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As meias verdades de Estéreo Boutique

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 10 horas
  • 8 min de leitura

Ainda faz sentido falar sobre verdade absoluta? Aliás, existe uma verdade absoluta? Para Estéreo Boutique não. Em meias verdades (2026), o grupo faz uma provocação direta a um tempo em que tudo parece precisar de resposta rápida - mesmo quando essas respostas são incompletas. Ao assumir o fragmento no debut, a banda sugere que talvez a verdade não seja algo inteiro, mas algo atravessado por diferentes perspectivas. 


meias verdades estéreo boutique
(Créditos: Marina Letizia)

Formado em 2023 por Brunno Bari, Gabriel Buchmann e Raphael Perez, a Estéreo Boutique se insere na cena independente com uma proposta que atravessa tanto o pensamento quanto a forma. Influenciada por vertentes do rock alternativo e por atmosferas mais etéreas, a banda constrói uma identidade sonora que dialoga diretamente com o conceito que sustenta o EP. Há, nas músicas, um jogo constante entre presença e ausência, densidade e leveza, como se cada elemento estivesse em negociação com o outro, mas recusando resoluções fáceis. 


"Queríamos que o trabalho fosse coerente, mas também abrangente, então o repertório de meias verdades se formou como cinco universos distintos, mas que carregam elementos em comum. A prioridade para nós quanto ao resultado é simples: o que acontece quando fazemos música juntos?", explica a banda. 


Ao tensionar a ideia de verdade absoluta, meias verdades também se aproxima - e, ao mesmo tempo, se diferencia - do debate sobre a pós-verdade. Se esta aponta para um cenário em que fatos são frequentemente distorcidos em favor de narrativas convenientes, o EP parece operar em outra chave: a da consciência de que toda percepção é, inevitavelmente, parcial. Não se trata de manipulação, mas de limite. Nesse sentido, a banda desloca a discussão para um território mais sensível, onde a dúvida não é um problema.


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O título do EP faz uma crítica à verdade absoluta. Como a ideia surgiu e qual é a mensagem que vocês querem transmitir com meias verdades? 

Bruno: Gabriel, como nosso compositor, acho que pode elaborar melhor porque nasceu de uma letra dele, né? 

Gabriel: Então, o verso na canção veio enquanto a gente tava pensando em possíveis nomes para o EP. Eu também busco olhar com outro olhar para as próprias letras para tentar encontrar alguma coisa, às vezes, você capta alguma coisa. E eu vi meias verdades e estava muito dentro de algumas discussões que a gente estava tendo ali, conversando sobre o estado da cultura, o estado da arte, o estado das comunicações, enfim. Não é só de música que a gente conversa. [risos] E para mim, me chama muita atenção ainda a maneira como o público vem consumindo cultura e eu comecei a perceber mais e mais, principalmente falando de mainstream, a personificação das composições mesmo, né? Acho que sempre os compositores puxaram de experiências pessoais, mas mais do que nunca as pessoas estão atribuindo aquela experiência daquele indivíduo e não o quanto elas se espelham nisso. Eu acho que é menos sobre a aplicabilidade da letra e sim a fofoca - "Ah, essa música é sobre essa pessoa e sobre isso aqui."

Bruno: Pode dar o exemplo principal? [sorri]

Gabriel: O exemplo é a grande Taylor Swift. Acho que ela é uma das pessoas que mais chama atenção, mas eu acabei vendo outros artistas, outras pessoas aplicando isso para outros artistas. Eu acho que o compositor, assim como o autor, é um veículo de uma ideia que você pode escutar e você pode interpretar de uma maneira completamente diferente da maneira que eu interpreto. Logo, é uma meia verdade, né? O que eu escrevi, ou qualquer outro compositor, acho que não se aplica só a mim, pode ser uma experiência muito literal que eu tive, pode ser uma experiência que eu tô aumentando, que eu tô diminuindo, eu posso estar só inventando ela. Eu acho que é também muito divertido o autor simplesmente inventar, no fundo a gente tá contando histórias, né? Eu acho que tem muito desse viés, assim.

Bruno: É bem isso. Acho que também é isso, de valorizar um pouco a subjetividade, porque parece que o mundo contemporâneo que a gente vive, as pessoas tentam levar tudo ao pé da letra, tudo muito literal, que é basicamente daí que vem essa tensão da letra, que acabou virando o nome do EP, né. 

Gabriel: Acho que é isso. Você meio que lembra dessa pluralidade de jeitos de consumir/enxergar/interpretar. A gente gosta muito da Joni Mitchell e ela tem uma frase muito legal, ela fala "se você escuta a minha canção e você se enxerga, eu fiz meu trabalho". Acho que pra gente isso que é legal, mas ao mesmo tempo a gente tem visto a arte como coisas que inspiram no geral. Acho que o trabalho da arte, quando bem feito, é você ser inspirado por isso. 

Vocês também querem inspirar outras pessoas? 

Gabriel: Eu acho que é sempre muito legal. Já aconteceu de [pessoas irem] aos nossos shows e falar "pô, fiquei com vontade de sair e fazer uma música". É fácil, não é difícil. A gente não é tão bom nisso. Eu acho que vem muito dessa vontade de deixar esse caminho aberto, de você conseguir escutar, consumir isso e o que você interpretar está valendo.


Sabendo que verdades ou não verdades, meias verdades ou meias mentiras, podem ser consumidas de diversas maneiras, o que chama mais atenção para vocês se apresentarem utilizando a música? Por que através da arte e não de outra maneira? 

Bruno: Vou falar por mim, o Bibs pode discordar, mas a música é um negócio que a gente meio que… Não vejo que eu tenha muita opção, sempre foi uma coisa que sempre fez parte de mim, sempre tive essa vontade simples de produzir e pôr pra fora. Isso eu sei que sempre vou continuar fazendo, então, sei lá, acho que até poderia ter outros jeitos, mas eu não tive muita opção, não sei você, Bibs. 

Gabriel: Eu acho que para mim a música foi sempre muito natural. Acho que tem, eu gosto de outros meios artísticos, mas música é realmente o que pelo menos nós três temos com grande facilidade aí na vida.


Tendo em mente o conceito, vocês acreditam que a música pode ajudar as pessoas a questionarem suas próprias verdades? 

Bruno: Com certeza!  Aí é a graça, né? 

Mas aí o que é verdade? 

Gabriel: Eu acho que não tem muita verdade. [risos] Eu acho que vai partir muito desse ponto assim de aquilo que te toca. Você pode escutar uma coisa, ser comovido por isso ou não e está tudo certo. Eu acho que tem muita gente que consome buscando essa coisa mais visceral e tem gente que só busca por prazer mesmo. Tem gente que não presta atenção na letra, tem gente que presta atenção…


meias verdades estéreo boutique
(Créditos: Marina Letizia)

Como foi o processo de criação e produção do EP e como está a expectativa de lançamento?  

Bruno: A gente tem a sorte de ter um espaço para produzir bastante - a casa do Gabriel, ele tem um home studio que nos serve muito bem. Acho que, basicamente, todas as músicas nasceram lá de algum jeito, seja de jams ou algo instrumental, ideia inicial, e a gente conseguiu evoluir a partir disso. A gente tá bem animado para finalmente pôr no mundo, apesar de você achar que foi meio rápido, pra gente, tá aí há muito tempo… 

Gabriel: É, a gente já tá [gesticula a mão] próximo, próximo. Thank u, next. [referência a música de Ariana Grande] 

Bruno: É, já tamo nessa. Eu já tô pensando nas próximas, já tem umas coisas andando aí… 

Gabriel: Já tem bastante coisa. 


(Gabriel e Bruno falam sobre o processo de criação das faixas)

Vocês trazem alguns temas, através de palavras específicas, que o ouvinte consegue enxergar ali. Como elas surgem, é a partir de vivências e de observações? Sabendo que não se pode confiar no narrador… 

Bruno: O departamento lírico aqui é do Gabriel, que é o nosso jornalista. 

Gabriel: Eu tenho o hábito de escrever todos os dias, é realmente um hábito que eu criei e não tem uma regra. Então, tem coisas que saem muito naturalmente, outras vezes eu tô tentando encaixar… Eu e o Bruno, a gente já fez isso algumas vezes, ter desenhado uma melodia e saber que tem uma palavra que precisa estar ali - e aí eu acabo escrevendo o resto a partir dessa palavra ou eu vou juntando como um quebra-cabeças, eu vou pegando diferentes versos que gosto e vou tentando fazer sentido ao ligar eles. Não tem muita regra. 

Por falar em quebra-cabeças, o conceito de meias verdades está presente em todas as faixas? Eu realmente tenho essa dúvida, porque em algumas faixas há muito sobre e em outras nem tanto… 

Bruno: Acho que a graça do conceito. 

Gabriel: A gente pode ir embora e pegar barbante vermelho e ficar ligando os pontos horas e horas [gesticula as mãos ao ligar os pontos]


"Depois de muito discutirmos possibilidades de nome para o EP chegamos em meias verdades por sentirmos que atualmente muito se fala sobre os significados da arte, e não na aplicabilidade daquilo que consumimos. Mesmo dentro da banda temos divergências sobre os significados e sentimentos de cada faixa, abraçando a falta dessa verdade absoluta."

Culpa, saudade, tempo e lembrança são alguns símbolos que estão presentes nas faixas. Por que as utilizaram? Essas denominações fazem parte de meias verdades ou fazem parte da verdade que cada um carrega dentro de si?

Gabriel: Olha, eu nunca cheguei a pensar nisso. Isso aí já tá muito pra além do meu departamento e dos meus superiores. Mas acho que fazem parte de temas recorrentes no discurso atual, fazem parte da própria condição humana. Acho que são coisas que as pessoas escrevem sobre isso desde que o mundo é mundo e acho que a gente acaba só fazendo parte desse coro. Acho que é algo que eu já cheguei a conscientemente estar pensando em abordar. 

Quando você escreve você não pensa naquilo, né? Não é algo consciente, vai muito mais no inconsciente. 

Gabriel: Uhum. 

Mas o inconsciente sempre quer dizer algo. O que você quer dizer? 

Gabriel: Aí você tem que falar com minha analista, ela vai ter muita ideia sobre isso.


Em "Nada além de mim" vocês dizem que têm medo de falhar, mas conseguem ver um novo azul. É interessante essa ideia porque hoje existe um discurso que não é aceitável falhar. Dito isso, como seguir adiante e enxergar um novo lugar? 

[breve silêncio] Gabriel: Peraí, tem que dar uma pensada aqui. [olha pra baixo] Acho que hoje em dia, como você falou, com as redes sociais, abriu essa possibilidade de você ser. Hoje em dia, todo mundo pode colocar na bio do seu Instagram que ela é n coisas e é um jeito muito diferente que nós nos tratamos hoje em dia. Você pode dizer, você pode performar - como você falou - no Instagram e isso é o supra sumo da sua personalidade e é o que eu enxergo como o objetivo da rede social, mas acho que, no final, ninguém é assim - ninguém é tão raso assim. Tem essa dificuldade, mas ao mesmo tempo, não adianta só você se limitar ali, é sempre interessante dialogar, trazer algo, um ponto de vista diferente - tem coisas que não tem diálogo mesmo, né? - e isso acaba acontecendo bastante na Estéreo Boutique: a gente sempre tenta buscar o caminho do meio. 


Em "Tino" vocês não sabem se querem falar, mas querem entender, mas é ambíguo por conta da criação de meias verdades. Com a finalização do disco, vocês chegaram a alguma conclusão sobre alguma coisa?

Gabriel: Fazer música é legal pra caramba, fazer música junto é muito bacana… 

Bruno: A gente já sabia disso, mas só reforçou. 

Gabriel: Acho que essa ambiguidade não necessariamente trabalhada pode ser muito divertida. Você não saber é um estado de espírito relativamente saudável também. É mais sobre esses sentimentos que não necessariamente você consegue concretizar em palavras que eu acho muito bacana. Voltando um pouco para o processo de gravação, a gente sempre, dentro do estúdio, utiliza expressões sem pé e nem cabeça pra tentar veicular algum sentimento, alguma coisa…. 



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