A coragem de O Cientista Perdido

Em O Fim de Eddy (Tusquets, 2018), Édouard Louis retorna à própria infância para contar a sua história: a de um menino que cresceu sofrendo diferentes violências em um lugar onde seu corpo e seus desejos não cabiam. Inspirado na escrita do autor francês, O Cientista Perdido também parte da própria trajetória para transformar traumas em canções.
Nada Disso Vai Acontecer (Baita, 2026) percorre o fim de um amor que, antes mesmo de terminar, já carregava a impossibilidade de se realizar como imaginado. Entre expectativas quebradas e sentimentos que insistem em reaparecer, O Cientista Perdido atravessa uma história íntima que também toca questões presentes em muitas vivências LGBTQIAP+: a necessidade de inventar referências para afetos que nem sempre encontram espaço ou linguagem para existir.
A narrativa do disco não segue uma linearidade, ou seja, os sentimentos se misturam e retornam ao longo das 13 faixas. Ao aproximar o pop de referências brasileiras como samba, funk e axé, o artista reconhece que algumas coisas não vão acontecer, certos amores não serão correspondidos e determinadas expectativas precisam chegar ao fim. Mas encerrar um ciclo não significa necessariamente desaparecer com ele. Ao transformar a própria história em música, O Cientista Perdido olha para aquilo que não foi e abre espaço para imaginar outras possibilidades para o que ainda pode ser.
"Nada Disso Vai Acontecer é um disco sobre aquilo que eu imaginei que seria possível e sobre tudo que precisei aprender quando descobri que não era. Eu parto de experiências muito íntimas - amor, desejo, repressão, frustração, memória - mas também de uma sensação que atravessa muitas vivências queer: a de precisar inventar, muitas vezes sozinho, as referências que não estavam disponíveis para mim. Ao longo do disco, eu durmo, sonho, lembro, me decepciono, imponho limites, danço, olho para trás e finalmente caminho para frente."
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A primeira vez que conversei com O Cientista Perdido foi em 2020, durante a pandemia. Nós dois éramos jovens tentando assimilar o tempo que vivíamos enquanto conversávamos sobre "Não Cabe em Você" e seu trabalho. Eu sabia que aquela não era a última vez que conversaríamos, o músico tinha muito ainda a dizer.

Alguns meses depois, retomamos o contato para falar sobre Corpo Infinito (2021). Seguíamos em pandemia, pessimistas diante do mundo, mas ainda encontrávamos motivos para não desistir. O EP fazia, inclusive, um convite a uma fuga às avessas: ignorar o caos lá fora e voltar para dentro. Desde então, seguimos acompanhando o trabalho um do outro, até nos conhecermos no Balaclava Fest de 2022 (eu empolgada com Alvvays, ele com Fleet Foxes). Entre conversas supérfluas e sérias, risadas, fofocas e questões existenciais, pude conhecer Rodrigo Saminêz e perceber o quanto aquela pessoa também estava presente em seu projeto musical.
Ao trocar Brasília por São Paulo, Rodrigo se expandiu. Cercado por amigos, construiu uma família que permanece ao seu lado e, com ela, encontrou espaço para experimentar outras formas de estar no mundo. Ao lado de UMZÉ, desenhou casa, aqui (2024), um lugar seguro para sua comunidade dialogar, questionar e mudar. Mas nem sempre é possível manter um lar inteiro: com o tempo, rachaduras aparecem, algumas paredes precisam cair e certos caminhos deixam de caber. Rodrigo, porém, nunca pareceu disposto a permanecer parado diante delas. Seguir tornou-se uma possibilidade - talvez a única. (Como escreve Édouard Louis: "A fuga era a única possibilidade que se abria para mim, a única que me restava.")
A primeira vez que conversamos, em 2020, durante a pandemia, você se apresentava como o cientista que "te ajuda a fugir do fim do mundo". Esse convite continua o mesmo?
Sim, mas em um contexto tão diferente. Acho que a missão do artista é essa, porque arte é, sempre foi e sempre vai ser, um lugar de escape, de fuga, nem que seja uma fuga indesejada, uma fuga para um lugar que não é confortável. [breve silêncio, olha para o lado esquerdo] Acho que a minha fuga do fim do mundo agora tem endereço, aponta para pessoas específicas - percebi que não consigo abraçar o mundo com as pernas. Não dá para eu achar que a minha mensagem, a minha vivência, não é pra todo mundo, não corresponde a todo mundo, sabe? Eu não vou chegar a todo mundo, então, eu vou falar com quem tem as vivências parecidas com as minhas. Acho que hoje eu percebo que eu consigo conversar de forma mais direta… Quem vai me acompanhar de perto é a galera da minha comunidade, a galera que olha para o trauma numa perspectiva… Ela [a pessoa] percebe que a gente passou por um contexto… O famoso temer core sobre pautas raciais, sobre a comunidade LGBT. A gente passou por tudo isso pra gente tá num abismo - a gente foi de 8 a 80 muito rápido. A gente tá percebendo que ao falar sobre isso, a gente vê o que é resistência de verdade, sabe? Acho que quem vai tá ali, muito próximo, quem vai ouvir Nada Disso Vai Acontecer, se identificar e olhar para aquelas letras e falar "porra, isso aqui sou eu" é uma galera parecida comigo - não necessariamente por marcadores sociais, mas por essa vivência… É um disco muito louco porque ao mesmo tempo que ele é muito específico [mexe as mãos], é muito fácil entender o que ele tá falando e dentro disso, existe uma gama de vivências [estende os braços] muito grande grande e uma gama grande de conexões a serem feitas. É um disco que esmiúça uma subjetividade e que traz uma humanidade que, consequentemente, salva a gente do lugar de trauma, sabe? Agora eu percebo muito melhor como eu ajudo, como que eu e para quem ajudo, sabe? Ajudar é um verbo transitivo indireto, então, eu ajudo e ajudo a alguém - agora eu sei conjugar um pouco melhor esse verbo.
Curioso você usar a palavra salvação. Você encontrou a salvação durante o processo ou com o lançamento do disco? Ou você não encontrou nada?
Amém, igreja. [risos] Como ex-crente, a gente sempre vai ter uma gramática, um vocabulário meio cristão mesmo. [sorri e olha para o lado esquerdo] Percebo agora que essa salvação são os amigos que a gente faz no caminho. [risos] É essa trajetória de não sucumbir, esse movimento de resistência, de parceria, de comunidade. Acho que São Paulo me fez perceber isso porque você precisa disso para sobreviver em São Paulo ou você não consegue existir sem uma rede de apoio. A última vez que a gente conversou, estávamos falando sobre um disco que se chama casa, aqui, né?! Um disco que fala sobre essa vivência de comunidade, esse lugar de paz e tranquilidade, conforto e comodidade que para nós, nós precisamos lutar para ter. Lembro que a gente terminou a conversa falando sobre isso, sobre como a gente fala depois que a gente chega em casa. Por mais clichê que seja, sinto que a salvação tá no coletivo - foi feito por muitas mãos e para muitas pessoas, muito fácil de comentar.
Você traz referências para este disco, mas algumas questões que você está abordando agora, já estavam em "Não Cabe em Você" e "Loop"...
Tanto que "Loop" tá no disco, né? [sorri]
Se pegarmos a repetição no sentido da psicologia é possível ver uma tendência inconsciente. Você já parou pra pensar nessa repetição?
Acho que a gente aprende muita coisa a partir da repetição. A gente aprende os idiomas que falamos durante a repetição: aprendemos a falar, quando pequeno, a partir da repetição. A repetição é um método muito basilar e ancestral. Uma das primeiras coisas que eu queria, quando eu percebi que eu tinha um disco na mão, era que esse disco fosse um disco de mantra. Sempre trabalhei muito com mantras [gesticula com as mãos], você trouxe o exemplo de "Loop", o Corpo no Infinito inteiro tem muitos mantras. Eu acho que a repetição é um sistema muito tradicional e eficaz de aprendizagem. Tanto que o nome do disco aparece em três faixas e todas as vezes com esse mantra repetidamente, nunca é uma frase solta no meio de um verbo - é pra você lembrar e aproveitar esse mantra para cair a ficha. [gesticula com a mão direita] Eu acho que o compositor escreve muito pra desovar um sentimento, pra desovar alguma coisa a partir de um lugar bem terapêutico. A repetição vem como essa ferramenta de aprendizagem, essa tentativa de fazer com que a gente tente entender em conjunto, sabe?
Depois de criar uma fuga em Corpo no Infinito, você criou uma casa com UMZÉ no EP casa, aqui. Mesmo com esse lar seguro e junto de outras pessoas, não foi possível fugir de uma decepção amorosa e suas consequências. Como foi passar por essas diversas questões e chegar hoje nessa pessoa que você é?
É muito curioso ver essa linearidade que você me trouxe agora. Teve uma coisa que aconteceu lá em 2021, teve um lançamento em 2024 e agora o lançamento de 2026, porque isso só existe na discografia, no Spotify, porque não foi assim. A música que eu tenho nesse disco com o UMZÉ, foi escrita antes de todas as músicas de casa, aqui. Boa parte desse disco foi escrito antes de casa, aqui. [sorri] Mas ao mesmo tempo, você não tá errada em perceber que existe uma linearidade porque existe, é um marco. [breve silêncio, respira fundo] Quando a gente percebe as coisas dessa linearidade, a primeira reação que dá é essa que tive, de que essa linearidade não existe, mas ao mesmo tempo, a gente tá arrumando pra frente, a gente tá indo em direção a algum lugar. A gente já abandonou essas versões nossas.
Fazer esse disco foi esse processo de assumir essa casa publicamente que eu construí e ser relembrado todas as vezes - eu tenho na parede do meu quarto todas as capas dos discos que foram gravados, então, eu tenho a capa de um disco que tá falando pra mim sobre os compromissos que eu fiz ali, sabe? Apesar da repetição, eu fiz um disco sobre uma particularidade minha… Eu não falaria sobre isso no Corpo no Infinito e nem no casa, aqui… Jamais, jamais! [gesticula as mãos] Apesar de ter escrito essas coisas naquela época, né. Tem a música "2021" que não é à toa. Eu escrevi "Cair" em 2022, pouco tempo depois de ter feito Corpo no Infinito. Quando você me convida a fazer essa leitura linear, confesso que faço uma leitura muito orgulhosa, no melhor sentido dessa palavra, sabe? Realmente existe uma evolução no sentido de mudança, ver que eu não tô estagnado e até artisticamente, né, porque eu não sou aquela pessoa que lança a mesma coisa sempre.
"O primeiro verso desse disco é "eu faço parte de você". A questão é: como? Por que? Funciona? É uma música de contrastes. A letra veio quase junto com a ideia da capa - uma grande provocação [para] o que você tá vendo ali. O que é fazer parte de uma outra pessoa? Será que estar junto é de fato estar conectado?"
Conseguimos caber dentro de uma pessoa em um cômodo?
Não se a gente for entender isso de uma forma como a gente foi ensinado. Bem clichê essa resposta, mas é verdade. [risos] Tem uma música da Tuyo, “Eu Vejo Futuro”, que fala “eu vejo o futuro / no seu abraço eu tenho / tanto espaço pra ser / não preciso caber.” que segue mais ou menos nessa tese que a gente tá falando aqui… Eu não preciso caber, esse é o ponto. Não falo isso em um lugar que eu sei fazer isso, é um disco muito teórico… Eu consigo existir aqui plenamente dentro desse espaço, desse abraço, é um lugar que eu consigo existir, não caber. A gente é complexo demais pra caber dentro do outro. Quando o cinema propõe fazer isso com Together (Michael Shanks, 2025), é um filme de terror corporal.
Reformulo a questão, fazendo uma provocação: sabemos que não cabemos no outro, mas queremos pertencer ao outro. Quando você tá fechado no quarto, temos a certeza de pertencer ao outro? Queremos pertencer ao outro?
Eu não vejo necessariamente no sentido de pertencimento, mas no sentido de nudez mesmo, no [sentido] emocional e literal. Aqui é o espaço que eu existo! Quem quiser é só dar play, mas aqui é o espaço que eu existo. Acho que é um disco que bota muita fé no fato de que ao existir plenamente, existe conexão. Não é um disco sobre pertencer necessariamente, mas é um disco sobre conexão. É um disco sobre poder explorar uma subjetividade que foi tirada da gente e que foi substituída por uma plasticidade cristã, por um roteiro, por uma existência de dor.
Uma coisa que era muito clara pra mim quando eu escrevi esse disco, eu já sabia que era veado muito antes de me relacionar com alguém. O que vai tá na minha boca quando - agora eu consigo falar - eu quero falar sobre essa subjetividade? O primeiro insight que me vem é esse: muito antes de eu - inclusive, a coragem, de chamar alguém pra sair, de entrar num Tinder ou num Bumble - me permitir viver essas questões, eu já era provocado a minha sexualidade há muito tempo. É um disco que serve pra isso! Tem uma música com a JoJo, “Sono Leve”, que fechou isso porque é uma grande celebração disso. É um momento em que eu falo “quer saber? Toma pra você a culpa que você me entregou, o filho é teu, [manda um beijo pra câmera e sorri] lide com ela.” Se você vai cuidar disso ou não, eu não sei, eu não vou nem tá vendo. Talvez eu entregue ela nas mãos e você [gesticula com as mãos]... É uma liberdade de se deixar leve, sabe? Tirar uma culpa das costas e entregar para o outro, mesmo que isso seja metafórico, mesmo que eu saiba que na realidade isso não aconteceu. A gente tem que existir para além do trauma, para o além do que fizeram com a gente! Se for sobre pertencimento, é sobre o pertencimento que vem a partir de quem quer, de quem tá disposto, de quem tá entendendo, de quem tá somando, sabe? É um disco que começa falando sobre diversos traumas e termina falando de beleza, literalmente. É uma forma também de trazer de volta uma coisa que foi sequestrada da gente que é o nosso senso de beleza, inclusive, de palavras que a gente evita.
Nada Disso Vai Acontecer parte daquilo que você imaginou que seria possível e da descoberta que não era. Foi mais difícil abandonar uma pessoa ou abandonar a narrativa que você havia criado sobre aquela relação?
[gargalha] Deixa eu ligar para a psicóloga. [risos] Com certeza, a expectativa que eu tinha porque muitas das vezes, pra não dizer todas, essa pessoa se resumia a essa expectativa. E é aí que eu falo do cânone: quem nunca? Quem nunca?
Todo ser humano não funciona assim!?! Porque, afinal, é uma paixão, um desejo que nos deixa cego, que nos faz criar expectativas…
Até para além disso, talvez seja aceitar, não só a pessoa que eu amo não me quer - Marília Mendonça já canetou aí de uma forma muito melhor do que eu [gesticula as mãos] -, mas perceber que eu não fui suficiente para essa pessoa. Acho que cair a fichinha em relação a isso é importante também. Não trazendo no lugar de culpa "eu não fui suficiente, então eu preciso fazer x, y, mudar"”, mas ir para um lugar de… Eu não vou ser bom pra todo mundo e isso só mostra que eu sou foda pra caralho, não sou básica. [risos] Perceber essas coisas é perceber que todo mundo que eu gosto, que todo mundo que ouço, que todo mundo que leio tá mais ou menos no mesmo caminho, sabe? É o clichê: quando a gente para de procurar, a gente acha - geralmente essa frase vem num contexto de relações amorosas, afetivas e tal e eu falo nesse contexto também, reforço isso, mas também falo em um contexto individual. Quando a gente para de procurar o porquê da gente não tá fazendo sentido ou o porquê da gente não tá agradando, a gente chega numa conclusão como essa: eu não consegui fazer com que ela ficasse completamente à vontade e quisesse permanecer junto comigo porque eu não sou básica. A gente tá numa comunidade que a gente não tem referencial de amor, de relacionamentos… Então, é natural que quando as coisas começam a ficar complexas, a gente fuja porque o ser humano foge dos problemas. É do ser humano fugir dos problemas, em especial [aponta o dedo para a câmera], quando a gente não tem nenhuma referência de como lidar com esse problema. Eu vou conversar com quem? Eu vou pesquisar onde? Não que não exista esses lugares, mas não é todo mundo que tem tempo de parar pra ler os livros do Renan Quinalha sobre a história da existência LGBT no Brasil pra perceber que o fato de eu ter levado um ghosting, às vezes, tá refletindo séculos de história de um ghosting institucional [gesticula as mãos] de não se ver na política e em quase todos os polos de existência, entendeu? Eu volto ao "eu não sou básica" - não em um tom de arrogância de “eu percebi isso e você não" - [para dizer] isso dói, parece um fardo, sabe?
Te interrompo para fazer uma provocação: quando você percebe que não é o suficiente para o outro, não tem o medo da repetição voltar como um processo que acontecerá sempre? O que você faz quando isso vem?
Aí eu vou voltar na minha publi pra falar. [sorri] Tem uma música no meu disco que se chama "Mais Nada"... Na real, ela é a antepenúltima música do disco e ela é uma música de duas metades bem clara: uma parte onde ela pára e aí eu vou num flow enorme e termina com um outro mantra que é "nenhum amor vai embora de verdade." Essa música é justamente o "tá, e agora?" Quando acabar, quando você deixar de ligar e enquanto eu te explico o que acontece comigo… Se não faz falta pra você, eu não posso fazer mais nada - é se conformar. Aceitar que é assim. Isso só vem dando murro em ponto de faca. Isso só vem se repetindo.
Logo depois dessa música vem "Me Peguei Pensando", um grande flow [gesticula as mãos], ela não se repete em momento algum e termina com "você fica do lado de fora e não entra nunca mais aqui." Acabou! O que acontece depois que acaba? A gente começa a perceber outras belezas, outras coisas que tá na última música do disco "Tão Bonito". A gente repete pra gente perceber os padrões, não repetir esses padrões e encontrar beleza em outras coisas. Como a gente lida com isso? Se negando a ficar no trauma. Volto: não glamourizando isso, unindo com quem já sofreu coisas parecidas com a gente, em recortes diferentes ou não, entendendo os sofrimentos de outras comunidades… Tudo isso não é para ver quem sofre mais, mas pra gente construir juntos uma saída. Eu acho que é a única forma - não só eu encontrei, mas todos os meus amigos já encontraram e que todo mundo que se conecta com esse disco, concorda. Não porque eu sou foda, mas porque eu tô falando do canone. Eu tô falando de uma coisa que todo mundo já viveu. Então, como a gente não fica preso nesse ciclo? Vivendo esse ciclo, interpretando, esmiuçando, colocando uma lupa nesse ciclo, conversando sobre esse ciclo, se vendo como parte de um contexto, porque, se não, você fica pensando que o problema é você. A gente percebe essas questões, única e exclusivamente, quando a gente se coloca em coletivo e em perspectiva - histórica, cultural e social. Assim, percebemos que não estamos sozinhos e que não somos malucos.
Você usa palavras fortes e significativas - tanto no álbum como nessa conversa - para descrever os momentos que viveu. Levando o sentido das palavras utilizadas, você acha que ainda falta vocabulário para falar sobre determinados amores e desejos?
Quando eu me sinto confortável pra virar pra você e vender meu disco da forma como eu vendi, falar “eu sei que eu fiz um disco foda” , é porque eu percebo que ele preenche algumas lacunas. Essa que você falou talvez seja uma das primeiras, é um disco abertamente sobre falta… “Te Sonho de Verdade”, segunda música que a gente soltou desse disco, a segunda estrofe é basicamente [composta] por perguntas: “de onde a gente tira o que é real e o que não é? Quem dá a chancela pra nós dois aqui de pé?” É um disco que assume essas lacunas, óbvio que essas lacunas existem, a gente não tem esse vocabulário… A gente não tem esse vocabulário por conta do nosso recorte social, do corpo que a gente habita, do que a gente procura, do afeto que a gente consegue existir dentro dele. Mas para além disso, eu consigo virar pra você e falar “eu fiz um disco foda” porque eu percebo que o eu-lírico desse disco é muito pouco explorado. O que é o eu-lírico desse disco? O eu-lírico é abertamente gay, abertamente LGBT.
"A gente tinha falado sobre a construção da casa em casa, aqui, agora, a gente fala do que a gente consegue falar dentro do quarto, seja no contexto de chorar as mágoas ou no lugar que ninguém tá te vendo ou na putaria - tudo isso tá dentro desse disco."
O álbum dialoga com artistas e autores. Como aconteceu esse impacto e como foi chegar em Renan Quinalha, Édouard Louis e tantos outros?
Ano passado foi um ano que eu li muito. O que me atraiu, o que me atravessa, justamente no ano passado, foram [livros] que descobri. Ocean Vuong, um autor vietnamita que migrou para os Estados Unidos, fez o livro mais lindo do universo, o Sobre a Terra Somos Belos por um Instante (Rocco, 2021). Vou me repetir aqui: é [sobre] observar, usar essa literatura pra perceber que eu não tô maluco - tem muita gente vivendo o mesmo. A literatura me ajudou muito nesse lugar, perceber que eu não tô sozinho - eu só percebi isso porque eu me expus a vulnerabilidade de outra pessoa.
Há uma relação interessante entre o conteúdo emocional e a produção. Você pensava na sonoridade como uma extensão dos sentimentos narrados ou apareceram durante a produção?
Acho que esse disco é abertamente pop, intencionalmente pop. Acho que o pop é, de novo, o lugar da repetição, do refrão e de um som acessível. Ao mesmo tempo que é um disco muito pop, ele também é um disco muito brasileiro, tem uma coisa que é nossa. A primeira música é um pop [acontece um corte na gravação] e, de repente, ela vira um xote, entra um triângulo e faz sentido, não é gratuito. A estética vem para reforçar a mensagem. É um disco denso que fala sobre traumas… Como a gente consegue falar sobre esse trauma de uma forma palatável e que não perca a identidade? A resposta é quase automática: fazendo um disco pop. Vou para o internacional: fazendo o que a Billie Eilish e a Lorde fizeram; no Brasil, o que a Tuyo faz, o que o Joca faz, o que o Rico Dalasam faz. Porra, o Rico Dalasam consegue por todo mundo pra mexer a bunda em uma música sobre, sei lá, um afeto sem referência, algo que o Rico sempre fala e logo depois colocar todo mundo pra chorar com "Quebrados". O pop tem essa força de sair de "Te Sonho de Verdade" e entrar em "Amor Possível" que era uma coisa que eu queria muito fazer, foi uma coisa muito intencional, um pequeno detalhe, nem é pra ser percebido mesmo; não existe silêncio entre o final de "Te Sonho de Verdade" e "Amor Possível" [gesticula com as mãos], elas são bem conectadas, de propósito - é uma música sobre tesão e outra sobre fim coladas, porque a nossa vida é assim. Delimitando nossa experiência LGBT, ela é assim, as coisas são muito entrocadas. Ao mesmo tempo que eu percebo que eu tô com tesão, percebo que não vai rolar esse tesão. A estética aqui, sonora e visual - nesse caso, principalmente sonora - mistura muita coisa, muita música brasileira e latina, mas com esse popzão gringo. É um disco onde a estética serve pra acolher e pra embalar as temáticas. É justo, né?
"De Novo" traz o sample de "Loop". O que você encontrou naquela canção antiga que ainda precisava ser dita? Como foi dizer constantemente a frase nesse disco?
Eu gosto de fazer referências. O nome dele aparece várias vezes ao longo do disco, tem uma menção em “Cair” e em “Te Sonho de Verdade”, tem riffs - eu vou deixar aberto, quem pegar, pegou -, tem algumas melodias que vão aparecer em várias músicas também… Eu gosto de fazer essas referências, esses links. Eu queria começar esse disco com um aceno para quem tá por aqui desde aquela época, eu queria fazer isso, só que eu não ia fazer isso de graça… Aí me veio a pergunta “o que eu tô dizendo?”, então, isso nasceu de uma vontade, orgulho de artista. Volto até a uma pergunta que você fez mais cedo, sobre como o fugir do fim do mundo tá aqui agora, da mesma forma… Eu acho que eu começo a primeira música do disco com esse aceno para o que veio antes pra falar “você que tá aqui desde aquela época, vem tentar entender o que eu tenho a dizer agora”, pra ser minimamente convidativo, dizer “valeu por acompanhar até aqui” e também dizer “vem ver quem eu sou agora”, sabe? Poder acolher, logo no primeiro segundo, quem tá aqui desde o começo e quem não tá, não vai pegar e não vai fazer diferença. Não estranhem se no próximo disco tiver um sample desse. [risos] Acho até legal pra trazer essa linearidade que você trouxe para falar “tem esse disco, mas tem uma discografia, uma narrativa maior que tá sendo dita”.
A frase que você escolhe pra ser dita constantemente, "todo dia o mundo acaba de novo", é curiosa porque em "Sono Leve" você canta "eu sonho tanto que a realidade assusta". Essa frase segue atual e é afirmativa?
Sim, sim. Ela foi escrita em um contexto pandêmico, lá tinha um sentido… [mexe os ombros e gesticula com a mão direita] E ela foi escrita pra fazer um comentário sobre aquele momento pandêmico, mas também… [breve silêncio, mexe no cabelo] Hoje, quando eu falo que “todo dia o mundo acaba de novo” eu tô mostrando que é… É isso, essa primeira metade do disco é sobre esse lugar de trauma, esse lugar de desilusão e que no fim eu tô falando de um disco que fala sobre o que fazer com essa desilusão. Todo esse ciclo de repetição que você falou, todas essas questões, estão muito presentes nesse verso. É repetido, mas é sampleado, vira outro riff, [gesticula com as mãos] outra coisa. Isso ainda segue atual, acho difícil isso parar de ser atual, infelizmente, mas eu convido a gente olhar pra isso de outra forma.
Após algumas músicas, você expõe o que sente em “//”, um áudio muito forte. Como você se sentiu ao fazer esse zigue-zague e colocar pra fora essa visão tão íntima?
Essa música é a única música… Eu gosto muito de reparar na reação das pessoas nas audições que a gente teve, sabe? É muito legal ficar observando ali. Essa é a única música, nas duas audições que a gente conseguiu fazer, eu tava assim [se encolhe com vergonha] “passa essa, pula essa” [risos] porque aquele áudio é real, aquilo não é uma parada que eu gravei, foi um áudio que eu mandei! Ela tem trinta segundos, sei lá, é ridícula de pequena, mas é uma das únicas que eu não consigo falar muito sobre ainda… Ela é muito clara, tá lá! Ela é o que começa esse lado de aceitação. São frases muito diretas - quero ser visto, validado, interpretado, ouvido, sentido - e o segundo lado do disco mostra como a gente faz isso.
Você se afundou em Corpo no Infinito e, agora, em “Mesmo Rio”, você traz novamente a imagem do afogamento, mas você acha justo caminhar, mostrando que não ficará nesse quadro. Como você viu esse caminhar? Você segue caminhando?
[olha para o lado e depois para baixo, coloca a mão na cabeça e respira fundo] Eu acho que o mar é uma metáfora muito legal na música brasileira, especificamente na música brasileira. A gente entende as coisas muito fáceis dessa forma… [breve silêncio] Consigo pensar diversas músicas, do mais clássico até o mais underground que usam o mar como referência. A gente associa as duas coisas, né? É um produto natural. Quando eu falo desse mar e desse afogamento - é um afogamento lá atrás, aqui não, esse mar aqui é um lugar de vastidão, perceber que eu estou mergulhado nessa pessoa e essa pessoa está mergulhada em mim. Eu vi você no meu mar, vi que você me acessou, você mergulhou em mim e você preferiu ir embora… Então, agora é um momento de ir embora também, encarar essa realidade, me respeitar.
Se Nada Disso Vai Acontecer é sobre aquilo que precisou morrer, o que nasceu após o lançamento do disco?
A gente vai descobrir no próximo… [gargalha] Eu não sei… Acho que nasce essa versão mais leve, mais madura, mais adulta de lidar com as coisas. Acho legal perceber como que esse mantra “nada disso vai acontecer” vai mudando ao longo do disco, ele aparece em “Mesmo Lugar” que nasce de um lugar com muita raiva, depois aparece em “Amor Possível” que é um lugar de conformismo do não amor, da rejeição, do não lugar e tal. Depois, ela volta em “Mesmo Rio” que é uma música também de conformismo, mas de um conformismo com uma paz, de tirar o peso. Eu queria que a última coisa que fosse ouvida nesse disco fosse esse riff do “nada disso vai acontecer”, ele ia aparecer bem no finalzinho [mexe as mãos enquanto explica] de “Tão Bonito”. Só que eu falei “isso tá tão claro sobre essa mudança que ele tem”, eu gosto dessa mudança e seria bem gratuito colocar isso no final de “Tão Bonito”. Acho que o disco traz essa resposta, né? Nada Disso Vai Acontecer, de início, é uma raiva, depois é uma desilusão e ele é uma leveza em “Mesmo Rio”, uma leveza muito difícil, muito feia [sorri] que só vai ficar minimamente bela mais pra frente… Então, Nada Disso Vai Acontecer é esse trajeto, esse caminho.
Esse nome, Nada Disso Vai Acontecer, veio quando eu percebi que eu tava falando sobre essas coisas, esses temas, não escrevi ele como verso - o nome do disco já era esse muito antes dele estar nas músicas. Aí eu comecei a brincar [estala os dedos], “isso cabe aqui”, “isso aqui…” Eu [pensei] “será que não cabe em outros lugares?” [gesticula os braços] Eu testei isso em versões… Tem uma versão de “Cair” que tem o “nada disso vai acontecer”, tem versões de outras músicas que tem esse mesmo riff, essa mesma repetição. Mas eu percebi que nessas três [músicas], posicionando em lugares estratégicos - uma é o começo, outra é o meio e outra é o final do disco - e observar nessa trajetória mostra o que vai acontecer é a trajetória ou o que pouco importa com o que vem depois, o que importa é que houve uma mudança. A gente vai descobrir o que vem depois, depois, o que é assustador também… [olha pra cima e fica brevemente em silêncio] É um disco que fala sobre não amor, mas eu não tô mais no lugar do não amor, se é que você me entende [sorri] e é tão assustador quanto.
Hoje, ao olhar para o caminho percorrido, existe algo diferente em sua voz. O Cientista Perdido já não parece apenas tentar entender quem é; ele consegue dizer isso em voz alta. Nada Disso Vai Acontecer nasce justamente desse movimento: reconhecer o que doeu, aceitar aquilo que não foi possível e compreender que algumas expectativas precisam morrer para que outras possam existir. Crescer, nesse caso, não significa deixar de sentir, mas aprender a nomear o que se sente e, principalmente, ter coragem de dizer.
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