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A prosa calma de Serafim

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 41 minutos
  • 4 min de leitura

Em um mundo que insiste em correr, ainda é possível escolher o tempo da pausa. Em meio à lógica apressada que rege o presente - marcada por consumo veloz e escutas fragmentadas -, o cantor e compositor alagoano Serafim propõe a desaceleração em Aqui Pra Nós (2026), seu primeiro álbum. Como uma prosa em voz baixa, o disco aposta na profundidade e na intimidade como caminhos possíveis - e necessários - em tempos de superfície. 


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(Créditos: Matheus Monstro)

Concebido como uma obra completa, com começo, meio e fim bem definidos, Aqui Pra Nós reafirma o álbum como espaço narrativo. As canções se organizam como capítulos de uma mesma história, conduzidas por uma sonoridade enxuta e por letras que buscam identificação direta com o ouvinte. “A ideia é que o ouvinte se sinta parte das músicas”, aponta Serafim, que constrói o disco como quem abre a própria sala.


Gravado integralmente em Maceió (AL), no estúdio Maná Records, o disco é resultado de um processo coletivo que reúne exclusivamente artistas alagoanos, com produção, mixagem e masterização assinadas por Thiago Mata e Nayane Ferreira. A escolha não é apenas estética, mas também política: valorizar a produção local e afirmar a potência de um fazer artístico enraizado no território.


Outro fio condutor importante é a presença de Pedro Serafim, irmão do artista e parceiro desde a infância. Responsável por arranjos e instrumentações, ele contribui para uma identidade sonora que carrega traços familiares e afetivos. Muitas das composições nasceram ainda no convívio cotidiano entre os dois, o que se reflete na organicidade do disco e na sensação de proximidade que permeia cada faixa.


Musicalmente, Aqui Pra Nós dialoga com a tradição da música nordestina dos anos 1970, evocando nomes como Alceu Valença, Zé Ramalho e Carlos Moura. Mais do que referências diretas, o álbum se aproxima do espírito dessa geração: a liberdade criativa, o cuidado com a palavra e a coragem de expor a intimidade como força estética. Ainda assim, Serafim constrói um caminho próprio, filtrando essas influências por meio de vivências contemporâneas e de uma escuta sensível do presente. 


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Você faz um convite para o ouvinte: ouvir com calma e cuidado suas canções, para, fazer parte daquele momento. Esse gesto vai contra a realidade atual. Você acha que não estamos mais ouvindo os outros e respeitando o tempo? 

Acredito que sim. Sempre fui mais tímido e introvertido que a maioria e ouvia mais do que falava, talvez por isso tenha ido para o jornalismo também. Mesmo fora das redes sociais, quando estou no meio da rua o que mais noto nas conversas é que todos querem falar, mas quase ninguém escuta. Passando para a música, eu sempre fui de parar tudo o que estava fazendo para ouvir, seja um CD ou uma canção apenas. Então, quer queira ou quer não, essa vivência passou para o jeito que eu penso e faço as minhas músicas também, e isso acabou confluindo em conjunto para o conceito do álbum como um todo (que é meu primeiro).


Existe uma maneira de "educar" um público que sempre está com pressa? 

Falando sobre isso, que eu e você estamos fazendo, seria uma tentativa. Mas eu não pretendo educar ninguém, só exponho o meu jeito e se ele tocar nas pessoas já fico feliz. Foi assim que fui me moldando artisticamente e pessoalmente também, sempre gostei de ouvir histórias e biografias dos artistas que eu gosto. Sei que essa pressa todos nós todos temos, eu também tenho, está na nossa cultura atual.


serafim aqui pra nós
(Créditos: Maná Design)

Aqui Pra Nós dialoga bastante com as músicas dos anos 1970, como Alceu Valença e Zé Ramalho. Foi uma maneira que encontrou para apresentar e levar o ouvinte ao seu mundo?

Sim, até porque o meu mundo bebe muito dessa fonte. E as músicas foram sendo feitas nessa pegada, de maneira intuitiva. Apesar da "viagem" do disco ser para esse período, o local sempre foi a nossa música nordestina, porque me capturava mais a atenção.


É um álbum sobre pertencimento. Como foi construir essa narrativa e poder mostrar ao outro a sua realidade? 

Um longo percurso. Algumas das canções são das primeiras, quando tomei coragem para começar a escrever. Mas acredito que o álbum tenha saído no tempo certo. Ainda não estou maduro, mas também já tenho um pequeno caminho andado. Ainda sou muito tímido, mas este trabalho está sendo um impulso muito forte pra minha vida. Para mim, é um ato de coragem.


Você canta sobre sentimentos. É uma maneira também para que o ouvinte mergulhe em si mesmo para lembrar de si? 

Sim, com certeza. A sensação de reconhecimento é uma coisa que eu gosto muito e busco sempre. Tanto consumindo como produzindo arte. É uma forma de pertencimento também.


O amor é um dos sentimentos presentes no álbum. Qual o papel dele no álbum e para você? 

Papel primordial porque tanto as músicas como o processo de produção do álbum foi feito com muito amor - pelas pessoas, pela música, pela escrita, pelo violão. Não me considero romântico, mas eu preciso desse sentimento pra fazer as coisas. E Aqui Pra Nós foi uma dessas coisas.


Em "Equinócio" você canta que já plantou a esperança de um novo tempo. Como é manter a esperança e imaginar um futuro? 

Um exercício diário e necessário pra mim. A gente está sempre querendo e o querer está sempre no futuro. É uma forma de você continuar com vontade de fazer suas coisas. Estou sempre pensando nos próximos passos, nos próximos movimentos. Faz parte da minha ansiedade também, mas é o meu jeito.



©2020 por desalinho.

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