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Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 23 horas
  • 3 min de leitura

Sentimentos são contraditórios. Às vezes, a alegria carrega uma ponta de tristeza; em outras, a melancolia encontra espaço para dançar, enquanto a raiva se transforma em uma grande ironia da vida. A partir dessas transformações - profundamente humanas e legítimas -, a Exclusive Os Cabides dá forma à inquietação em Feliz e Triste ao Mesmo Tempo (2026).


Depois de um ano percorrendo estradas e levando Coisas Estranhas (2024) a diferentes cidades do país, o quinteto retornou ao estúdio carregando o impulso das viagens, dos encontros e das apresentações. A experiência de mais de 40 shows parece ter deixado marcas na música: as canções soam mais diretas, cruas e urgentes, como se ainda preservassem o calor das luzes do palco e a agitação do público. Não por acaso, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo nasce do desejo de criar um repertório capaz de colocar as pessoas para dançar e, ao mesmo tempo, de registrar a identidade da banda em seu estado mais espontâneo.


Gravado em apenas oito dias no estúdio ouié, na Praia da Armação, em Florianópolis, o EP carrega um pouco da paisagem que o cerca. Há estrada, mas também há mar; existe velocidade, mas também espaço para contemplação. Produzido por Paulo Costa Franco e Eduardo Possa, o trabalho privilegia a força da formação ao vivo, sustentada por guitarras, baixo, bateria, percussões e vozes que se aproximam até quase se confundirem. Em vez de revestir as músicas com excessos, a produção parece retirar camadas para revelar o que já existia no núcleo da banda: uma sonoridade pulsante, imperfeita e viva.


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(Créditos: Divulgação/Reprodução)

“Bicicleta” abre o EP e apresenta imediatamente essa disposição. As guitarras avançam com urgência, enquanto a letra transforma um elemento cotidiano em ponto de partida para uma narrativa que escapa da lógica convencional. Aliás, essa é uma característica que acompanha a Exclusive Os Cabides desde os primeiros trabalhos: observar o banal e encontrar nele uma dimensão estranha, divertida ou afetiva. Nas mãos do grupo, uma bicicleta deixa de ser apenas um objeto; torna-se imagem, movimento e possibilidade de fuga. O cotidiano está presente em toda a narrativa do disco, mas as pequenas situações escondem sentimentos maiores e, consequentemente, mais complexos.


“Espirros Infinitos” transforma uma crise de rinite em uma canção marcada pelo humor e pelo desconforto, expondo uma inquietação difícil de nomear. Já “Gato Chinês” reforça o universo particular da banda, no qual imagens inesperadas e melodias imediatas se encontram em uma atmosfera roqueira mais densa. É justamente nessa tensão que reside a força do trabalho. O título não funciona apenas como uma definição emocional, mas como uma chave para compreender o conjunto. As canções alternam leveza e angústia, diversão e vulnerabilidade, sem transformar essas contradições em conflito.


No encerramento de Feliz e Triste ao Mesmo Tempo, “Notlin vs. Smellectron” abandona as palavras e entrega à música a tarefa de concluir a experiência. A faixa instrumental surge como uma explosão de guitarras, ruídos e liberdade, quase uma extensão dos momentos de improviso e descontração que nascem nos ensaios. Depois de tantas imagens, dúvidas e sentimentos contraditórios, a Exclusive Os Cabides encerra o EP fazendo barulho e celebrando as vivências e as consequências que surgem delas.


Ao apresentar uma nova fase, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo revela uma banda cada vez mais consciente de sua própria linguagem. A Exclusive Os Cabides mantém o humor, o imaginário lúdico e as letras que encontram poesia nas situações mais comuns, mas agora coloca o instrumental em primeiro plano e deixa a energia do palco conduzir as canções. O resultado é um trabalho mais roqueiro, intenso e direto, sem perder a estranheza que tornou o grupo reconhecível.



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