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Tiê: Esgotada

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra "esgotada" deriva do verbo esgotar, que significa "tirar até a última gota de; vazar. Extenuar-se, esgotamento." A definição sugere um momento em que o cansaço deixa de ser apenas uma sensação para se transformar em linguagem. Em seu novo álbum, Esgotada (2026), Tiê utiliza a própria exaustão para falar sobre desgaste, maternidade e sobrecarga por meio de letras confessionais e arranjos delicados que acolhem tanto a cantora quanto quem a escuta. 


tiê esgotada
(Pintura de Marina Quintanilha a partir de foto de Indira Dominici)

Primeira parte de um projeto dividido em dois capítulos - o segundo, Amorosa, com previsão para ainda este ano -, Esgotada funciona como um diário emocional escrito entre as brechas da rotina. A maternidade, as cobranças diárias, as redes sociais e a dificuldade de conciliar diferentes versões de si mesma atravessam as canções sem que Tiê transforme suas experiências em mera catarse. O que poderia soar excessivamente particular encontra eco em uma sensação coletiva: a de viver permanentemente no limite.


"Minha História" abre o álbum. Nascida de uma noite de insônia, a faixa revisita escolhas, arrependimentos e aprendizados com uma delicadeza que remete aos trabalhos mais inspirados da artista. A cantora utiliza a sutileza para narrar o período turbulento que atravessou e reconhecer que, após as tempestades, "deu vontade de poder voltar". Agora que retornou, aproveita sua voz para contar a própria trajetória.  


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Após um breve e carinhoso áudio do ator Rafael Infante em "Mensagem de Voz", Tiê segue relatando o que viveu e como conseguiu sobreviver aos momentos mais difíceis. Com produção musical de André Whoong, Marcus Preto e Tó Brandileone, Esgotada não procura curar o cansaço contemporâneo nem transformar a vulnerabilidade em fórmula de autoajuda, a artista está mais interessada em registrar o estado das coisas: a fadiga, os afetos que sobrevivem a ela e a tentativa diária de continuar criando, amando e existindo. 


Ao lado de Adriana Calcanhotto em "Atitude", Tiê canta sobre ter se perdido por um tempo. Ao elaborar esse sentimento, porém, devolve ao outro aquilo que não lhe pertence, preservando apenas o que é essencial. Em seguida, encontra conforto em "Altar", faixa em que se permite acreditar que, apesar das incertezas, tudo acabará bem. 


Em "Tempo Pra Mim", penúltima faixa do disco, Tiê relembra a infância e reforça que, mesmo adulta, continua olhando para as estrelas. Ao observar as filhas, encontra a certeza de que a vida vale a pena. É um dos momentos mais luminosos do álbum, mostrando que, depois do esgotamento, ainda é possível enxergar a beleza que resiste no cotidiano. 


Ao final do disco fica a impressão de que Tiê compreendeu algo essencial sobre o tempo presente. Em um mundo que exige produtividade constante, talvez o gesto mais radical seja simplesmente admitir que estamos cansados - e cantar sobre isso com tanta sensibilidade.



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