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Luca Frazão encontra no violão o movimento depois da queda

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 5 horas
9 min de leitura

Segundo o dicionário, despencar é "cair desastradamente de grande altura; sofrer uma queda." Quando a palavra é utilizada - seja escrita, falada ou gritada -, assusta pois anuncia uma ruptura. Em Despencando (2026), álbum de estreia de Luca Frazão, o verbo ganha outro sentido: a queda se transforma em ponto de partida para reorganizar a vida, retomar composições antigas e, finalmente, materializar um trabalho que vinha sendo construído há anos.


A história que dá nome ao disco aconteceu durante a pandemia, em 2021, na casa da mãe de Luca. Durante a madrugada, o músico sentiu uma dor estranha no peito enquanto caminhava até o quarto e acabou perdendo a consciência. A preocupação aumentaria depois, quando uma investigação médica levantou a possibilidade de uma obstrução em uma artéria importante do coração e o risco de uma morte súbita. Diante desse cenário, Luca voltou para algumas músicas inacabadas, terminou composições e escreveu partituras - uma maneira de deixar tudo finalizado, sem nenhuma dívida.


A notícia, felizmente, foi outra: não havia obstrução coronária. A queda, porém, modificou o artista. O episódio fez Luca Frazão rever decisões, reorganizar prioridades e compreender que era hora de dar forma a um projeto iniciado anos antes. Dessa maneira, Despencando surgiu de um modo paradoxal: aquilo que poderia ter causado uma interrupção acabou colocando a vida e a música novamente em movimento.


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luca frazão
(Créditos: Rebeca Figueiredo)

Violonista, compositor, arranjador e professor, Luca constrói seu percurso há 15 anos dentro da música instrumental. Ao longo desse período, passou pelo choro, pelo jazz, pelo violão erudito latino-americano e por diferentes experiências de palco e estúdio. O integrante do grupo Os Amanticidas, já se apresentou ao lado de artistas como Juçara Marçal, Ná Ozzetti, Luedji Luna, Liniker, Maurício Pereira, Di Melo e Suzana Salles, além de ter gravado com nomes como Tom Zé, Jaques Morelenbaum, Toninho Ferragutti, Arrigo Barnabé e Alzira E.


É a partir dessa trajetória múltipla que surge seu primeiro álbum. Gravado no primeiro semestre de 2026, no estúdio IMÃ Criação Musical, em São Paulo, Despencando reúne oito faixas para violão de 7 cordas solo, todas compostas por Luca ao longo dos últimos anos. A produção musical é de Swami Jr., enquanto Thiago Abdalla assina a mixagem e a masterização.


No disco, a experiência de Luca com o instrumento no choro encontra a formação jazzística e o repertório do violão erudito latino-americano. As referências não aparecem como fronteiras, mas como pontos de encontro para uma música que reverencia os mestres do violão brasileiro ao mesmo tempo em que procura caminhos próprios. O instrumento, tradicionalmente tão ligado ao acompanhamento no choro, assume aqui o centro da narrativa e conduz sozinho as oito composições.


Despencando nasceu de uma queda literal, mas acabou simbolizando um movimento muito maior na sua vida. Em que momento você percebeu que aquele episódio poderia se transformar também em uma espécie de ponto de virada artística?

Foi um momento bastante caótico da vida, então é difícil dizer com precisão o momento, mas acho que logo que aconteceu eu já entendi que seria um período de muita transformação, de repensar a vida de uma forma ampla. Como boa parte dessa vida já era dedicada aos projetos artísticos, a consequência natural foi isso tudo também muito rapidamente virar um ponto de virada artística.


Você conta que, diante da possibilidade de uma notícia ruim sobre sua saúde, decidiu terminar músicas e deixar partituras prontas “caso a notícia fosse ruim”. O medo da finitude mudou a maneira como você passou a enxergar suas próprias composições?

Acho que sim. Acho que passei a olhar com mais carinho pra elas. As músicas estavam lá, carregando um pouquinho de tudo o que eu vivi na música, mas a maioria estava inacabada, a maior parte só na minha cabeça, sem nenhum registro, ou seja, à mercê do esquecimento. Então era uma parte importante de mim que eu não estava cuidando, sabe? E acho que foi um momento de me voltar afetuosamente para isso, acreditar nelas, entendê-las como uma síntese da minha vida musical até aqui. 


As faixas do álbum foram compostas ao longo de alguns anos. Ao revisitar materiais de momentos tão diferentes da sua vida, você encontrou um Luca diferente em cada composição ou existe uma narrativa que atravessa todas elas?

Nossa, de fato foram feitas nos últimos cinco ou seis anos, da pandemia pra cá. Na verdade sinto que esses anos passaram muito rápido, pra mim parece 2021 foi ontem, então na verdade sinto que são músicas que traduzem bem o momento de agora. Eu vejo essa narrativa uniforme, digamos assim. Mas por outro lado tem um aspecto sim, as vezes, eu tocando as músicas, penso que negócio trabalhoso (hehe), esse cara tava com tempo pra compor, então de alguma forma, eu olhando pra essas músicas encontro um Luca com mais tempo livre. 


O título Despencando também parece carregar uma ambiguidade: cair pode significar perder o controle, mas também pode ser uma maneira de sair de um lugar onde já não se deveria estar. O que essa palavra significa para você hoje, depois que o disco está pronto?

Pra mim, uma imagem que traduz um pouco essa ambiguidade é a do arco e flecha, aquela coisa: tem que puxar pra trás, pra flecha se projetar para frente. Eu acho que também tem essa perspectiva que as coisas não são definitivas, nem simples, os reflexos do que acontece agora, alí na frente podem ser outras coisas, essa dimensão pluri-vetorial dos eventos da nossa vida. Mas acho que essa palavra traz essa violência também se alinha com uma pegada meio de rock, metal, acho que esse universo não é referência direta do disco, mas me habita, e muitas músicas tem esse peso também, sabe? Então acho que Despencando também é isso pra mim, é sobre tensão, sobre peso, desconforto e peso.


"Foi com essa cabeça, de medo de morrer, medo de sentir qualquer emoção que pudesse mexer com o coração, angústia e ansiedade, que eu peguei várias das músicas que estavam inacabadas, terminei e escrevi partituras pra se caso a notícia fosse ruim eu já tivesse deixado alguma coisinha por aqui."

O que o violão de 7 cordas permite dizer que talvez não pudesse ser dito da mesma maneira em um outro instrumento como, por exemplo, o violão de 6 cordas? Aliás, existe uma relação entre a extensão do instrumento e a maneira como você pensa na composição?

A minha composição é muito tátil, não sei se serei capaz de explicar isso. A gente acaba estudando muito harmonia, acordes, escalas e arpejos, mas na hora de compor, se eu tento me valer dessas coisas de forma racional, a música parece que não tem alma, sabe? Isso acaba complicando a vida, porque eu acabo necessitando de uma certa inspiração, principalmente para conceber um embrião de música, pra começar a compor. Eu sou uma pessoa muito cética na verdade, mas na hora de compor talvez seja o momento que eu seja menos cético, pra mim é algo como colocar a mão no instrumento, com tempo pra deixar isso fluir, e deixar ele me dizer os caminhos. Então sim, a minha música se não fosse um sete cordas seria diferente, se não fosse o tampo de pinho, com essas dimensões específicas, com essa extensão de tessitura, certamente seria bastante diferente.

O 7 cordas é muito associado ao acompanhamento e às baixarias no choro. Ao colocá-lo sozinho no centro de um disco, você sente que está deslocando um instrumento de sua função mais conhecida?

De fato é muito associado, mas ao mesmo tempo a gente tem grandes figuras do sete cordas, que além do trabalho como acompanhadores em contexto de regional de choro ou samba, também atacam de solistas, o caso maior é o Raphael Rabello, que é uma grande referência, um músico explosivo e encantador. E também tem toda a galera que ele influenciou nessa pegada do 7 solo, como o Marcelo Gonçalves, o Rogério Caetano, a Paola Picherzky, o João Camareiro, entre muitos outros. Acho que hoje não soa mais um deslocamento, talvez na época do Raphael soasse. 


Há uma reverência aos mestres do violão brasileiro no seu trabalho, mas também uma vontade declarada de buscar caminhos inusitados. Como reverenciar uma tradição sem transformar essa reverência em obrigação de repetir o passado? Seu trabalho parece partir de uma pergunta interessante: até onde é possível experimentar sem romper completamente com a tradição? Existe um limite que você procura ultrapassar?

Nossa, essa é difícil de responder. Eu tento ser desimpedido na composição, acho que isso é importante até pra não cair naquela coisa racional, sabe? Eu acredito que pra reverenciar de uma forma legal, é importante você conhecer o terreno que você tá pisando, fazer a proposta de transformação, com compreensão da linha do tempo das coisas que foram produzidas nessa mesma área antes de você. Pra mim é um pouco por aí, estudando bastante como os antigos faziam, João Pernambuco, Dilermando Reis, Canhoto (Américo Jacomino), Armando Neves, depois vendo como os sucessores deles foram propondo transformações, como a obra do Garoto, do Bola Sete, do Laurindo de Almeida e ainda como o Guinga, o Marco Pereira, o Sérgio Assad, a Elodie Bouny e outros compositores vivos tem processado o estilo dos mestres que os antecederam. Acho, então, que a gente tendo esse aprofundamento dos processamentos que a música foi passando em cada período, pelas mãos de cada uma dessas figuras, deixa a gente mais a vontade pra conseguir propor coisas diferentes sem romper com essa linha. Mas também pode ser que tenha gente que ache que eu estou rompendo, e gente que ache que estou dando continuidade, vai depender do ponto de vista sempre. No fim acho que eu não quero romper com nenhuma linha específica, só quero misturar as coisas diferentes que eu vivi na música e isso é quase sempre inevitável, quando a gente compõe disponível para o que pintar.


O disco é inteiramente instrumental. O que a ausência da palavra permite que você diga e o que ela dificulta dizer?

Acho que o mais legal da música instrumental é que as interpretações e escutas podem ir pra caminhos completamente diferentes. Eu posso até mirar numa narrativa, mas a pessoa pode enxergar na minha música um caminho interpretativo completamente diferente. Em canção isso também pode acontecer quando as palavras dão margem pra múltiplas leituras, mas em geral as canções apontam um caminho um pouco mais claro. Às vezes em música instrumental a gente pode tratar de sentimentos que a gente nem saberia falar ou escrever sobre, coisas muito específicas, isso é muito legal. E quando eu acho que a ausência de letra está dificultando eu dizer alguma coisa eu vou lá e faço uma letra e pronto, tenho uma banda de canção autoral, Os Amanticidas, por lá desovo essas músicas que as palavras brotaram.


Trabalhar como músico acompanhador exige escuta e, consequentemente, colocar o próprio instrumento a serviço da música de outra pessoa. O que você descobriu sobre sua própria identidade musical justamente nesses momentos em que não era o protagonista?

Eu amo acompanhar, acho que minha identidade musical é forjada no acompanhamento, é muito bom se conectar com um cantor, cantora ou solista, pulsar junto, fazer dinâmica, ir decidindo tudo ali na hora, essa experiência da incerteza de como a coisa vai acabar, é bem vertiginoso e é também uma escola!  Eu acho que às vezes eu gosto mais de ver grandes musicistas que eu admiro acompanhando do que solando. No fim foi nesse ambiente que eu me tornei músico então eu diria que descobri tudo nesses momentos.


São 15 anos de estrada até chegar ao primeiro álbum solo. Você enxerga esse disco como uma estreia ou, de certa forma, como o resultado de tudo que aconteceu antes dele?

O resultado de tudo que aconteceu antes. Mas também não exatamente isso, eu diria que é mais um dos meus projetos do coração. Eu gosto de estar inteiro nos grupos que eu participo, então são tão importantes pra mim quanto o projeto solo, me sinto apropriado delas também. 


Depois de descobrir que não havia a obstrução coronária que você temia, você disse que voltou à "vida normal". Mas é possível voltar à vida normal depois de encarar tão de perto a possibilidade de morrer?

É engraçado porque encarei de perto sem encarar materialmente, foi só um falso positivo. Foram semanas de terror até entender que o risco severo de morte súbita não era pra valer e depois de meses de exames e acompanhamentos pra entender o que poderia ter acontecido, no fim foi tudo meio inconclusivo. Foi um período bastante bagunçado, mas de bastante reflexão e sobretudo terapia. Me valendo então de um vocabulário bem pandêmico, acho que deu pra voltar a viver um novo normal depois disso tudo.


Se Despencando é, paradoxalmente, um disco que nasceu de uma queda para colocar a vida em movimento, o que você gostaria que o próximo movimento fosse? 

O próximo movimento por hora é dar continuidade a circulação do álbum, estou preparando uma versão em trio do repertório, com a Ingrid Cavalcanti no baixo e o Matheus Marinho na bateria, pessoas fabulosamente talentosas. Paralelamente meus outros grupos estão com muitos planos também. Então acho que o próximo movimento é continuar trabalhando cotidianamente nessas várias frentes, ir aprofundando pra conseguir acessar espaços que dão melhores condições de trabalho. A minha vida artística infelizmente ainda é muito pouco rentável, a gente acaba precisando reinvestir o que entra pra fazer materiais visuais, vídeos, pagar estúdio, mixagem, masterização anúncios, isso é meio cruel. Mesmo me apresentando com alguma regularidade em lugares de destaque da cidade, como a Casa de Francisca, Centro da Terra, Sescs e centro culturais, e outros, ainda assim o que paga os boletos é dar aula de música. Não tenho muita expectativa disso se transformar estruturalmente tão logo, mas desejo que o próximo momento venha também com alguma melhora nessa parte. 



Luca Frazão na Casa de Francisca

Nesta sexta-feira, 18, Luca Frazão leva seu álbum de estreia à Casa de Francisca. A apresentação acontece às 22h, na Sala B. Garanta seu ingresso aqui.



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