Bandarra: a poesia de Tibério Azul que floresce há 15 anos
- Michele Costa

- há 1 dia
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"Bandarra é cavalo velho solto no pasto, às moscas." A partir da imagem do poema "O livro de Bernardo", de Manoel de Barros que nasceu Bandarra (2011), álbum de estreia solo de Tibério Azul. Assim como o poeta mato-grossense encontrava grandeza nas coisas aparentemente pequenas, o músico construiu um repertório que marcou uma geração por sua delicadeza e simplicidade.

Na década de 2010, a cena pernambucana vivia um momento particularmente fértil, sendo que Tibério já era conhecido pelos grupos Mula Manca & A Fabulosa Figura e Seu Chico, porém, Bandarra - sua estreia solo - foi um ponto de virada ao combinar MPB, rock rural, jazz e canção brasileira contemporânea. Mais do que uma fusão de estilos, o disco apresenta uma estética que parece desafiar o tempo: inspirado pelas obras de Cora Coralina, Alberto Caeiro e, principalmente, Manoel de Barros, as canções não se apoiam em refrões imediatos nem em tendências passageiras. Dessa maneira, elas crescem aos poucos, como quem convida o ouvinte a desacelerar e prestar atenção aos detalhes, talvez seja justamente essa característica que explique sua permanência até hoje.
"Foi o trio da Joinha Records que, além de assinar a produção musical, montou a banda, convidando músicos essenciais para a estética do disco. Me orgulho muito dessa parceria, sou o tipo de artista que necessita do trabalho em grupo mesmo num projeto solo como foi Bandarra", explica Tibério Azul.
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Bandarra segue vivo na memória das pessoas. Por que o disco continua encontrando ouvintes e ecoando tantos anos depois?
Essa é uma resposta difícil de dar. Porque, acredito, que ninguém a tem. A arte tem esses mistérios: obras que se prolongam além do tempo, obras que somem e reaparecem, obras que só surgem depois. Temos nossas teorias, mas nenhuma é concreta. Porque a arte, não é concreta. No caso do Bandarra, eu poderia dizer que é porque ele tem profundidade. Tem camadas. É uma obra que funciona na superfície e funciona na densidade. Eu mesmo por vezes percebo sutilezas que nem lembrava. Mas continua sendo só uma teoria. Que talvez faça sentido. Ou não. Na minha opinião, essa é a graça.
Você descreve Bandarra como um "disco terroso", conectado às raízes e à contemplação em um tempo marcado pela velocidade e excesso de informação. Você acredita que essa característica faz o álbum continuar atual?
Eu acho que sou um artista conectado a essências das coisas. Não costumo cantar ou escrever sobre um fato apenas. Estou sempre buscando algo a mais, uma dor mais profunda, uma alegria mais genuína. O medo de ficar só, por exemplo, transita pela amante, mas também pela mãe. Acredito que essas escolhas deixem a obra menos datada, porque ela está descolada do fato. Mas essa não é uma escolha consciente, é como eu aprendi a pulsar na arte. Não faço por isso. Faço porque só sei fazer assim.
Muitas coisas aconteceram no mundo desde o lançamento do disco. Olhando hoje para as músicas, elas mudaram com o passar do tempo?
Acredito que o mundo girou e elas ganharam novas texturas: porque a luz mudou, as sombras mudaram, a paisagem mudou, o clima é outro. Mas as músicas pulsam no mesmo ritmo. Talvez nós é que sentimos, agora, diferente.
O verso do poema de Manoel Barros que inspirou o conceito do disco fala sobre um "cavalo velho solto no pasto, às moscas." Essa imagem ainda dialoga com quem você - e o trabalho artístico - é?
Sobre o disco: sim. Esse conceito permanece vivo e pulsante. Ouço o disco e reconheço que sua proposta poética se mantém intacta. E me emociono demais percebendo isso. Agora, sobre mim: acredito que não. Porque o cavalo velho saiu cavalgando, descobrindo novos campos, outros animais, experimentando a vida e se comprometendo com ela.
Existe algo em Bandarra que você faria diferente hoje ou acredita que ele precisava existir exatamente daquela forma?
Acredito que ele precisava existir exatamente como ele é.
"Quando o disco foi lançado, havia um novo pulsar na cena musical recifense, com trabalhos de China, BUHR e tantos outros artistas da música pernambucana lançando discos. No contexto social e político, tínhamos um Brasil e um mundo mais estáveis, mais esperançosos. Era como se a gente estivesse de barriga cheia e, justamente por isso, houvesse tempo para se dedicar ao que parecia menos urgente."
Em algumas faixas do disco há a repetição da expressão eu sou, uma afirmação do eu. Você continua o mesmo? Inclusive, dar nome e repetir a expressão ao longo das músicas é a melhor escolha para reforçar a existência?
Eu gosto de compor um álbum como se estivesse escrevendo um livro. Minhas obras sempre apresentam uma linha narrativa, um conceito, um personagem. Essa repetição, quase sempre, é intencional. Mas não acontece apenas em afirmações, como essa citada, mas também em temas, palavras e até versos. Esse é um artifício de uma obra que está interligada. Como se eu estivesse aprofundando o mesmo conceito. O "eu sou" ganha uma nova textura cada vez que é repetido. É como se estivéssemos mergulhando nesse personagem do disco, entendendo ele melhor e se entendendo junto. Essa forma de criar é mais utilizada em livros ou até filmes. Mas é um traquejo que carrego: uma temática clara se aprofundando continuamente à medida que a obra se apresenta.
Já em "Bandarra", última faixa do disco, você pergunta de onde vem a felicidade. Quinze anos depois do lançamento do álbum, você chegou a alguma conclusão?
Essa música é um bate papo. Uma conversa com alguém mais rígido. E essa pergunta surge, na realidade, como uma provocação. De toda forma, eu acho que o próprio Bandarra entrega essa resposta. Para ele, a felicidade é “estar onde se está”. E eu… não cheguei a nenhuma conclusão. Me mantenho inquieto em busca de novas perguntas.
Caso alguém ouça o disco hoje, qual o sentimento ou experiência você espera que esse indivíduo tire da audição?
Morro de curiosidade de saber. Não tenho expectativas. Mas uma enorme curiosidade. Gostaria de receber centenas de respostas dessa pergunta.
15 anos de Bandarra, de Tibério Azul

Se o contexto social e cultural mudou radicalmente desde 2011, Bandarra permaneceu. Não porque tentou prever o futuro, mas porque escolheu olhar para algo mais profundo: as inquietações humanas, a beleza das palavras e a relação do indivíduo com o mundo ao seu redor.
Agora, o disco retorna em sua primeira edição em vinil, reafirmando a força de um trabalho que nunca se acomodou às urgências do mercado nem às convenções da canção popular. A edição é responsável pela gravadora Taioba Music, de João Pessoa. Garanta o seu aqui.




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