Ficando Longe do Fato de já Estar Meio que Longe de Tudo
- Michele Costa

- há 2 dias
- 4 min de leitura
Quando eu estava no primeiro semestre da faculdade de jornalismo, há quase uma década, tive um professor que despertava em mim sentimentos conflituosos toda vez que entrava na sala de aula. O motivo era o seu tradicionalismo: defendia que os textos deveriam ser escritos a partir do lead e conter, pelo menos, cinco personagens. Mas não só isso: o texto deveria ser atrativo. Concordo que algumas regras precisam ser consideradas, mas como tornar interessante uma pauta que, à primeira vista, é chata? Durante quatro anos, procurei técnicas que ajudassem na escrita, foram poucas, nada útil. Dois anos após a conclusão do curso, encontrei ferramentas que poderiam - com esforço - deixar o professor satisfeito no livro Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo (Companhia das Letras, 2012).
Antes de abordar a obra, é importante ressaltar três pontos: 1) David Foster Wallace era escritor e professor, não jornalista; 2) o jornalismo literário existe há uns bons anos, mas Wallace conseguiu deixar sua marca; 3) é difícil imaginar que um jornalista, hoje, teria o mesmo espaço que o autor teve em grandes veículos, ainda assim, há lições valiosas ali. Dito isso: é possível escrever um bom texto sem começar pelo lead.
Reconhecido como um dos principais escritores contemporâneos do século XX, o jovem escritor ganhou destaque com Graça Infinita (Companhia das Letras, 2014), romance ambientado em um futuro distópico em que Estados Unidos, Canadá e México se unificaram e os anos passam a ser patrocinados por corporações. Antes do sucesso do romance, porém, ele escreveu ensaios e críticas para revistas e jornais nos anos 1990. Nesses textos, transformava experiências banais em reflexões profundas, narradas com humor, ironia e um uso obsessivo de notas de rodapé. Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo reúne alguns desses ensaios sobre temas variados.
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O texto de abertura, que dá título ao livro, apresenta as impressões do autor sobre a Feira Estadual de Illinois, uma das maiores celebrações agrícolas e culturais dos Estados Unidos. O que poderia ser trivial ganha força com a escrita de Wallace, que relembra um trauma de infância (quando foi bicado por uma ave), critica a adultização precoce de crianças e observa, com ambivalência, o esforço coreográfico das balizas em busca de um espetáculo perfeito. O ensaio assume a forma de diário, aproximando o leitor da experiência subjetiva do autor.
"15/08/8h40. Um Ronald inflável do tamanho de um carro alegórico, sentado e perturbadoramente semelhante a um Buda, reina no lado norte da tenda do McDonald’s. Uma família está tirando foto em frente ao Ronald inflável, arrumando as crianças numa pose calculada. Anotação no bloco: Por quê?"

O segundo ensaio é o mais longo do livro e, consequentemente, o mais cansativo. Em "Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer", ele narra os excessos de uma semana a bordo do navio de cruzeiro MV Zenith, rebatizado por ele como Nadir. A partir da viagem pelo Caribe, o autor aprofunda sua crítica ao consumismo e à lógica da satisfação permanente vendida pela indústria do lazer. Já no terceiro ensaio, o mais curto, defende que Franz Kafka é engraçado, mas que, para enxergar o humor do autor austro-húngaro, é preciso atenção e repertório.
"Pense na lagosta" é um dos textos mais provocativos da coletânea. Com humor e ironia, Wallace questiona a moralidade de cozinhar lagostas vivas, deslocando o leitor do conforto gastronômico para um debate ético desconcertante. O famoso discurso de formatura de 2005 no Kenyon College também integra o livro. Em "Isto é água", o autor propõe um exercício de atenção ao outro e às pequenas banalidades do cotidiano como forma de escapar do automatismo da vida adulta.
"(...) O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a "corrida de ratos" - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa finita."
Por fim, "Federer como experiência religiosa", escrito durante um torneio em 2006, descreve o tênis de Roger Federer como uma experiência estética sublime, quase celestial. O texto se transforma em meditação sobre beleza, técnica e transcendência.
O próprio título da coletânea antecipa o paradoxo central da obra: a sensação de afastamento constante, mesmo quando se está cercado de estímulos, pessoas e discursos. Wallace escreve a partir desse deslocamento, isto é, um lugar de observação em que participa do sistema que critica, sem fingir neutralidade. O resultado de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo oscila entre reportagem cultural, reflexão filosófica e confissão pessoal, sempre atravessado por notas de rodapé que ampliam, tensionam e por vezes desviam o argumento do escritor.
Talvez meu antigo professor ainda exija um lead mais direto. Mas, depois de Wallace, fica claro que a força de um texto pode estar justamente na recusa em começar pelo óbvio e na procura de conversar com o leitor.




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