Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas
- Michele Costa

- há 2 horas
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Muitas vezes esquecemos que é possível ignorar a realidade e ir contra esse tempo que nos engole constantemente. Não é fácil, isso já sabemos, mas, com esforço, é possível. Veja o que o catarinense Gustavo Kaly e o gaúcho Wander Wildner fizeram: a dupla desafiou o próprio tempo para criar Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas (2025), um disco-crônica desacelerado.
As faixas parecem ter sido criadas em mesas de bar, em trocas demoradas, em confissões atravessadas por ironia e melancolia entre amigos de longa data. Nove delas são assinadas por Kaly, compostas ao longo de diferentes fases da vida, mas reorganizadas aqui sob uma mesma atmosfera: personagens deslocados, a precariedade urbana e a sensação de inadequação diante de um mundo acelerado demais.
O resultado é um álbum que soa como uma longa conversa. As canções não parecem correr para chegar a lugar algum; preferem permanecer no meio do caminho, observando o entorno. A escrita de Kaly aposta em pequenas histórias, quase crônicas urbanas, nas quais o humor sutil convive com um certo desencanto cotidiano. São retratos de gente comum tentando se equilibrar em uma realidade que raramente oferece estabilidade.
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A faixa de abertura, que dá nome ao disco, já apresenta esse espírito. A narração inicial, na voz de Wildner, conduz o ouvinte para dentro de um cenário urbano caótico, visto a partir da lente improvável de um pardal fictício que observa a chamada “floresta de cimento”. A imagem é simples, mas eficaz: Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas parece observar o mundo de cima, com certo distanciamento irônico, enquanto acompanha personagens aquém das próprias possibilidades.

Para dar forma ao material, Kaly e Wildner recorreram ao produtor Gabriel Guedes, músico ligado à banda Pata de Elefante. A produção é sóbria e aposta na organicidade. As guitarras aparecem com textura, a base instrumental sustenta as narrativas sem disputar protagonismo e os arranjos evitam excessos. Essa escolha funciona bem porque mantém o foco nas letras que são, afinal, o verdadeiro motor do disco.
Nesse sentido, Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas se destaca pela consistência narrativa. Kaly escreve como quem observa o cotidiano com um misto de curiosidade e resignação, transformando pequenos impasses da vida urbana em matéria poética. Quando essas histórias passam pela interpretação de Wildner, ganham uma camada extra: sua voz, marcada pelo tempo, carrega experiência, ironia e uma certa elegância desgastada que combina perfeitamente com o tom das canções.
Há também espaço para diálogo externo. "Deixa Isso pra Lá" adapta um poema de David Tattersall, do grupo inglês The Wave Pictures, ampliando discretamente o horizonte do álbum e reforçando seu caráter literário. Ainda assim, o disco permanece profundamente ancorado em uma sensibilidade brasileira - especialmente na tradição da canção que se aproxima da crônica.
No fim, Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas encontra sua força naquilo que o título anuncia. As “gambiarras” não são defeitos, mas estratégias de sobrevivência criativa. Kaly e Wildner transformam imperfeições em linguagem e fazem da amizade um método de composição. O disco soa como uma coleção de histórias contadas sem pressa e, em um tempo que exige velocidade o tempo todo, isso é um gesto radical.




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