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Hua Hsu: Stay True: Relato de uma Amizade

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Como uma breve amizade, com pouco tempo de convivência, pode deixar marcas profundas em uma pessoa? Em Stay True: Relato de uma Amizade (WMF Martins Fontes, 2024), Hua Hsu retorna aos anos de graduação para investigar essa pergunta complexa - não em busca de uma resposta definitiva, mas para compreender como alguém que esteve presente por um período tão curto pode continuar atravessando uma vida inteira.


Quando conhece Ken, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Hsu não imagina que aquela aproximação se transformaria em uma amizade capaz de alterar sua maneira de enxergar o mundo e a si mesmo. O narrador é introspectivo, ligado à cultura alternativa e às referências que, para ele, funcionam quase como uma declaração de identidade. Enquanto Ken, mais extrovertido e sociável, participa de uma fraternidade, veste-se de forma convencional e demonstra interesse por universos culturais que o narrador, inicialmente, observa com certo distanciamento.


A relação entre os dois, portanto, não nasce da identificação imediata. Ela se constrói no atrito, na curiosidade e na descoberta de que as pessoas são sempre mais complexas do que as imagens que projetamos sobre elas. Aos poucos, conversas sobre música, cinema, pertencimento e identidade aproximam os jovens. O que parecia ser apenas uma convivência improvável transforma-se em um vínculo marcado pela escuta, pela troca e pela possibilidade de rever certezas.


"Naquela idade, o tempo passa devagar. Estamos ansiosos para que algo aconteça e ficamos matando o tempo nos estacionamentos, as mãos enfiadas no fundo do bolso, decidindo aonde ir. A vida estava acontecendo em outro lugar, era só uma questão de encontrar um mapa que levasse até ela."

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É justamente nessa transformação que Stay True: Relato de uma Amizade encontra parte de sua força. O livro não apresenta a amizade como uma relação idealizada, construída apenas por afinidades ou momentos extraordinários, é muito mais profundo - Hsu se volta para os detalhes: as conversas prolongadas, os passeios, as músicas compartilhadas, as brincadeiras e os instantes aparentemente banais que, depois da perda, passam a carregar outro significado. A memória reorganiza o cotidiano e revela que, muitas vezes, são os acontecimentos mais simples que permanecem por mais tempo.


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A narrativa, porém, é atravessada por uma ausência irreparável. Ken é assassinado durante um roubo de carro, e sua morte interrompe não apenas uma amizade, mas também a sensação de futuro que acompanha a juventude. O acontecimento divide a vida do narrador entre o que existia antes e aquilo que passou a existir depois. Em vez de escrever apenas sobre a perda e os sentimentos que vão aparecendo, ele escolhe recuperar a vida: quem Ken era, como se relacionava com os outros e quais marcas deixou em quem permaneceu.


Essa escolha impede que Ken seja reduzido (apenas) à condição de vítima. Ao reconstruí-lo por meio das lembranças, Hua Hsu devolve ao amigo sua complexidade. Dessa maneira, Ken surge como alguém curioso, generoso, inquieto e disposto a atravessar as barreiras que separavam os dois. Ao mesmo tempo, o narrador reconhece os limites da própria memória. Como contar a história de alguém que não está mais presente para discordar, complementar ou corrigir aquilo que é lembrado? A escrita passa a ocupar esse espaço delicado entre a preservação e a impossibilidade.


Sem recorrer ao sentimentalismo excessivo, o autor constrói uma narrativa íntima, reflexiva e melancólica. A emoção não surge apenas nos momentos de ruptura, mas se acumula lentamente, entre referências culturais, recordações fragmentadas e reflexões sobre a passagem do tempo. A música, os filmes, os fanzines e os discos ajudam a reconstruir o ambiente dos anos 1990, mas também revelam como os jovens buscavam, na cultura, maneiras de compreender quem eram e onde poderiam pertencer.


"(…) Para jovem, ser idealista e se sentir desamparado é ao mesmo tempo normal e necessário para progresso de sociedade. Mas problema é que a vida existe e tem que continuar. Cada geração tem que enfrentar problema, seguir vivendo e dar o seu melhor para superar frustração. (…)"

Nesse sentido, Stay True: Relato de uma Amizade é também um relato sobre identidade. Filho de imigrantes taiwaneses, o crítico cultural da revista The New Yorker cresceu entre diferentes referências culturais e carregou, durante a juventude, a sensação de não pertencer completamente a um único lugar. A amizade com Ken, igualmente asiático-americano, amplia essas questões. Os dois compartilham experiências, mas não vivem a própria identidade da mesma forma. O livro evita transformar essa condição em uma explicação única e mostra como pertencimento, raça, cultura e classe se manifestam de maneiras distintas em cada trajetória.


Ao revisitar o passado, Hsu também revisita a pessoa que foi. O narrador mais velho - o livro foi escrito durante duas décadas - observa o jovem que acreditava conhecer a si mesmo por meio de seus gostos, escolhas e referências, porém a convivência com Ken desestabiliza essa construção. A amizade revela que permanecer fiel a si não significa conservar intactas as próprias convicções. Às vezes, ser verdadeiro exige mudar, abandonar julgamentos e aceitar que o outro pode revelar aspectos de nós mesmos que ainda não conhecemos.


"(…) O que tínhamos aprendido nas aulas de retórica, sobre a noção de “suspensão do significado” de Derrida, é que as palavras são meros símbolos que nunca traduzem plenamente o que queremos dizer. No entanto, as palavras são tudo o que temos; elas nos aproximam ao mesmo tempo que nos afastam."

Ao escrever sua história, o autor não tenta superar a perda nem encontrar uma explicação capaz de tornar a morte menos dolorosa. A literatura surge como uma forma de convivência com a ausência. Escrever sobre o amigo é aceitar que ele não voltará e, ao mesmo tempo, impedir que desapareça por completo. É sobre mantê-lo vivo e honrar sua história. 


No fim, Stay True: Relato de uma Amizade responde - de uma maneira esquisita e longa - a pergunta que abriu este texto: a obra mostra que a duração de uma relação não determina sua importância. Algumas pessoas permanecem por décadas; outras atravessam nossa vida durante poucos anos e deixam marcas que o tempo não consegue apagar. A amizade entre Hua Hsu e Ken foi breve, mas suficiente para transformar o narrador para sempre. 



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