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A sintonia de Ana Be

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • 7 de ago.
  • 7 min de leitura

A cor azul carrega a serenidade dos recomeços, a profundidade das emoções e a delicadeza de encontrar beleza na vulnerabilidade. Através do tom, Ana Be apresenta Sintonia dos Novos Começos (2026) que transforma o amor em uma narrativa distante das idealizações, preferindo explorar seus caminhos mais honestos, contraditórios e humanos.


ana be sintonia de novos começos
(Créditos: Pamela Anastácio)

Nascida e criada na Zona Leste de São Paulo, a cantora e compositora apresenta um trabalho que enxerga o afeto como um movimento constante. Em vez de buscar respostas definitivas, suas canções acompanham as mudanças de um eu-lírico feminino que descobre, desaprende e reconstrói a própria maneira de amar. O disco entende que a vulnerabilidade não é um desvio, mas uma força capaz de abrir espaço para novas experiências.


Depois do EP Balanço 22 (2022), Ana Be aprofunda sua pesquisa estética e consolida uma assinatura própria. Com produção musical de Levi Keniata e realizado com recursos do programa VAI - Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo, a cantora convida o ouvinte a encontrar outra frequência para olhar o amor: menos idealizada, mais sensível e aberta às imperfeições que tornam cada recomeço verdadeiramente único.


"É um disco autoral que enxerga a vulnerabilidade como fortaleza em sua narrativa, é uma defesa da minha própria história e dos ensinamentos absorvidos em momentos cheios de frescor e de beleza. Em Sintonia dos Novos Começos busquei cantar o amor de maneiras não tão óbvias, seguindo por uma autenticidade e estética bastante próprias", comenta a artista. 


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Você define Sintonia dos Novos Começos como um disco sobre o amor, mas contado por perspectivas pouco convencionais. O que te incomoda, ou já incomodou, nas narrativas tradicionais sobre o amor nas músicas?

O que mais me pega nas narrativas tradicionais sobre o amor é a linearidade, que muitas vezes vai para um lugar-comum, e eu não queria ir por aí. O amor é muito complexo para caber em um só formato de história, e foi justamente buscando um contraponto para isso que pensei na narrativa do meu disco. As narrativas tradicionais sobre o amor têm um roteiro já muito pré estabelecido, e eu queria dar outros finais para esse assunto, que já tem uma bagagem muito marcada no senso comum. Pensei em como seria falar sobre finais e recomeços deslocando a história do eixo amor romântico e focando sobre se reencontrar depois dos fins.


Você canta sobre diferentes fases de um relacionamento, ou seja, da sedução ao acolhimento. Existe uma narrativa pensada entre as faixas ou o ouvinte pode construir sua própria história?

Olha, eu adoro a ideia de jogar para o ouvinte a possibilidade de construir sua própria história a partir do que o disco oferece, acho que a arte tem isso, ne? A partir do momento em que foi lançado, o disco não é mais somente meu, ele ganha a possibilidade de fazer parte da vida de quem toma ele pra si. Apesar disso, o disco foi pensado sim como uma progressão de fases entre o fim de uma relação e o recomeço, para que todas as emoções fossem acessadas e conduzidas nessa ordem. Ele foi construído também para ter uma circularidade, meio que em espiral, sabe? A gente nunca está no mesmo lugar, mesmo vivendo um novo começo, e achei importante contar a história a partir dessa proposta. Com um novo começo, vem a bagagem do que foi vivido, o que a gente aprendeu a desaprender e também novos desejos. Cada faixa adiciona um novo mood a essa história.


Você afirma que enxerga a vulnerabilidade como uma fortaleza. Como foi transformar vivências em músicas? 

Foi como me olhar no espelho, sem filtros. Nem sempre é bonito, mas é necessário. Tive tempo para acessar muitas emoções e situações que viraram as faixas, e refletir sobre elas, pensando também na minha responsabilidade ali em cada situação. Por exemplo: Em ”Sem saída”, eu refleti que me levei ao limite, indo “além demais”. Agora olhando para o que eu vivi no que existe naquela faixa, eu não faria igual, mas sei que foi importante viver aquilo, para entender até onde eu vou para viver e sustentar uma relação, o que eu entendo como inegociável, o que eu entrego quando estou amando e construindo afeto… Me deu uma nova camada de sofisticação sentimental. 

Num geral, criar cada faixa foi me virar do avesso e também me questionar sobre o que eu levo de cada etapa, e eu sinto que agora me sei muito mais! Sinto que eu aprendi muito sobre o amor, sobre meus limites e sobre respeitar o tempo de cada fase. É importante viver um luto e deixar ele te atravessar, sabe? Assim como também é uma delícia se perceber apaixonada.


Se este álbum marca um novo começo, o que você acredita que ficou para trás durante o processo de criação? 

Esse disco marca o início do meu retorno de saturno, e com ele veio uma reviravolta na minha vida. Eu passei a repensar minhas relações, em geral, e em todas as esferas. Relações com homens, principalmente. Esse disco marca uma maior autonomia criativa e executiva que tomei para mim, e tive a escolha ativa de trabalhar majoritariamente com mulheres, e isso me abriu um novo universo de possibilidades! 

Muito do que ficou para trás tem a ver com eu conseguir me impor, enquanto profissional e também na minha vida pessoal. Estabelecer limites e exigir uma comunicação clara nas minhas relações. E um disco sobre o tempo, o amor e a música porque pude olhar para essas três “entidades” com muito cuidado e entender o que eu precisava desaprender para seguir cultivando-as. No evento de audição do álbum me perguntaram o que teve que morrer para eu poder recomeçar, e eu penso que deixei de acreditar em posturas desalinhadas com discurso, e isso me forjou tanto como mulher quanto como artista independente. Eu deixei de duvidar de mim, artisticamente, enquanto fui lapidando esse disco, e essa foi a postura fundamental para seguir com ele e ter chegado até o lançamento.


"Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro."

A grande metrópole parece como um personagem antagonista do álbum. Como a cidade influenciou sua maneira de compor e viver o amor? 

Viver em São Paulo, transitando entre zonas e acessando o centro muito cedo, moldou toda minha visão de mundo, inclusive da música. São Paulo e suas contradições são partes inerentes do meu processo criativo, seja pelo simples movimento e fluxo entre partes da cidade, seja pelo acesso a muitas influências que fui captando ao longo dos anos. O jeito que eu incorporei essas referências no meu repertório e proposta musical estão totalmente relacionados a como eu vivo a cidade, e como eu vivo minhas relações num geral. Acho que estar perseguindo a cidade me deixou mais atenta a como eu lido e interajo com o mundo, tem algo muito particular em fazer parte e também não me sentir pertencente. É uma relação complexa que tem sido um espelho: Quando estou mais aberta para observar a cidade também me sinto aberta para descobrir novas sensações, e isso se reflete no modo como eu amo, me relaciono e desejo novos caminhos e enredos pra mim.


Amor, paixão, desejo e flerte são abordados no disco. Para você, existe uma melhor fase?

Acho que depende muito do momento de vida. Agora eu tô achando a fase do amor a melhor de todas! Talvez por estar vivendo uma relação muito gostosa, e ter desfrutado cada fase desde o início do desejo e o flerte, então virei uma grande entusiasta do amor mais sólido e todo compromisso que vem com ele. Tenho vênus em capricórnio kkkkkk, pra mim, é muito difícil chegar nessa fase, então quando ela vem, eu desfruto até das pequenas coisas na rotina. Amo viver o amor, e acho que cheguei num momento de poder curtir ele sem pressa.


Em “Sem Saída” você diz que não quer mais perguntar e que foi além. Em que momento você está agora?

Eu tô no momento de ser muito franca quanto ao que eu desejo pra mim, e tô disposta também a cultivar esse desejo. Acho que é um momento de florescimento e calma que a fase adulta começa a trazer, e eu gosto muito da estabilidade que veio com ela. Lançar esse disco corresponde a essa fase de mais segurança comigo e com meus desejos, e também uma maior responsabilidade com essas decisões futuras. Nada está garantido, e talvez a graça desse momento seja flertar com as possibilidades do que eu desejo e pensar em como eu vou fazer pra concretizar isso tudo que eu quero.


A cor azul está presente na capa do álbum e em algumas questões. O que a cor representa nessa narrativa?

Eu vejo o azul como uma metáfora para introspecção e calmaria. Sou uma grande devota do Djavan, sabe? Assim como ele, eu também vejo o amor como algo azulzinho e quis trazer essa leitura pro meu disco. Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro. Ate tentei buscar outras cores para representar essa era, mas apenas o azul deu conta de amarrar todo o processo de recomeço que existe ali.


Depois de terminar o álbum, você passou a enxergar o amor de uma maneira diferente?

Acho que foi uma coisa retroalimentando a outra: Eu olhar pro amor com mais qualidade me fez criar esse disco, e terminar o disco trouxe outras camadas à minha visão sobre o amor. Eu vejo que agora tenho mais segurança pra amar como eu quero e também demandar que eu tenha meus desejos atendidos, sabe? Acho que o amor é mesmo uma via de mão dupla: Eu só pude amar com qualidade quando me entendi melhor e deixei meu parceiro me entender também, e pude perceber que cada fase tratada nesse disco foi importante para eu delimitar o que é essa minha leitura sobre o amor. Li bell hooks, Renato Nogueira, ouvi Djavan, Liniker, Alcione… Tudo para me dar repertório e refletir se essas interpretações poderiam conversar com o que eu entendo do amor. Foi um mestrado em educação sentimental kkkkkkk



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