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Pablo Vermell entre o tempo, os afetos e as incertezas

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 32 minutos
  • 8 min de leitura

Entre memórias, expectativas e sentimentos que raramente encontram respostas definitivas, Pablo Vermell construiu uma obra que dialoga diretamente com as inquietações da juventude contemporânea. Desde o primeiro lançamento - o single "Conciliar", lançado em 2020 -, o cantor e compositor tem transformado experiências pessoais em reflexões sobre amor, identidade, pertencimento e a difícil tarefa de viver o presente em uma época marcada pela hiperconexão e pela ansiedade constante.


pablo vermell
(Créditos) Sillas H.

Esse percurso começou a ganhar forma nos dançantes EPs Fugaz (2021), Dissolver (2022), Plural (2024) e Frenesi (2024). Em cada trabalho, Vermell experimentou diferentes sonoridades enquanto aprofundava temas recorrentes em sua escrita: os desencontros afetivos, a passagem do tempo, as mudanças da vida adulta e a sensação de estar sempre entre aquilo que já foi e o que ainda está por vir, por isso, suas músicas são retratos emocionais de uma geração que está convivendo com dúvidas e excessos.


Mais do que narrar experiências individuais, suas canções capturam sentimentos coletivos. A nostalgia, o amor, a busca por sentido e as inseguranças provocadas pelas relações contemporâneas aparecem como elementos centrais de uma obra que encontra na vulnerabilidade sua maior força. Em vez de oferecer respostas, o artista prefere explorar as perguntas que atravessam o cotidiano de muitos jovens adultos.


Inclusive, essas questões estão presentes em Futuro Presente (2025), primeiro álbum de Pablo Vermell que consolida sua identidade artística e amplia o olhar sobre os dilemas da Geração Z. Entre reflexões sobre amor, autoimagem e pertencimento, o disco reafirma uma característica presente desde seus primeiros trabalhos: a capacidade de transformar inquietações íntimas em canções que falam de forma universal sobre o nosso tempo.


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Você passou por diferentes sonoridades nos EPs Fugaz, Dissolver, Plural e Frenesi. O que mudou na sua forma de compor entre aqueles trabalhos e Futuro Presente

A forma de compor, em essência, sempre foi a mesma. Acredito que tudo o que escutamos ao longo da vida — desde a infância até a maturidade — fica guardado como referência. Eu componho de duas formas: ou tocando voz e violão, deixando a música surgir, ou partindo de uma ideia estética que tenho em mente. O que realmente muda entre um trabalho e outro é a produção e o arranjo. Enquanto em Fugaz buscamos uma sonoridade mais próxima dos anos 80, em Dissolver focamos na música alternativa dos anos 90. A composição é o alicerce que permanece, mas o caminho que trilho na produção é o que define a identidade sonora de cada fase.


Você lançou primeiro os EPs para, depois, apresentar seu primeiro álbum. Em que momento você sentiu que estava pronto para gravá-lo? 

A transição para o disco não foi um estalo, mas um amadurecimento natural. Após anos tocando em banda, onde a autonomia criativa era compartilhada, eu buscava um espaço

para consolidar meu trabalho solo. Foi um processo de maturação constante. Quando finalmente decidi gravar o álbum, meu objetivo era criar algo atemporal, que funcionasse em qualquer formato e que unisse todas as referências que eu vinha explorando. O álbum foi o ponto de encontro de todo esse amadurecimento que eu buscava.


As colaborações parecem ser uma constante na sua discografia, com diferentes artistas participando de cada projeto. O que desperta seu interesse em convidar alguém para uma música e de que forma esses encontros têm influenciado seu processo criativo e sua trajetória artística?

Minha relação com as colaborações reflete como enxergo o mundo: de forma multicultural. Como um artista que se vê como um cidadão global, apaixonado por diferentes culturas, entendo a música como um terreno fértil para esses encontros. Essas parcerias nascem tanto da amizade e da admiração mútua quanto do puro acaso — quando descubro um artista por quem me apaixono esteticamente e decido estabelecer um contato. Esses encontros influenciam minha trajetória porque, ao unir visões diferentes, minha música deixa de ser uma perspectiva individual para se tornar algo que abraça a complexidade do mundo contemporâneo.


Em “Vitral”, canção presente em Fugaz, a ideia de esquecer o antes e o depois parece um convite para habitar o presente. Ao longo dos anos, sua relação com o tempo mudou? Hoje você se sente mais preso às memórias, às expectativas ou ao momento atual?

A canção "Vitral" reflete um estado de espírito que ainda me acompanha: o exercício constante de habitar o presente. Ao longo dos anos, minha relação com o tempo se tornou mais fluida; entendo hoje que ele não é linear, mas cíclico. Sou naturalmente nostálgico, mas encontro uma beleza profunda no agora. Acho que a minha escrita é um reflexo desse movimento — alguns dias olho para as memórias que me construíram, em outros, foco inteiramente na expectativa do que virá. A música é o lugar onde concílio esses extremos, aceitando que ser humano é transitar entre o que já vivemos e o que ainda nos espera.


Duas estrofes em "Daniel" me chamam a atenção: "você vai encontrar tudo que há" e "se não encontrar pelo menos sinta". A partir dessas duas frases, parece existir um contraste entre a busca por respostas e a simples experiência de estar vivo. Em um mundo tão obcecado por certezas, resultados e definições, você acredita que sentir pode ser tão importante quanto compreender?

Sem dúvida, sentir é muito mais importante do que apenas compreender. Vivemos em um mundo obcecado por resultados, onde tudo parece ter que estar estritamente correlacionado ao trabalho e às finanças. Para mim, essa é uma lógica limitada. Existe toda uma dimensão da existência que escapa a essa necessidade de produtividade ou explicação racional, e é aí que o sentir se torna vital. Quando digo "se não encontrar, pelo menos sinta", é um convite para reconhecer que a experiência de estar vivo não precisa ser justificada por um resultado. Priorizar o sentir é um ato de resistência contra essa pressão de ter sempre uma resposta para tudo.


Você costuma dizer que o disco consolidou sua identidade artística. Hoje, olhando para sua caminhada, você acha que mudou muito com o lançamento da versão deluxe de Presente Futuro

O Futuro Presente Deluxe serviu para aprofundar uma percepção que eu já carregava. Ele me permitiu atravessar fronteiras e conectar espectros artísticos muito distintos, tanto na escrita quanto na sonoridade. Ao trazer parceiros, explorei nuances que iam da timidez à ironia, expandindo minha visão de mundo. Para mim, o Deluxe reforça que a música não acaba quando é lançada; ela é uma obra viva, capaz de ser constantemente revisitada. Adoro transformar canções, dando a elas novas camadas através de releituras. É a forma mais especial de olhar para trás enquanto continuo olhando para frente.



O álbum fala muito sobre a sensação de viver entre lembranças e expectativas. Você acredita que essa "nostalgia do presente" é uma característica marcante da Geração Z?

Sim, acredito que essa é uma característica extremamente marcante, quase definidora da minha geração. Sendo um cara de 1997, vejo como a gente transita entre o analógico e o digital com muita naturalidade. Não é à toa que vemos movimentos tão fortes na moda e na música revisitando constantemente os anos 90; isso não é apenas uma busca por um tempo que não vivemos plenamente, é uma forma de ressignificar o presente. Para nós, a nostalgia não é um lugar onde a gente vai para se esconder, é uma ferramenta de identidade. Vivemos em uma era de acesso infinito ao passado, então o "novo" acaba sendo essa colagem constante do que já existiu com as nossas experiências atuais. Essa "nostalgia do presente" é a prova de que queremos habitar o hoje carregando a bagagem emocional e estética de tudo o que nos trouxe até aqui. É um jeito de dizer que, para a gente, nada é descartável — tudo é parte de uma história que a gente continua escrevendo.


Em "Falar é Fácil Demais" você canta "quando tudo acabar você não vai pensar não vai lutar por nós aqui". Pensando na frase, você acha que ao pensar que um dia não estaremos mais aqui torna nossos laços mais valiosos ou revela o quanto muitas das nossas preocupações são passageiras?

A música nasce exatamente dessa reflexão. "Falar é Fácil Demais" surgiu de um processo muito honesto com o Daniel Cataldi, co-autor da faixa e parceiro de todo esse projeto Deluxe. A gente estava tentando emular os sentimentos que tivemos ao ouvir Skank e Terno Rei na sequência, logo após uma noite de show no Rio de Janeiro. Foi uma experiência meio caótica, mas foi exatamente esse cenário que nos inspirou a refletir sobre a fugacidade das coisas. A letra toca nos dois pontos: o fato de que um dia não estaremos mais aqui dá uma urgência e um valor muito maior aos nossos laços, mas também nos ajuda a perceber o quanto muitas das nossas preocupações diárias são, na verdade, passageiras. Entender que tudo é fugaz não é niilista, pelo contrário: é o que me motiva a lutar com mais força pelas pessoas e pelas relações que realmente importam aqui e agora.


Quando você revisitou o material para a versão deluxe, sua relação com as músicas mudou de alguma forma? Aliás, o que motivou o lançamento da edição deluxe de Futuro Presente neste momento?

Minha relação com as músicas mudou sim, de forma muito positiva. O que motivou o lançamento do Deluxe agora foi o desejo de revisitar o repertório com a maturidade que

ganhei desde o lançamento original. Foi um exercício de autoconhecimento técnico: em "Frio", por exemplo, pude ajustar o tom para algo que ficasse mais confortável e autêntico para a minha voz, algo que na época parecia um desafio. Mesmo com a colaboração tendo sido feita de forma remota, a troca foi muito rica. Esse processo me permitiu trazer novas narrativas para canções que já existiam, descobrindo que, ao ser honesto com meus limites e possibilidades musicais, o projeto ganha uma verdade maior. O Deluxe não é apenas um adendo; é uma forma de completar o ciclo do disco, trazendo novas cores e finalizando a obra de um jeito que me representa de forma mais completa hoje.


O que você espera que o público descubra ou redescubra ao ouvir essa nova versão do disco?

Minha expectativa não está ligada a grandes números ou ao sucesso imediato, principalmente porque entendo que ainda estou em um processo de expansão e maturação. Sei que existe uma distância grande entre o alcance no streaming e a construção de um público real que te assiste ao vivo, então enxergo este lançamento não como o ponto final de um ciclo, mas como um grande começo. Hoje, lançar um disco não é como colocar um livro numa prateleira, como acontecia em outros tempos; é um processo vivo e de constante descoberta, até para mim. Tento não me prender a métricas para não gerar frustrações, o que me permite celebrar cada feedback genuíno que recebo. No fundo, meu desejo é simples: espero que essas músicas façam sentido na vida das pessoas, que consigam tocar, inspirar, fazer refletir ou simplesmente oferecer um momento de sentir. Se a música cumprir esse papel, se ela trouxer alguma verdade para quem ouve, meu trabalho já terá alcançado seu objetivo.


Ao longo de Futuro Presente, você transforma dúvidas geracionais em canções. Depois de concluir esse álbum, qual questão sobre o futuro continua sem resposta e ainda move sua escrita?

Na verdade, tudo o que vivemos acaba sendo combustível. Momentos de êxtase ou tédio, vitórias ou derrotas, tudo tem o potencial de virar narrativa. Hoje, estou em um momento de muita felicidade e tranquilidade — casei no mesmo período em que decidi gravar o Futuro Presente e agora temos o Fred, nosso cachorro, que trouxe uma nova camada de cuidado e responsabilidade para minha rotina. Essa vivência diária, de 2026 em diante, certamente está moldando o que vem por aí. Já tenho mais de 20 composições reunidas e o sonho de um segundo disco, mas entendo que o processo é fluido: posso compor algo novo amanhã ou resgatar uma ideia de dez anos atrás. Gostaria de encerrar sendo realista: hoje, na música independente, raramente temos a oportunidade de viver o "sonho" da mesma forma que artistas do passado, com a viabilidade econômica plena. Por isso, a música é uma parte fundamental da minha vida, mas não é a única. Ela é o lugar onde coloco a minha verdade, algo que espero fazer para sempre, mas que existe em harmonia com todo o resto — a família, o trabalho, a vida. Meu maior desejo, daqui para frente, é que essa música continue chegando, gradativamente, a novos ouvidos e que ela possa seguir sendo esse reflexo genuíno de quem eu sou.


Novo capítulo de Pablo Vermell: Futuro Presente Deluxe

Após um ano do lançamento do primeiro álbum, Pablo Vermell apresenta a versão deluxe de Futuro Presente. Além das oito faixas, o álbum conta com a inédita "Régis - É Demais!" em parceria com Lauiz, e as colaborações da argentina Livia em "Em Mi Cuarto - low profile" e do grupo gaúcho Supervão. 



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