alto. “A minha primeira graduação foi em comunicação social, jornalismo. Na época, eu não sabia o porquê de estar fazendo aquilo - sabe quando você tá fazendo um curso sem saber se é aquilo que você queria?! Hoje, eu entendo que na verdade eu queria me expressar. Na época do jornalismo, eu comecei a me aproximar e me apropriar dessas linguagens artísticas, do audiovisual, da vídeo arte, intervenções urbanas que estão frequentes no meu trabalho”, ele me explica pelo telefone.


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Em seu currículo, Brunner já realizou projeções em arranha-céus, foi curador, roteirista e locutor do projeto “Ouvir para Ver a Cidade: Deriva da Luz Vermelha”, do Instituto Tomie Ohtake e apresentou recentemente no Rio de Janeiro o “Grito dos Excluídos”, que fez parte de um desdobramento do seu projeto Artelux, uma série de caixinhas de fósforo. Brunner é um incendiário.


As suas obras são todas políticas. Como surgiu esse modelo?

Alguém da filosofia ou da psicologia podem explicar melhor como algumas pessoas tem uma sensibilidade maior para as questões sociais e políticas. Também sei que a arte é um lugar de privilégio - se hoje eu tô trabalhando com arte, pagando as minhas contas é por conta do meu trabalho. Eu sei que isso é um privilégio porque muitas pessoas gostariam de ser artista e nem sempre essa possibilidade é possível, porque a vida exige muito dela…

Eu pude cursar uma universidade federal, me envolver com o movimento estudantil… Tudo isso foi me acrescentando muito para minha consciência política, entendimento político e da realidade. E era inevitável, acho que sempre foi o meu caminho… Se eu não me ingressasse nesse caminho seria até um mau caratismo, porque tudo que eu estudei, toda a minha formação foi sempre nesse sentido de pensar na sociedade, pensar na democracia, a realidade.


Como foi essa ruptura do jornalismo pela arte? Você sentiu muito?

Dentro do jornalismo meus projetos já eram de arte. O meu projeto final foi uma vídeo instalação em banheiros públicos, discutindo questões de gênero - e isso lá em Uberlândia, em Minas Gerais. Tinha uma pessoa que fazia designer, que hoje ficou super conhecida que é a Pabllo Vittar, e aí juntos, montamos esse projeto em que a pessoa chegava no banheiro e tinha um vídeo rolando dentro do banheiro, explicando. Então, foi uma transição muito suave, já que eu flertava com isso.


Quando você começou a se envolver com arte, você se jogou de cabeça ou teve receio?

É muito interessante ver que as famílias são imponentes nas decisões dos filhos. Na minha família não teve isso, mas da escola que eu estudava teve muito. Eu era um aluno que tinha um bom desempenho e era colégio escolar e eles usariam aquilo como resultado, eu deveria ser aprovado em medicina, direito… Eu senti essa pressão da escola quando pensei em fazer arte pela primeira vez. Foi por isso que eu fui para comunicação.

Eu acabei que percebendo que foi inevitável, que teve uma hora que eu tive que escolher que eu não queria mais me apresentar como jornalista. “Não vou mais procurar trabalho como jornalista, como comunicador, eu vou assumir esse campo cultural como atuação”, eu dizia pra mim mesmo. Teve esse momento de escolha, mas essa transição não foi de um dia para outro.


Em algum momento, você já pensou em desistir? Seja por alguma questão ou pelos outros…

Eu olho muito para a situação dos artistas, situação artística brasileira, e a falta de valorização do artista, a falta de segurança, de direitos segurados, fazem com que muitos passem por perrengues. São Paulo é uma cidade que existe um mínimo de incentivo cultural, mas mesmo assim, eu vejo artistas premiados com 50 anos que não tem dinheiro para o aluguel. Nessas horas eu sempre fico me questionando, “será que eu fiz a escolha certa?”, mas eu não consigo fazer outra coisa, então essa é a minha escolha e eu tenho que bancar isso.

Em 2018, eu senti, durante a campanha eleitoral, que o artista ficou muito associado ao vagabundo. Nessa época, eu fiquei bastante chateado! Não pensei em desistir, isso me deu mais forças para seguir em frente e politizar mais ainda o meu trabalho.

"Tudo é política”, lembro da frase que um amigo me disse há um bom tempo, ainda quando havia democracia no Brasil. Tudo é política! Brunner sabe muito bem disso. Em nossa conversa, ele conta a relação dele com o renascimento da democracia brasileira: após nascer, em 1989, sua mãe foi votar em um presidente democrático. Esse episódio está marcado em sua história.


O projeto Artelux

O fogo representa muito bem o artista.

Após passar um período no Chile, Brunner volta ao Brasil com vontade de incendiar algo.


Ele estava em chamas para se expressar, para mostrar as diferenças e afirmar o seu propósito como artista. Este ano, ele fundou o Fórum Artelux, que tem o intuito de convocar outros artistas para redefinir o papel da arte na política, em quaisquer formas da manifestação artística. O projeto é um símbolo de uma insubordinação incendiária ao momento em que vivemos e caminha para uma queimada que poucos vão sobreviver.


“A arte precisa estar presente no dia a dia das pessoas de forma simples, acessível, mas não menos provocadora. Ao mesmo tempo que propõe uma reflexão política sobre o sistema e seu funcionamento, o projeto Artelux é um disparador para insurgências e transformações internamente ao próprio sistema”, destaca.


Obras provocadoras

Brunner sempre respeitou a arte. Inclusive, demorou muito tempo para ele se apresentar como artista: “Eu me lembro muito de mim, como estudante de jornalismo e fazendo as minhas oficinas nas áreas artísticas… Eu tinha um certo receio de me apresentar como artista no início, porque eu não estava cursando a faculdade de arte, só depois eu fui realmente estudar arte. Em 2017, eu fui selecionado para uma resistência artística na Funarte, que tinha o título de artista residente. A partir desse momento, eu comecei a ter confiança para me apresentar como artista para as pessoas”, relembra.


Foi nessa instituição, e também no mesmo ano, que o artista expôs seu projeto “Estudo Sobre Bananas”, totalmente provocadora. Usando como referência o trabalho de Rodolfo Vanni, que foi exposto na 20° Bienal de São Paulo de 1989, uma banana podre grampeada que representava a sociedade naquele momento, Brunner montou o projeto “Estudo Sobre Bananas”, onde deixou um cacho de banana em uma sala para que as pessoas que passassem por ali a regasse com água, percebendo que nossa sociedade só funciona quando todos trabalham juntos.



Brunner continua queimando. Pensa no futuro, tem receio do que acontecerá com o país, mas não para. Os projetos continuam, assim como a vida e os problemas sociais. Ele não vai parar.


Depois de finalizar a nossa ligação pelo telefone, me senti mais esperançosa. É bom saber que temos grandes artistas brasileiros que lutam constantemente para melhorar a situação suja em que nos encontramos.


Conheça o trabalho de Brunner, acessando seu site.

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