• Michele Costa

Pedro Redó: o camaleão que defende sua ideologia musical

Pedro Redó se descobriu músico na adolescência. Assim como muitas crianças, seu sonho era ser jogador de futebol. Inclusive, fez parte de base, mas desistiu ao ver o desânimo de seu irmão mais velho que jogava com ele. Diferente de muitas famílias (alô, irmãos Gallagher), Pedro sempre se deu bem com seu irmão. Juntos, criaram a canção “Dança de Criança”, música que faz parte de seu setlist.


No começo do ano, antes da pandemia, ele fez um show na galeria Gambalaia Espaço de Artes e Convivência, em Santo André. Seu repertório contou com a música que fez com o irmão, assim como outras de sua autoria e covers. Não pense que o músico cantou o que é mais ouvido hoje em dia, ele toca apenas o que acredita e o que sente. Milton Nascimento e O Clube da Esquina, suas maiores inspirações, também estiveram presentes. Acabei não indo (não lembro o motivo) me arrependo. Então, para me redimir (e apresentar para vocês), solicitei uma entrevista com ele.


Como a música entrou em sua vida? Por que ser músico?

A música entrou na minha vida quando eu era adolescente. Quando criança, queria ser jogador de futebol - até cheguei a jogar em base, e quando eu desanimei daquele sonho, porque meu irmão também era uma pessoa que jogava; ele sempre foi meu referencial… Me desanimei pelo desânimo dele e aí comecei a me envolver com música.

Comecei a estudar canto, depois fui para o violão e fiz aula de baixo. Tenho esse dilema até hoje: até quando a música vai representar a minha vida? Quando fui fazer faculdade, fiz um semestre de ciências sociais, e vi que na época, aquilo não era pra mim - no sentido que eu não lia o que os professores mandavam, perdendo tempo… Então, fui estudar música mais a fundo, de uma maneira mais teórica e foi a partir daí que comecei a fazer alguns trabalhos.

Agora, o porquê de ser músico… Eu ressignifico o tempo todo em minha vida. A pandemia veio em um momento interessante para pensar sobre isso.


Mudou alguma coisa?

Bastante! Antes eu tava mais preocupado em falar que eu era músico e hoje, eu tô mais preocupado em me expressar através da minha música. Estou em uma fase em que penso antes de aceitar um trabalho - se eu não acredito no projeto, não me submeto a fazer.

Hoje, eu vejo a música mais como um canal de comunicação do meu eu interior com as pessoas, do que uma ferramenta para falar que eu sou músico. Agora, tem muito mais a ver com um sentimento de libertação de algumas coisas que está em mim. Hoje, a música está mais no sentido da criação, colocar o Pedro na música, do que enquanto músico.


Em um passado não tão distante, Pedro fez aulas na Fundação das Artes, em São Caetano. Foi de contrabaixo elétrico a canto, aprendendo de tudo um pouco. Enquanto estudava, aprendeu o lado teórico, o tradicional que muitas instituições fazem, não deixando o aluno experimentar novas melodias, acordes e letras. Depois de apresentar o seu projeto - ele fez um recital que misturou São Paulo e Minas Gerais, resultando no Café com Leite -, percebeu que queria ser diferente do que muitos músicos, principalmente daqueles que aceitam o que foi imposto à eles. “Foi nesse momento de descobertas, que vi que não queria fazer o que já foi feito, mas com um ritmo diferente”, ele explica.


Como foi romper com o lado tradicional do conservatório para criar sua própria voz?

Eu acho que foi menos dolorido do que estar na tradição e não se sentir parte dela. Estudei música mais técnica do que teórica… Aí chego em uma instituição que me joga um monte de regras, que foi legal e ajuda na composição, mas ao mesmo tempo cresci meio que tocando. Por ter tocado na Suavemente [sua antiga banda de rock] ou até em outros trabalhos diferentes, chega na hora de se libertar.


Compor suas obras é doloroso?

Quando eu comecei a ir à faculdade, cursinho… a música deixou de ser presente em minha vida. Ela se tornou muito presente na minha individualidade: eu no meu quarto compondo, ouvindo minhas referências. Deixei de partilhar músicas com os outros. Eu me sinto hoje um cantor mais afinado, mas um músico pior. Naquela época, eu tocava baixo todos os dias, hoje toco baixo quando tô com vontade. Reconheço que isso tem a ver com as escolhas que tomei. Eu decidi seguir por uma trajetória mais solitária e que é bom, eu gosto. Lido sozinho com as minhas limitações. Hoje eu consigo ver a música como arte do que um negócio. Eu fico mais feliz em postar uma música e ter 10 likes do que antes, porque se eu fizer algo que não acredito e aceitar, vou ficar incomodado. Tem sido mais fácil por ser um processo solitário.


Aproveitando a palavra solitário que você usou anteriormente, você não se sente sozinho com apenas o seu violão?

Eu me sinto só, mas tem um lance de autodescoberta nesse fazer só. Porque antes, quando eu estava na banda, era meu irmão que compunha as músicas. Eu não tinha essa preocupação, fazia apenas a minha parte. Então, agora, faço de tudo, é um processo de se reeducar musicalmente.


Como é fazer tudo?

No negócio, você tem que gostar de fazer isso. Mas não sei se continuo gostando como gostava, porque tem que organizar as redes sociais, editar vídeo, fazer algumas médias… É cuidar de tudo, mas por um lado é bom porque os músicos de hoje tem mais autonomia.


Em um determinado momento da conversa, Pedro relembrou os projetos que tocou e que não gostou, mas fazia porque precisa de dinheiro. O músico não quer seguir o caminho que muitos artistas fazem: criam uma primeira canção que faz sucesso e depois esquece seus princípios. “O Roger do Ultraje a Rigor mostra como a arte é variável. Ao invés de pensar na música, estou pensando em fazer um todo, seguindo meus princípios”, reflete. É verdade.


Em algum momento, você já se sentiu frustrado com a música ao ponto de querer abandonar?

Sim! O que foi que aconteceu nessa fase, de uma maneira até inconsciente, foi que eu acabei mudando um pouco o formato da música que eu estava compondo. Quando eu comecei a compor pra valer - as primeiras músicas que fiz, nem considero) -, estava experimentando com dificuldade de tirar o eu da música. Depois, quando comecei a ver a música como uma oposição à educação, eu comecei a compor mais música infantil - não literalmente, mas com harmonia mais leves que podem lembrar -, aquela que é interpretada. E agora que comecei a mudar, nem eu entendo as minhas músicas [risos]


Por que você não considera suas primeiras composições?

O exercício de criação foi fraco, com pouca entrega. Outro ponto são as referências. Faltava uma coisa legítima, eu imitava muito o que eu ouvia.


Suas músicas são biográficas? Você tem alguma dificuldade na hora de compor, seja na letra ou melodia?

Tenho muito mais facilidade com a parte musical. Eu costumo fazer uma música a partir da melodia. Pego o violão, dedilho e a partir disso, vou pensando.

Então… tem bastante disso [de mim], mas teve uma época que percebi que tava fazendo muito disso. Então, eu precisava mudar - eu colocava muito a palavra eu nas músicas, mesmo se não fosse eu falando. Mas falo muito sobre mim e algumas coisas que passei.


A pessoa que está de fora, ouvindo sua música, consegue descobrir quem é você?

Acho que mais difícil essa coisa de conhecer esse lado mais profundo. Eu não sou uma pessoa que se expõe muito e meu repertório também não segue uma linha, então, essa questão de conhecer fica subjetivo. As pessoas me conhecem mais pela vivência do que pela obra. Eu tenho fazer música que não crie barreiras por si só.


Então, você já tem um processo de criação, certo?

De certo modo, sim. Eu começo pelo violão e o que estou tentando mudar um pouco, que talvez seja minha maior barreira na composição, é a letra. O meu modo de escrever a letra é muito exigente: quero construir imagens, uma metáfora, um convite ao ouvinte para refletir. Por fazer desse jeito, às vezes, eu deixo um processo muito dolorido. Talvez eu queria dizer uma coisa para fazer com que a galera pense sobre aquilo, o que uma arte bela faz…


Você tá lançando o projeto “#autorretratos”, onde você canta suas músicas e também de outros músicos. Qual o objetivo e por quê esse nome?

Sempre pensei em gravar autorretratos e colocar em algum CD e a cada música ter um desenho diferente - uma ideia maior do que posso realizar hoje. Através disso, reunir músicas que tem a ver com que acredito. Cada música é um auto retrato meu. Quero dividir, sem tanta regra, o que gosto.


Inspirado por Milton Nascimento, Chico Buarque, Beatles, Caetano Veloso e Chad Baker ["Ele nunca foi o mocinho, como era o pessoal da MPB, ele era loucão], Pedro continua com a missão transformando-se, adicionando novos temperos em suas músicas, entregando muito mais do que uma canção, mas uma experiência cheia de sentimentos.


Para conhecer o trabalho do Pedro, conheça seu canal no Youtube.


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