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O Ódio Pela Poesia

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Eu não sei se odeio a poesia, mas também não sei se amo. Tenho uma lista de poetas e livros preferidos, mas sigo sem uma opinião definitiva. Com o objetivo de me fazer mudar de ideia - ou tentar compreender melhor o gênero -, iniciei a leitura de O Ódio Pela Poesia (Fósforo, 2025), de Ben Lerner. No ensaio, o autor investiga por que a poesia, frequentemente associada à elevação e à expressão máxima da linguagem, provoca desconforto, frustração e até desprezo em tantos leitores. 


O livro não se limita a explicar essa versão, já que Lerner vai além e desloca a questão: em vez de perguntar por que não gostamos de poesia, ele investiga por que esperamos tanto dela. Dessa maneira, o autor sugere que o ódio não nasce de uma falha do leitor, mas de uma promessa não cumprida, pois ela carrega a ambição de alcançar o absoluto, de dizer o indizível, mas, ao se materializar em palavras, inevitavelmente falha.


"(…) poesia surge do desejo de ir além do finito e histórico - do mundo humano da violência e das diferenças - para alcançar o transcendente ou divino."

Esse descompasso ajuda a entender por que o incômodo com a poesia não é apenas estético, mas também social e cultural. A dificuldade de formar leitores, a sensação de inutilidade prática, o caráter muitas vezes hermético e até o "ridículo de ser poeta depois de adulto" apontam para um gênero que ocupa um lugar marginal hoje. Em um mundo marcado pela intensidade e pela comunicação direta, a poesia exige justamente o contrário: pausa, interpretação e alguma disposição para o não óbvio.


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""Poesia" é uma palavra para um tipo de valor que nenhum poema específico pode efetivar: o valor das pessoas, o valor de uma atividade humana que não se atém à divisão labor/lazer, um valor que está aquém ou além de preço. Por isso, odiar poemas pode ou bem ser um modo de expressar negativamente a poesia como ideal - um modo de expressar nosso desejo de exercer tais capacidades imaginativas para reconstituir o mundo social - ou uma fúria defensiva contra a simples sugestão de que outro mundo, outra escala de valor, é possível."

o ódio pela poesia
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

A própria tradição do gênero reforça essa tensão. Ao longo da história, a poesia foi associada à capacidade de condensar experiências profundas e ultrapassar o banal, mas é justamente essa ambição que a fragiliza. Para muitos leitores - me incluo nessa -, o poema soa distante, abstrato demais ou até pretensioso. A sensação de "não entender" rapidamente se transforma em rejeição e Lerner não tenta corrigir isso, mas encarar o problema de frente.


Em vez de defender a poesia como um valor incontestável, o autor expõe suas falhas em O Ódio Pela Poesia: a incapacidade de cumprir plenamente aquilo que promete. Ainda assim - ou justamente por isso - ela resiste. O ódio, nesse contexto, deixa de ser simples recusa e passa a funcionar como motor, alimentando novas formas de escrita, leitura e experimentação. 


""Poesia" é uma palavra para um tipo de valor que nenhum poema específico pode efetivar: o valor das pessoas, o valor de uma atividade humana que não se atém à divisão labor/lazer, um valor que está aquém ou além de preço. Por isso, odiar poemas pode ou bem ser um modo de expressar negativamente a poesia como ideal - um modo de expressar nosso desejo de exercer tais capacidades imaginativas para reconstituir o mundo social - ou uma fúria defensiva contra a simples sugestão de que outro mundo, outra escala de valor, é possível."

O interessante na obra é verificar o duplo da poesia: ao criticá-la, Berner a reafirma. Ao admitir que não gosta do gênero, apesar de ter organizado sua vida em torno dela, ele explicita o paradoxo que sustenta o ensaio. Amar a poesia, aqui, não é ignorar suas limitações, mas conviver com elas. 


Berner expõe pontos interessantes para pensarmos o papel da poesia, porém, não resolveu meu impasse - e nem deve. Mas uma coisa é certa: ela desperta diferentes sentimentos, por isso, é necessário continuar a leitura para sair em cima do muro - já escolhi o próximo livro.

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