• Michele Costa

Quarteto Pizindim: o choro da Zona Leste

Quando era criança, Pixinguinha recebeu o apelido Pizindim de sua avó, cujo significado é "menino bom". Fãs do mestre (e meninos bons), Claudinho Martins, Emerson Bernardes, Rafael Esteves e Rodrigo Carneiro utilizaram o apelido carinhoso para homenagearem e tocarem os ensinamentos do músico - assim surgiu o Quarteto Pizindim.


Misturando choro, samba e periferia paulistana, o Quarteto Pizindim tem a intensão de exaltar grandes compositores da música brasileira, adaptando arranjos clássicos para o choro. A conclusão da ideia pode ser ouvida nos álbuns "O Som que Vem do Leste" (2016), retrata a origem dos integrantes, e o clássico "Memorando" (2020).


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Como vocês se conheceram e formaram o quarteto Pizindim?

Rafael: O primeiro que conheci daqui foi o Emerson, mas o Emerson já conhecia o Rodrigo, mas acho que o que precisa ser dito antes que acho que fez a gente se conhecer, que fez a gente se encontrar é que todo mundo é da Zona Leste de São Paulo. Por ser da mesma região, não sei se em todas as cidades são assim, mas como a gente tá sempre em São Paulo, sempre funciona, aquele lugar… Por exemplo, Zona Leste, Zona Oeste, Zona Sul, geralmente cria-se ali um grupo de pessoas que se conhecem e que tocam o mesmo gênero [musical]. Então, acaba virando uma turma que todo mundo se conhece porque, tem aquele lance - quando a coisa começa a ficar séria, profissional, se eu preciso colocar alguém no meu lugar, por exemplo, eu preciso conhecer outras pessoas que moram perto de mim e que tocam o meu mesmo instrumento. Então, acaba se formando um grupo de várias pessoas, sei lá, umas 30 ou 40 pessoas, de músicos, uma mini cena naquela zona. A gente tinha muitos amigos em comuns que participavam dessa cena aqui da Zona Leste e esses municípios que fazem todas as divisas. A primeira pessoa que eu tive contato foi o Emerson porque a gente tinha um amigo em comum e a coisa começou quando a gente começou a tocar junto na mesma feijoada lá na Barra Funda, né Emerson?

Emerson: Isso.

Rafael: Só que o que tinha também, acho que ali é o mais importante, era aquela roda de choro que tinha na Unidos de Santa Bárbara, uma escola de samba que tinha no Itaim Paulista. Segunda-feira tinha uma roda ali que era de 15 a 15 dias, eles tocavam lá, mas eu ia lá, aparecia lá para curtir - e aí começou a rolar essa interação entre a gente. É óbvio que no começo do Pizindim também não era o Claudio, era o Koka que participava dessa roda do Unidos de Santa Bárbara - o Claudio entrou depois que o Koka saiu, mas eu acho que o Quarteto Pizindim surgiu ali, na Santa Bárbara - ali foi onde a gente começou a se aproximar mais. Com essas afinidades [que surgiram], a gente começou a querer ter um trabalho juntos.

Emerson: O legal também é que potencializou os encontros que tínhamos após as rodas na casa do Rodrigo, né. Fora os da Santa Bárbara, tinha esses encontros semanais de tocar o dia inteiro.


"O que existe é uma desassistência que é grave. A gente sabe que esse tipo de atividade vai tirar o cara da possibilidade de entrar pro crime, por exemplo. Ele vai pro crime porque ele se deslumbra, não é nem porque ele tem maldade do coração, a maioria das vezes não é, é porque ele não tem outra opção. Falta opção pro cara. O lugar já diz, é um lugar totalmente abandonado. Você compara o centro com um lugar mais afastado, você vê uma diferença grotesca", comenta Rafael.

O que levou vocês a começarem a tocar?

Emerson: No meu caso, foi por conta do meu irmão mais velho, ele já tocava um pouquinho de cavaquinho e foi me despertando. Ele me mostrava os acordes… Lembro que, sempre falei isso para os meninos e também para minha esposa, o cavaquinho veio através de um cunhado meu que morava em São Mateus, ele chegava em casa e mostrava um acorde pra gente… O cavaquinho vinha uma vez por semana, ele vinha todo domingo e segunda-feira tinha que ir embora. Pra praticar, eu pegava o braço, fazia como se fosse o braço do cavaquinho, imaginava o acorde que aprendi e praticava durante a semana. E foi assim, desde então a música tá presente em minha vida.

Rodrigo: No meu caso, foi nos anos 90. [Eu era] adolescente e o pagode estava em alta e eu tinha contatos com a molecada e queria tocar - pegava os instrumentos de batucada, a gente se reunia e era a nossa alegria, fazer uma batucada em frente ao prédio. Fui me interessando… É aquela coisa que o Rafa falou: sobre afinidades. Fui me aproximando por afinidades, fui conhecendo alguns amigos que gostavam - vários daqueles que batucavam no começo, foram crescendo, estudando, foram mudando, fazendo outras coisas -, e eu fui me aproximando cada vez mais da turma do bairro que gostava do que eu gostava. Fui frequentando casas de amigos, conhecendo, até chegar da batucada ao cavaquinho, do cavaquinho pro violão de sete cordas que é o instrumento que toco hoje.

Cláudio: No meu caso, já vem de família, meu avô era pianista, mas de igreja, né; mas eu comecei através do meu irmão mais velho, Marcelinho Monserrat. Eu comecei tocando bandolim, mas não durou um mês [risos]. Aí eu passei para a percussão e pandeiro. Eu comecei tocando tantã, na verdade, e mais atrás, eu fazia sub para um rapaz do grupo Toca do Coelho, um grupo que foi bem famoso. Então, o meu primeiro trabalho remunerado, eu acho que eu tinha uns dez anos. A minha história com a música começou aí. Eu lembro que eu conheci o Rafa na feijoada da Bia, porque acontece muito essa coisa de um ir no lugar do outro, então você acaba fazendo amizade - e foi numa dessas que eu conheci o Rafa. Pra concluir, a gente tinha um grupo, um regional de choro aqui em casa, né, que era o Marcelo, Ricardo, Nando e eu…

Rafael: Os quatro irmãos.

Cláudio: Os quatro irmãos. Inclusive, teve vezes que o Rafa já fez sub pra gente… Então, o meu começo foi basicamente aqui em casa.

Emerson: Isso que é referência, hein?! Todos os irmãos tocando pra caramba.

Rodrigo: Nasceu em berço de ouro. [risos]

Emerson: Isso aí é ganhar com a megasena acumulada.

Rafael: A minha referência de tocar foi o meu pai. Meu pai era músico amador. Eu sou o filho caçula do meu pai - quando eu nasci, ele tinha 47 anos, então meu pai já era bem velho quando eu nasci, era um cara maduro. Meu pai gostava muito das músicas antigas, as músicas da época dele, então, ele colocava pra escutar as músicas e eu criança ouvia. Ele gostava muito de música regional, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves - quem gravou esses caras naquela época era os regionais de choro, né? Então desde criança eu ouvia essas músicas que tem violão de sete cordas, cavaquinho, pandeiro; meu pai gostava muito de música mexicana, ele era filho de espanhol… Eu cresci em casa ouvindo essas coisas. Acho que isso favoreceu para eu gostar desse tipo de música regional. O meu irmão também cresceu ouvindo, mas por incrível que pareça, meu irmão é roqueiro… Eu fui pro lado do meu pai e ele foi vendo que eu gostava e aí ele começou a me incentivar. Ele foi a minha primeira referência, foi minha abertura. Quando eu tinha 10 anos, ele comprou um cavaquinho, já que é um instrumento pequenininho, é melhor para uma criança de dez anos, foi aí que a coisa desembestou mesmo.

O que me chama atenção é que vocês começaram muito cedo. Queria saber o que mudou, daquele tempo para hoje - principalmente na cena do choro, continua sendo elitista?

Rafael: A questão do choro, pelo menos pra mim, porque também precisa ver como o choro começou na vida de cada um… O choro começou em casa, óbvio, meu pai gostava dessas músicas antigas, mas quando eu comecei a sair pra tocar com 15 anos, eu não conhecia ninguém que tocava choro, ainda mais onde moro que é uma região mais periférica, um pouco mais afastada do centro; o que tinha aqui era pagode, o que eu via tocando, e eu tocava cavaquinho e o cavaquinho tava inserido no samba e no pagode - eu não conhecia quem tocava choro. Aí eu conheci um cara, que é padrinho da minha filha, que se interessou pelo choro, porque ele via que eu ouvia aqui em casa e aí ele começou a gostar e a gente começou a tocar choro juntos. Profissionalmente, eu tocava samba e pagode, quando eu comecei nos 15 anos, né. Aí quando eu tava com mais ou menos uns 21 ou 22, comecei a tocar no Hotel Ibis, no centro de Guarulhos, comecei a tocar choro e foi aí que comecei a conhecer o pessoal do choro mesmo. Quando eu conheci o pessoal do choro… A gente via uma abertura do pessoal, mas sempre teve essa coisa do elitismo, sempre via… Talvez uma coisa separada de qualquer tipo de música - o choro tem muito isso: o pessoal quer ser separado, não quer se juntar com ninguém. Eu acho isso errado, porque se você for ver esse tipo de música que foi pra mídia, que foi pro rádio - independente da questão musical -, mas é um tipo de música que levou essa instrumentação para TV por exemplo, as pessoas conhecem o cavaquinho porque esse tipo de música levou o cavaquinho para a TV. Mas as pessoas… "Não, somos pessoas extremamente inteligentes." Até certo ponto acho que tá tudo bem, você vai querer consumir coisas boas, mas ser isso ao extremo, totalmente… Isso pra mim é uma limitação e isso trouxe dificuldades pelo menos pra mim. A verdade é que eu me inseri nesse meio… Acho que são vários fatores, mas um dos fatores é a questão temporal. A maioria das pessoas do choro carrega ainda aquela coisa de querer se vestir que nem nos anos 50, com aquelas roupas que tem o suspensório - tudo bem se você quer fazer uma festa temática, mas o cara quer ir hoje… Eu não consigo me inserir nesse padrão. Parece que o pessoal precisa reafirmar isso e precisa tá sempre separado - isso transforma, talvez, em um movimento muito elitista. Tem outras coisas que podem serem ditas, mas acho que essa seja uma das principais. Esse preconceito de carregar com o que é mais popular, com o que o povo conhece… O choro quer ser desconhecido mesmo, é o que parece… Aí o mercado daquela música não funciona, o dinheiro não vem…

Cláudio: E tem a região: aquela coisa de quem tá no centro só fica com esse pessoal e quem tá nos extremos, não toca choro. Parece que o choro foi inventado lá em Pinheiros, Vila Madalena, sendo que não é, né.

Rafael: É. Acho que o que tô tentando dizer aqui talvez represente o que todo mundo vive, essa coisa da inserção do mercado. Há uma dificuldade de se inserir em certo ponto nesse mercado por causa disso… É um movimento que se conversa pouco, por mais que tenham grupos… Não sei, fica na mão de poucas pessoas, talvez. A gente precisa ser mais ativista nessa parte, falar mais, se posicionar mais. Essa máquina, que existe uma máquina que funciona pelo choro, tá na mão de poucas pessoas e essas pessoas estão mais preocupadas com elas e com o trabalho delas. A gente ouve bastante falar sobre democracia, mas basicamente é "minha democracia", é o que eu vejo. Não quero ser injusto também, vejo uma preocupação, mas tinha que ter uma maior abertura, a coletividade tinha que ser maior… Apesar de eu achar, comparado ao passado, hoje tá muito melhor, mas poderia estar melhor.

Rodrigo: Eu acho que o período do Clube do Choro na gestão do Haddad, quando ele tava no poder, funcionou muito legal, porque ele destinava uma verba - era um projeto meio pessoal -, ele dava uma atenção porque ele gosta e julga ser importante e o Clube do Choro refletia isso. Ficava um pouco mais democrático, porque existiam as datas, as rodas, misturavam-se pessoas - tinha gente daqui da zona leste e ia um solista lá do centro, o cara de Pinheiros; tinha a roda e as pessoas rodavam ali. Depois que passou isso, trocou a gestão, passou a não ser prioridade mais para máquina pública. Isso ficou mais difícil e voltou a ser próximo do que era, cada um vai com o seu, a gente se encontra lá, dá um alô na internet e toca o barco. Cada um vai no seu. Tem também esse lance da distância, a gente por ser um grupo periférico, sempre distante, a gente se encontra quando vai fazer trabalho para o lado de lá, cada um vai com o seu, muito pouco vamos como nosso trabalho [o quarteto]. Esse acesso voltou a ficar mais difícil depois que o Clube do Choro perdeu essa força que o poder público ajudava acontecer, que tinha uma sede no Teatro Arthur Azevedo e aí voltou a espalhar novamente, voltou meio que "vai resolvendo por aí que depois a gente vê" [risos].

Emerson: Eu lembro também Michele, na época que eu comecei a tocar choro, meados de 2002 ou 2003 - foi aí que conheci o Rodrigo - através da Usina de Ideias, uma oficina de choro que acontecia no Sesc Itaquera e foi ali que [tinha] o choro do pessoal que morava na periferia, de se encontrar, de estudar… Foi ali, de fato, que eu consegui entrar no movimento do choro, conhecer a linguagem do choro e a partir daquilo ali, Orquestra do Sabichoro que com esse trabalho, a gente conseguiu circular - por mim, eu não chegaria tão cedo de tocar num Sesc da vida, de fazer uma viagem através do choro. Então, devemos muito a esse projeto da periferia que aconteceu nessa época aí.

Rodrigo: Mais uma vez, o poder público… Esse projeto era uma emenda parlamentar que através do Everson viabilizou oficinas com músicos consagrados. Através dessa oficina, vários músicos que tão aí no cenário fez parte desse movimento.

Rafael: Então, a gente chega a conclusão que o movimento do choro precisa de incentivo do poder público. O choro por si só não vai caminhar porque tem essa característica elitista da coisa "cada um se vira aí", não tem essa união que a gente vê em outros coletivos. O coletivo do choro é muito liberal. Acho que isso vai demorar para acontecer, por exemplo, essa geração nova, a geração que tá acontecendo do choro, do jeito que eu tô vendo, não vai acontecer nada. Vai ter que vir novas gerações, ver se elas vão querer que isso realmente aconteça, que quebre essa bolha. O que a gente chegou a conclusão, refletindo aqui, foi que se não houver essas leis de incentivo, se não tiver um investimento do poder público na questão da cultura, o choro não vai caminhar por si só - vai caminhar, mas cada um dentro das suas bolhas.


"O governo do Bolsonaro para cá é ladeira abaixo, voltou bem próximo dos tempos lá de trás, bem ruim. Pelo menos da onde eu cresci, somos acostumados a administrar essas crises e torcermos para que o futuro venha coisas melhores, que volte os investimentos na cultura para que projetos aconteçam para que essa música volte a chegar na periferia, que as crianças e os jovens tenham acesso à esse estudo para que esse estilo nosso continue tendo esse pequeno espaço que tem e que ele aumente. Você vê na periferia que o cara toca, mas ele não tem espaço, porque também não tem um estudo pra poder fazer parte daquele setor. Os caras que tem esse estudo conseguem entrar nos núcleos por conta de... São exceções" diz Rodrigo.


Vocês conseguem ter um olhar para o futuro, alguma esperança para que as próximas gerações se interessem também pelo choro?

Rodrigo: Eu acho que sim e tem que começar a partir da gente. A gente tem algumas ideias, a gente já conversou e por conta da pandemia não tem muito plano de quando isso sai do papel, mas eu acho que sim - a gente tem que fazer isso que a gente sente falta, fazer diferente, fazer o contrário: se juntar com pessoas que estão chegando, dar força, jogar luz para que essas pessoas ganhem forças e quando elas estiverem em outro patamar, ajude outras pessoas.

Rafael: Eu iria mais longe: tem uma lei de 2008, assinada pelo Lula, que é uma lei que institui a obrigatoriedade de música nas escolas e essa lei não é praticada. Acho que se houvesse uma maior preocupação, essa questão de colocar até a música brasileira na escola… Não falo nem sobre o choro, mas da música do Brasil, as pessoas saberem que foi o Pixinguinha…

Cláudio: Ritmos, né. Não achar que funk é um ritmo, sendo que por trás do funk…

Rodrigo: Como cultura, não somente como entretenimento.

Rafael: Exatamente, a pessoa conhecer isso… Acho que aumentaria a nossa identidade como cidadão brasileiro.


"Se não fosse esse acesso que eu tive lá atrás, eu poderia tá morando em São Mateus, tocando o meu cavaquinho, sem conhecer o Rafinha, o Rodrigo, sem conhecer o Claudinho, ia ser mais um músico do bairro que aprendeu cavaquinho ali e ia ficar naquele nicho ali. Se não fossem esse acesso que eu tive lá atrás… Agora, imagina quantos Emersons tem na periferia, quantos Rafinhas tem na periferia, quantos Claudinhos tem na periferia, quantos Rodrigos tem na periferia que querem esse acesso e não tem ninguém para estender a mão pra ele. Falta isso bastante na parte periférica; quem tá em cima, pegar a mãozinha lá embaixo", ressalta Emerson.

O nome é inspirado no apelido que Pixinguinha recebeu da avó. Como surgiu esse nome? Pixinguinha é uma inspiração para vocês?

Rodrigo: A gente ficou um tempo buscando, tentando vários nomes. Tem vários grupos com nomes de músicas, inclusive do Pixinguinha… No fim, a gente acabou chegando numa lista que chegou nesse nome. Eu li um livro recente do Pixinguinha que desmente um pouco, que é quase uma lenda, sobre esse lance da avó - mas a história é boa e a gente gostou do nome e adotou pra gente. Acho que pra todos, não só pra turma do choro, mas a turma do samba e que deveria ser para todo músico brasileiro, Pixinguinha tem uma importância gigantesca! Acho que foi um dos primeiros arranjadores, maestros, da era do rádio que tem carteira assinada… Pra gente é um privilégio ter alguma ligação com esse nome, porque ele é uma referência muito grande.

E quais são as outras referências?

Rafael: Dona Ivone Lara…

Rodrigo: É muito forte o lance do samba…

Cláudio: A tocada da zona leste pra zona oeste pra zona sul é diferente, o swing é diferente. Como o pessoal aqui, a maioria toca samba, então vem no DNA do grupo; tem esse swing, esse balanço. Não é um balanço nem melhor ou pior, é um balanço diferente.

Rodrigo: A gente toca bastante coisas do nosso repertório que são sambas. A gente grava de forma instrumental um samba da Dona Ivone Lara [ruído na gravação] e vários outros - a gente gosta de ter isso no nosso repertório, que faz a gente chegar mais próximo do público. Eu cheguei, acho que a grande maioria aqui, no choro instrumental através do samba.

Como que acontece a escolha do artista que vocês vão adaptar?

Rafael: A gente pega músicas que a gente gosta mesmo. Aí a gente toca, experimenta aquilo, vê como soa e dependendo de como soar… Já aconteceu de escolher uma música e não dar certo. É muito diferente uma música cantada para uma música solada, uma música instrumental. A gente tem o gosto bem parecido, algumas diferenças, mas tá tudo mesmo no mesmo lugar.


"Se você esconder mais o povo da periferia melhor, essa é a sensação que dá", comenta Claudio

Quando foi o momento que vocês perceberam que queriam gravar um álbum? Teve algum momento específico ou sempre teve essa ideia?

Rafael: Acho que quando a gente montou, a gente já pensava em ser um grupo que trabalhasse nos locais que toca choro, que tocasse na rede Sesc, que fizessem shows…Pra chegar nesses lugares, você precisa ter um trabalho gravado, um portfólio, um release e a gente pensou sobre isso, começamos a pensar sobre isso.

Rodrigo: Gravasse as próprias músicas… O grupo começou a [se] organizar para andar [depois] daquele Festival Jorge Assad, foi importante de tá naquele cenário. A gente venceu e parte do dinheiro que a gente ganhou, investimos no grupo, disco, várias coisas aconteceram depois daquele festival.

Rafael: A gente ganhou um festival em primeiro lugar e os caras que tavam lá eram uns caras muito bons! A gente tava em um nível de autoestima tão baixo na época como um grupo que a gente falava "a gente vai ficar em último" - e quando foram anunciando, eles foram anunciando do último para o primeiro… "Caramba, a gente ficou em terceiro" aí anunciaram o segundo e a gente ficou "caramba, a gente ganhou!".


"O Som que Vem do Leste" foi o segundo álbum de vocês, mas lançado como o primeiro. Queria saber um pouco mais dessa história, já que o primeiro ficou guardado por mais um tempo…

Rafael: Esse disco a gente quis trazer… Acho que foi mais um disco de entrada para o cenário, tanto que a gente pegou composições de compositores já consagrados de São Paulo, mas tem músicas nossas também. A ideia era misturar o nosso repertório com o repertório de grandes compositores como forma de entrada em um cenário e mostrar o nosso som - por isso que se chama "O Som que Vem do Leste", que entra nessa coisa que o Claudinho falou, do choro mais periférico, que não é igual do choro… São coisas diferentes, existem outras influências. É até engraçado porque aquela capa é inspirada na Avenida Consolação, aquela pessoa que vai pro centro mas volta para a zona leste. Já o segundo disco já foi um disco mais emergencial, foi a coisa da pandemia mesmo.

Como foi revisitar esse disco que tava guardado e dar continuidade a ele?

Rafael: Uma coisa que eu senti é que em cada momento a gente é uma pessoa diferente. Naquela época, a gente gravou e não gostou muito, eu pelo menos não tinha gostado tanto do resultado. Aí, quando a gente foi revisitar o som e como é uma coisa que é antiga… A gente gravou aquilo em que ano, 2014?

Rodrigo: 2013 ou 2014.

Rafael: Então, já era algo que soava antigo, aí eu achei legal! Então, você vê que cada momento você tá numa energia diferente. Achei bem interessante. Aí a gente trouxe o Claudinho para… Porque assim: o disco foi gravado pelo antigo integrante, então a gente colocou Claudinho para gravar outros instrumentos em cima para também deixar a marca dele.


"Se a gente pega aquelas fotos mais antigas do choro, de quando o choro começou a despontar no Brasil, quando começou irar um gênero mesmo, a gente vê que a maioria dos chorões que tinham na época eram funcionários públicos, eram pessoas do povo, imigrantes que vinham pra cá e tinha negros também, uma completa mistura - é por isso também que é uma musica genuinamente brasileira, porque ela é totalmente misturada, totalmente democrática. É um tipo de musica que independente de qualquer coisa de ter essa raiz na musica europeia, tem o lance da música negra também - o samba também tem isso, é meio filho do choro", explica Rafael.

Claudinho, Emerson, Rafael e Rodrigo mostram que são resistências após o gênero musical se tornar elitista. Se depender do quarteto, o choro será levado para todos os cantos, afinal, o som que vem do leste é brasileiro.


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