• Michele Costa

Jaider Esbell e suas obras sofrem ataques virtuais e ameaças de destruição

Jaider Esbell incomoda muita gente! Ele foi o primeiro artista indígena a transformar o Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, em uma escultura urbana de duas serpentes infláveis que se encontram no meio do viaduto. O projeto faz parte da 5° Edição do Circuito Urbano de Arte (CURA), realizada entre 22 de setembro a 4 de outubro.


Ao ter adicionado sua obra, inspirada na cultura indígena, Jaider tem sofrido ataques virtuais e ameaças de destruição de internautas, candidatos e fundamentalistas religiosos. Isso mostra, mais uma vez, a intolerância religiosa e a xenofobia de uma classe que não conhece a própria história de seu país. Lembramos também que crime de ódio é crime: a lei 7716/89 abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, resultando pena de 1 a 3 anos, mais multa.


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No xamanismo indígena, as duas serpentes representam um "animal de poder” e está presente como força de cura, regeneração e transformação, com capacidade de “comer as doenças” mais graves que acometem o ser humano (caindo como uma luva sobre a pandemia que estamos passando).


Desde o seu lançamento, o CURA tem o objetivo de ser um festival democrático, antirracista e que colabore ao diálogo de um país tão rico como o nosso. "A proposta sempre foi um festival que seja justo, fora dos padrões, fora do eixo, representativo e cada vez mais aberto às diversas vozes que compõem a sociedade. Para que isso se realize, passamos por diversas situações de enfrentamento ante uma sociedade que, no geral, ainda peca por padrões de comportamento estagnados na construção colonial, estruturada no racismo e no patriarcado. A consequência disso? A arte pode, para muitos, chocar”, defendem as idealizadoras e curadoras do festival, Priscila Amoni, Juliana Flores e Janaína Macruz, endossadas pelas duas curadoras convidadas do CURA 2020, Arissana Pataxó e Domitila de Paulo.


Festival sempre lutou contra intolerância e ataques racistas

Em 2018, a grafiteira Criola pintou o edifício Chiqueto Lopes (Rua São Paulo, 351). Um morador reclamou que não foi consultado sobre a obra, mesmo o regulamento do condomínio dando poderes para o conselho fiscal para autorizar este tipo de ação. Por conta disso, foi feita uma assembleia geral entre os condômino onde todos, com exceção deste morador, votaram a favor da permanência da obra.


O morador entrou com um processo na justiça contra o condomínio, solicitando o imediato apagamento do mural, alegando se tratar de uma obra de “gosto duvidoso”. O mural "Híbrida Astral - Guardiã Brasileira" materializa, por meio da arte, um caminho interno de honra às mulheres e seu sangue sagrado, de honra aos povos originários brasileiros e seus descendentes como legítimos guardiões dos portais da espiritualidade que sustentam o país.


A censura continuou no ano seguinte. Na edição especial no bairro Lagoinha, a artista piauiense Luna Bastos teve sua obra previamente censurada pelo Órbi Conecta, espaço que receberia o mural. A direção do espaço solicitou que a artista retirasse os elementos interpretados como "religiosos - uma vela, um turbante e um terceiro olho”. Lutando contra qualquer tipo de proibição, o festival e a artista não concordaram e procuraram outro espaço que acolhesse a obra. Inspirado na diversidade cultural e práticas de fé da região, um território onde se encontram vários tipos de religiões, cortejos, congados, a pintura foi realizada na Av. Antonio Carlos, 261.

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