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Vallada encontra em Umami o sabor de continuar

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 11 horas
  • 6 min de leitura

Há sabores que chegam e vão embora, enquanto outros permanecem. O umami é assim: o quinto gosto básico do paladar humano, difícil de definir, mas fácil de reconhecer quando aparece. Está na sensação de algo saboroso, complexo, que permanece na boca. Para Vallada - antes conhecido como Arthur Valladão -, esse gosto também ajuda a explicar a experiência de viver de música. Há prazer, mas também ansiedade; confiança, mas insegurança; o desejo de alcançar novos espaços, sem deixar pelo caminho aquilo que faz sua música ser sua. É dessa mistura que nasce Umami (2026), primeiro álbum do músico carioca.


Mais do que um disco sobre fazer música, Umami acompanha o momento em que o sonho precisa encontrar a realidade. O tempo, o mercado, as dúvidas e a vontade de ser visto passam a fazer parte do percurso. Produzido por Jader Marques, o álbum reúne oito faixas, entre elas "Alto Mar", "Muito Prazer" e "No Varal", e constrói a trajetória de um personagem que atravessa frustrações, encontros e reconciliações consigo mesmo.


Ao longo do álbum, Vallada olha para os bastidores da cena cultural, para o desejo de viver de arte e para as inseguranças que acompanham quem tenta encontrar seu espaço. As canções também revelam uma relação mais íntima com a própria criação, como se fazer música fosse, ao mesmo tempo, uma escolha e uma forma de entender a si mesmo.


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Em que momento você percebeu que fazer música poderia ser mais do que uma vontade e se tornar um caminho de vida? 

Eu acho que eu percebi que poderia se tornar um caminho de vida quando eu conheci bandas, artistas independentes que tavam aí pelo Brasil defendendo sua arte e lutando para sobreviverem como artista. Eu fui muito inspirado por essas figuras da cena da música alternativa brasileira. 


Umami é definido como uma busca pela própria confiança, identidade e pelo próprio som. Após lançar o disco, pode-se dizer que você encontrou o que buscava? 

Eu acho que eu encontrei o que eu buscava e o disco é esse resultado, né. Eu acho que, tal como uma pesquisa, a própria trajetória é, em si, a resposta que a gente tava buscando. 


O álbum nasceu a partir de dúvidas sobre pertencer, insistir e viver de música. Por que você achou importante transformar essas questões em canções? 

Eu não acho que, conscientemente, achei importante transformar essas questões em canções... Mais do que isso, eu acho na época em que eu me propus a fazer o disco essas eram as questões que tavam mais latentes pra mim, sabe? A sobrevivência na música e como esse olhar é diferente pra cada pessoa nesse meio, dependendo da sua posição e de seus privilégios - ou da ausência deles, né? 


vallada umami
(Créditos: Eduarda Schwerdt)

Existe humor ao falar de insegurança, frustração e ansiedade. O humor foi uma maneira de sobreviver às dificuldades da carreira e enxergá-la com mais lucidez? 

Eu acho que o humor sempre fez parte da minha linha de escrita, de composição... Eu gosto de provocar isso no ouvinte e acho que falar de frustração, insegurança e ansiedade de forma bem humorada é capaz de trazer até um conforto para o ouvinte, né, uma identificação que gera um conforto, uma simpatia. 


O disco fala sobre ocupar espaços. Qual é o espaço que você procura? 

Essa pergunta sobre o espaço não estava respondida quando esse disco começou a ser feito. Eu acho que o espaço que eu procuro é o espaço de uma música brasileira desprendida de formatos pré-estabelecidos, sabe? Eu acho que o espaço que eu procuro é  o espaço da inovação, da experimentação, do limite entre o velho e o novo... Falando sobre música autoral, isso sempre vai ser uma luta no Brasil, né? É por isso que Umami é um disco que responde também sobre o espaço que eu procuro ocupar. 


Em "Vendaval" você diz que acabou a munição. Em algum momento da sua trajetória, você sentiu que ficou sem forças, ideias ou até argumentos para continuar insistindo na música? Se sim, o que te faz carregar novamente para retornar ao eixo?

Com certeza. Uma das coisas que mais acontece na trajetória de um músico é sentir que falta forças, ideias, argumentos e fôlego de forma geral. No meu caso, a vida sempre deu um jeito de me fazer enxergar de novo o meu ofício com brilho nos olhos, sabe? Eu não sei explicar direito o que me fez carregar novamente as energias, voltar pro eixo, mas esse eixo parece mais um eixo gravitacional, a gente sempre retorna a ele invariavelmente. 

 

Logo em seguida, na mesma música, você diz que "é para vocês, é tudo para vocês". Essa sentença desloca o centro da criação para o outro, ou seja, quem está ouvindo. Em que momento você percebeu que a música deixa de ser apenas sua e passa a carregar interpretações e afetos de quem a escuta? 

Desde o meu primeiro lançamento em 2019, eu entendi que nesse processo de publicar e entregar música ao mundo, [mostra] que ela deixa de ser apenas sua, apenas do artista, e passa a ter vários sentidos atribuídos, memórias e afetos relacionados ao ouvinte. Isso é maravilhoso pra mim, sempre foi o principal motivador depois que eu pude publicar a minha arte, sabe? Eu sinto que o olhar do outro sempre foi engrandecedor e motivador deste trabalho, é algo que me faz querer sempre continuar esse diálogo, essa influência, essa conversa com o público. 


Em "Muito Prazer" você aponta que segue na peleja. Essa afirmação parece condensar uma ideia muito presente em Umami: continuar mesmo quando não há garantia de chegada. O que faz você permanecer nessa batalha quando ainda não sabe se ela vai levar a algum lugar? 

O que a gente precisa fazer quando a gente não sabe ainda se ainda vai chegar em algum lugar, é fazer, é produzir, então, eu acho que é importante a gente fortalecer na coletividade, formar equipes criativas, ter pessoas com que a gente possa contar pra levantar renda pra colocar projetos pra frente. São os trabalhos que a gente pode fazer hoje por nós, sabe? São as possibilidades que a gente tem colocado na mesa. 


Se a dipirona é o remédio para aquilo que existe por trás do jazz, como canta em "Sarau de Bacana", qual foi o seu "remédio" durante os momentos mais difíceis dessa trajetória? 

Acho que a composição e os amigos sempre foram remédios. O que eu pude fazer nessa época foi conversar com os meus colegas, com pessoas próximas que eu amo, que eu confio, escrever músicas, falar sobre e também escrever músicas com esses amigos... A gente transforma isso em nossa terapia coletiva e acaba que a expressão cultural resolve os anseios que antes estavam só no peito, sabe? Acho que o remédio, muito melhor do que o dipirona, sempre vai ser a amizade e nossa arte. 


Você traz o passado em “No Varal” que pode ser interpretado de diferentes maneiras. Tendo isso em mente, você precisou olhar para trás para trilhar/criar seu caminho? 

Eu acho que esse olhar ao passado em "No Varal" é um olhar para o Vallada no começo do álbum que é muito mais inconformado e frustrado do que qualquer coisa. Então, tem ali uma ressaca moral de pensar "talvez eu tenha despejado isso nos outros", sabe? Talvez eu tenha projetado em certas pessoas aquilo que me frustra. 


Depois de procurar o próprio umami, qual é o sabor que ficou na boca quando você terminou o disco? 

Olha, eu acho que o sabor que fica é de comer uma refeição que foi você mesmo que cozinhou, sabe? Ter o prazer de ter se alimentado, mas tem também o prazer de ter provido o próprio alimento, sabe? Elaborado aquilo fase por fase, construído os sabores - eu acho que o gosto que fica é esse, de certa forma, é um orgulho. Eu tô muito feliz de ter lançado o álbum, foi muito tempo e muita dedicação para ver esse trabalho na pista e, finalmente, poder mostrar ao mundo o que eu tinha guardado. É uma sensação de prazer enorme.



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