De ruínas, memórias e imagens: os dez anos da Cidade Dormitório
- Michele Costa
- há 2 horas
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Algumas bandas encontram uma fórmula para seguir adiante. A Cidade Dormitório construiu um caminho. Ao longo de dez anos de carreira, o quarteto sergipano fez da inquietação o principal combustível de sua trajetória, recusando a repetição e transformando cada lançamento em um novo capítulo de uma mesma conversa sobre afetos, memória e as contradições de viver no presente.
Formada em 2015, a partir de sessões de jam nos arredores de Aracaju (SE), pelos amigos Yves Deluc (guitarra e voz) e Fábio Aricawa (bateria e voz), a banda encontrou no pós-punk, na psicodelia e no indie rock um ponto de partida para traduzir em música as complexidades das relações contemporâneas e as múltiplas camadas da vida urbana. Essa identidade começou a tomar forma em Esperando o Pior (2017), EP de estreia em que letras carregadas de teatralidade se unem a arranjos intensos para retratar vivências, afetos e inquietações cotidianas.

Dois anos depois, a banda expandiu esse universo em Fraternidade-Terror (2019). O primeiro álbum preserva a atmosfera melancólica do EP, mas amplia seu alcance ao desenvolver narrativas mais densas e uma sonoridade ainda mais refinada. As guitarras ganham novas texturas, enquanto as composições demonstram uma banda interessada em explorar não apenas sentimentos individuais, mas também as tensões produzidas pela convivência nas cidades e pelo tempo.
Foi durante o período de isolamento social que nasceu Ruína ou o Começo me Distrai (2021). Composto em meio às incertezas da pandemia, o disco desloca o olhar da banda para questões ainda mais existenciais. Sem abandonar a melancolia que sempre caracterizou a Cidade Dormitório, o álbum revela um grupo artisticamente mais maduro, capaz de transformar a experiência coletiva daquele período em uma obra profundamente íntima.
A evolução acontece sem romper com o passado. A cada lançamento, a banda amplia sua linguagem, incorporando novas referências e refinando sua identidade sonora sem abrir mão da sensibilidade que a tornou uma das vozes mais particulares da música alternativa brasileira.
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Olhando para o início da carreira, quais ideias ou características presentes no primeiro trabalho continuam fundamentais para as identidades da banda?
lllucas: Acho que esse anseio de comunicar diretamente com o público. Mesmo que, dentro da construção da discografia da banda, as músicas parecem ter tomado rumos (tanto sonoros quanto líricos) diferentes, essa ainda é uma preocupação que paira dentro da gente. Somos uma banda que curte interagir tanto dentro quanto fora do palco com quem sai de casa pra nos assistir. Acredito que isso reflita bastante em toda a nossa identidade.
A sonoridade da banda sempre transitou por diferentes referências dentro do rock alternativo. Como essa mistura foi se transformando ao longo dos anos?
Fábio: Todo mundo da banda ouve muita coisa diferente um do outro. Mas pra resumir: muita mpb dos malditos, muito brega antigo, muito pop, punk, pop punk, rap… Tudo isso veio somando nas refs de roque que nunca perdemos. O som só continuou sendo uma grande sopa com vários ingredientes e temperos diferentes, de cada um, com seu repertório distinto. Nem só de roque se alimenta uma banda de roque.
Vocês sentem que os temas abordados na discografia do grupo mudaram com o passar dos anos ou existe uma linha condutora que conecta todos os álbuns?
lllucas: Os temas mudam sim. As preocupações são outras, os anseios, as referências. Até mesmo a formação original da banda não é a mesma. Mas como disse anteriormente, a linha condutora é a vontade de comunicar.
Como foi amadurecer/mudar artisticamente sem perder a espontaneidade e a inquietação que marcaram os primeiros anos da banda?
Fábio: Hoje em dia me parece que as inquietações e espontaneidade ainda existem, mas as origens são outras. Nos primeiros anos de banda, a gente queria muito fazer roque, tocar no underground, ocupar espaço enquanto fazedores de cultura, de música. Dez anos depois as perspectivas mudam um pouco e com elas, seus saldos também. Ficar mais velho faz a gente, por exemplo, querer ouvir e ter a oportunidade de colocar no álbum um som de Moog de verdade, que a gente não pôde colocar antes. Quando a gente começou a gente nem sabia o que era um Moog, por exemplo. Continuamos a aprender muita coisa, agora querendo chegar a outros lugares. A ousadia de experimentar outras coisas. O importante é continuar curioso.
Nos diferentes álbuns o amor é tratado como abrigo e também como ameaça. O afeto é um lugar seguro ou de vulnerabilidade?
Fábio: Talvez o afeto ocupe vários lugares, na verdade. Qualquer coisa afetiva pode vir para qualquer lugar do espectro entre as sensações boas e os sonhos ruins. Talvez em cada álbum o afeto ocupe um lugar diferente. Só ouvindo pra tentar analisar, rs.
A cidade aparece em diferentes trabalhos quase como um personagem. Que tipo de diálogo vocês tentam estabelecer com ela?
Fábio: Um diálogo que parte sempre da ocupação da cidade de uma forma justa. Tem até uma frase que Yves fala nesse novo show ao agradecer as pessoas que vieram. Ele diz em meio a outras frases improvisadas: “a você que veio de carro, de ônibus, de bike, que veio a pé: muito obrigado. (...) nós somos a cidade!”, algo do tipo. É massa nos entendermos como a cidade também, paralelamente ao que Krenak fala de nós e a natureza, somos indissociáveis, creio que também somos da cidade enquanto organismo vivo.
Em “Salvador”, música do disco Ruína ou o Começo me Distrai, vocês cantam “a esperança tá cansada de madrugar”. O que mais desgasta a esperança: o tempo ou a repetição das decepções?
Fábio: Quando eu escrevi esse verso, eu realmente pensei na esperança como uma pessoa mesmo. Imaginei ela sentada num bar por várias noites, acompanhando várias pessoas que acreditam em mil destinos. Destinos esses que, em sua maioria, não vão acontecer, mas que, justamente como a metáfora da esperança-pessoa, são tão concretos quanto no imaginário de quem acredita. É como se, numa mesa de bar quadrada, com 3 bêbados inconformados com a vida, a esperança sempre ocupasse a quarta cadeira vazia. Então, respondendo a sua pergunta, acho que o que mais me cansa é o fato de a esperança ter que ser basicamente uma funcionária PJ “full time” na vida de quem ainda pretende continuar vivo, sabe? Tipo isso.
Já em "Love Lo-fi" vocês dizem "toda vez que eu saio eu não encontro mais nada". Vocês acham que a sensação de desencontro diz mais sobre o mundo ou sobre quem está procurando?
lllucas: Acho que todo mundo procura alguma coisa, né? Então de ambos, mas não sei. Difícil isso, haha…
Já que "nem tudo está perdido", como pontuam em "Barco Amnésia", o que querem alcançar no futuro?
lllucas: Dinheiro, paz nos estádios e possivelmente um espaço tanto físico quanto psíquico que seja meramente similar as memórias positivas que temos dentro de nós.
Cinema Bélico?, o novo passo da Cidade Dormitório

A trajetória construída pela Cidade Dormitório encontra um novo desdobramento em Cinema Bélico? (Matraca Records/YB Music, 2026). Com nova formação - Yves (guitarrista e voz), Fábio (bateria e voz), João Mario (baixo) e lllucas (guitarra) -, o terceiro álbum de estúdio preserva a essência da banda - a melancolia, os afetos e o olhar atento para as inquietações do cotidiano -, mas amplia seu horizonte ao voltar a atenção para um mundo dominado pelo excesso de imagens.
A pergunta que dá nome ao disco funciona como um convite à reflexão: em uma época em que guerras, tragédias e conflitos chegam às telas em tempo real, ainda somos capazes de distinguir a realidade da espetacularização? Sem oferecer respostas definitivas, a banda transforma esse incômodo em canções que questionam o poder do audiovisual e a forma como consumimos o presente.
"É um trabalho feito a muitas mãos, o que trouxe contribuições bem diferentes e acabou gerando um retrato sonoro mais diverso e com cara de novidade", indica Fábio. "As ideias de afeto, nostalgia e esse imaginário da banda continuam ali, só que agora com uma roupagem mais polida e meio etérea", completa o baterista.
Depois de dez anos de carreira, o que Cinema Bélico? representa na trajetória artística da banda em comparação aos trabalhos anteriores?
Fábio: Talvez possamos dizer que esse álbum é um trabalho mais maduro, mas ao mesmo tempo ele soa meio inaugural. Tem muitos elementos que a gente não explorava antes, muitas camadas sonoras novas. Esse é um disco mais sinestésico mesmo. Um disco meio imagético, meio solene. Ocupa um lugar muito legal na linha do tempo da discografia, um marco depois dos 10 anos. Quase que escancara a passagem do tempo reverberando nas nossas percepções de mundo. As guerras acontecendo, as telas que não desligam, os novos dilemas… Cada trabalho da gente reflete muito da época que foi feito, acho que cada disco tem essa especificidade. É bem óbvio e clichê esse papo, mas é isso mesmo, rs.
Vocês enviaram o álbum completo antecipadamente para que comprou ingresso da turnê. Como foi acompanhar as primeiras reações dos fãs antes do lançamento oficial?
Fábio: Foi uma surpresa muito positiva ver como as pessoas estavam animadas para ouvir o disco mesmo antes de sair. Galera realmente se engajou com a ideia e muita gente fez questão de ouvir o álbum antes de ir ao show. Isso fez com que a gente visse como o público da gente se importa com o nosso som, nos fez ficar muito feliz e seguro sobre todo o processo e o futuro do disco. Deu um gostinho, sabe? Nessa de ouvir uma vez só, teve até uma galera que veio conversar com a gente meio frustrada porque clicou no link de visualização única, teve algum problema e por isso não conseguiu ouvir mais o disco. Como a experiência era única para cada pessoa, a gente não podia reenviar, fazia parte da experiência quase analógica e fugaz, rs. Foi muito especial esse processo, no fim das contas.
O disco traz diferentes participações especiais. Como essas colaborações foram pensadas dentro da estrutura do álbum?
Fábio: As colaborações surgiram de forma natural pra falar a verdade. A gente já tinha tocado com a Carabobina - de quem já éramos amigos - no Coquetel Molotov e fez todo o sentido para a gente nos alinhar na ideia melódica mais Trip Hop de “Como Assim?", que é uma melodia de João Mário, nosso baixista. Ter ambas as vozes de Fefel e Alejandra na mesma música só adicionou pra atmosfera misteriosa e chic da faixa. "Morcega” é uma faixa composta pelo nosso amigo e grande compositor Danilo Duarte e ela sempre nos emocionou muito. YMA apareceu nas gravações do disco e tanto a voz dela parecia encaixar na música quanto a música parecia encaixar no universo dela. Já admirávamos o trampo dela há tempos e foi honra demais tê-la na faixa. “Trailers do Futuro" e “Bob Dealer" contam com Grisa, que está muito pra frente nas composições, timbres, improvisos e loucuras. A mulher é bruxona. Criou “Trailers" com a gente na pressão de gravar no outro dia, gravou teremim, improvisou texto em francês para “Bob Dealer"... Enfim, multiartista demais! Ainda estamos tendo a sorte de contar com ela em muitas datas da turnê de lançamento do disco, muito privilégio trabalhar com tanta gente massa!
