• Michele Costa

A florescência de Victoria Saavedra

Victoria Saavedra me faz lembrar da poeta Rupi Kaur. Explico melhor: as duas são mulheres, imigrantes, sentimentais e que transformam os ensinamentos da vida em arte. Após um longo e tenebroso inverno (pandemia, isolamento social, perdas, sem dias quentes para dançar), vivendo em seu casulo, as artistas ressurgem para aprofundar as raízes. Tendo o amor como fonte, Victoria ressurge com flores ao seu redor e com os brilhos nos olhos, pronta para celebrar, dançar e amar.


Florescência: ato de florescer.


Preste atenção na capa de "Peripécias": a colombiana, radicada no Brasil há mais de dez anos, está no meio de flores - são essas flores que a cantora e compositora entrega ao ouvinte em seu segundo álbum. Com composições em espanhol e português, Victoria reforça sua potência, além de dar força para a América Latina.


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Você começou a estudar música muito jovem. O que te levou para esse ramo?

Desde criança, criança mesmo, eu sempre cantava. Gostava de pegar a colherzinha de madeira da cozinha e praticar musiquinhas. Eu já cantei ranchera, música infantil, vallenato, música de novela - tudo que eu escutava e gostava eu praticava e de noite eu fazia um show para o meu pai. Fiz isso por uns dois anos, dos seis aos oito anos. Sempre fiz parte do coral da escola e de outro grupo de música também - eu sempre gostei. Então, teve um momento que meu pai falou: "Tá bom, vou botar para estudar", a gente procurou uma escola e desde os 12 anos, estudo e não parei de estudar nunca mais. Passei por algumas faculdades na Colômbia, mas nunca engatava, sabe? Uns 15 anos atrás, o estudo formal da música, na faculdade, era mais para o erudito ou pelo jazz… Teve um momento que me vi forçada a estudar jazz, jurando que era o que eu tinha que estudar, mas não fluía; demorei um tempinho para entender que a música… Onde eu me sentia em casa, no palco, era cantando música latina, música colombiana, regional. As provas de música geralmente tem uma prova prática e você canta uma música livre e umas duas que eles [professores] escolhem, são obrigatórias. A música de livre escolha foi uma das músicas mais legais, foi um arraso, era uma música tropical. O professor já tinha cantado a bola que era esse ritmo que combinava comigo, mas demorei mais dois anos para entender. É muito chão! Depois que a gente estuda e entende, vai soltando medos e tudo, a gente consegue fluir com outros estilos… Tem uma casinha e pra mim é isso: música latina.

Aí foi que você descobriu que queria seguir esse estilo musical? Como foi essa descoberta?

Foi uma coisa muito doida, porque eu já conhecia essas músicas do pacífico… Aí uns amigos, que por acaso, falaram: "Vic, preciso de uma cantora para semana que vem, você canta?". Sempre muito tímida, [respondi] canto. Então, ele falava: "canta essa melodia" e eu cantava, "canta uma oitava acima"... "Você não quer cantar semana que vem?" Eu mesma nunca tinha cantado em show, a não ser nos recitais da escola onde tinha estudado música. Quando eu tava estudando para esse show… Era muito mais fácil do que estudar para um solo de jazz, fluía muito mais. Era prazeroso estudar. Na barriga [movimenta as mãos em frente a barriga, dando entender que são borboletas], você sente que vai dar tudo certo. Depois me chamaram para fazer parte de um grupo de pesquisa que virou uma banda, depois outra, depois eu vim pra cá… É isso que me chama, me inspira. Eu componho muito a partir do ritmo e sempre penso em ritmos que me remetem a cultura dos tambores principalmente, música afro. Às vezes, a gente acha que é muito mais difícil, mas [é preciso] seguir o que já está na gente.

Cantar esse gênero, além de fazer parte do que você é, tem o objetivo de contar as raízes?

Acho que nunca foi uma coisa pensada, hoje em dia já penso mais. Acho que tá na alma da música, da voz, não tem como não dizer não. As minhas músicas tem uma mistura de muitas coisas, mas quando se canta músicas regionais mesmo, não tem como não… Esses jeitos de cantar vem de umas tradições da cultura afro, das mulheres no rio, das mulheres limpando, mulheres trabalhando com crianças em cima… Um momento de descanso, de deixar sair uma coisa que é um momento de libertação, de descanso. Então, esse jeito de cantar é se colocar no mundo - foi o jeito que eu aprendi. Uma vez no festival Petroneo Alvarez, de música tradicional, eu era cantora principal da banda, e estávamos participando de numa categoria tradicional, mas éramos da cidade de Bogotá e era muito raro de uma banda de Bogotá participar nessa categoria, a gente tava sendo mal visto inclusive, até porque, boa parte da banda eram brancos. A gente tava ensaiando no hotel e chegou uma Mestra, uma senhora, que pergunta: "quem é a cantora?" e eu com 18 anos, pequenininha… Ela fala: "quero escutar a menina" e aí começa… Esses cantos, de alguma forma, a sua voz tem que ser escutada em cima de dois bumbos, dois atabaques, uma marimba e geralmente três zanzas - então, você tem que aparecer, a técnica tem que estar super firme. Terminei de cantar e a mulher falou: "você canta bonito, mas não tá cantando com o corpo" - bugou total! Acho que a gente ficou passando a música por uma hora e era isso: cantar com o corpo. Até isso fazer sentido no meu corpo… Acho que foi uma das melhores aulas de canto que eu tive na vida [risos]. Cantar pra mim é isso: é uma entrega completa, mente, espírito e corpo.


Como é ser cantora feminina nos dias de hoje? Como é ser cantora no Brasil?

É uma coisa que… Acho que está caindo muitas fichas hoje em dia. Eu tô retomando aos poucos os trabalhos… Ser cantora estrangeira, ser cantora latina, de outros lugares da América Latina, eu sinto que não é tão fácil, principalmente - é um sentir meu - por essa distância que rola entre o Brasil e o resto da América Latina. Eu não tenho mania de ir procurar a colônia de colombianos para me sentir em casa, eu [] vou [vivendo]. Sempre escutei como eu era corajosa e pra mim, isso nunca fazia sentido. Passou o tempo e acho que até agora, depois de muitas peripécias, eu tô entendendo o que rolava na cabeça das pessoas e o que elas estavam dizendo. Eu não me entendia como imigrante, na minha ingenuidade, eu tava fazendo o que eu queria fazer. Então, pra mim, não tinha coragem naquilo. Hoje, eu entendo que precisa de muita coragem para fazer o que você quer! Me vendiam como uma artista imigrante, isso é uma das coisas que eu sou, porém, eu não posso ser apenas vendida como uma cantora só colombiana, só imigrante. Primeiro que tem um preconceito com a palavra imigrante, sinto que tem uma coisa discriminatória. Sou compositora, além de ser cantora, e não é porque eu não estou cantando músicas da Shakira que eu não tô representando a Colômbia. Eu não tenho como não representar a Colômbia. Por mais que o meu sotaque melhore ou por mais que eu cante uma canção em português, não tenho como tirar isso e não tenho nenhum interesse nisso. Não é fácil, mas acho que estou ganhando mais argumentos, estou ganhando mais entendimento de tudo que quero e porque quero. Como mulher e artista, preciso ser respeitada.


Aproveito e te pergunto: quais foram as mudanças da Victoria que começou, que vem para o Brasil para estudar e a Victoria que está conseguindo ver pontos que não enxergava antes?

Primeiro: me descobri e aceitei que queria compor, isso já foi um passo. Eu tinha vergonha de mostrar minhas músicas, porque quem era eu para escrever?! A gente escuta nas músicas uns poemas, uns textos super lindos… Pelo amor de Deus! Liguei para o meu pai e perguntei o que ele achava [de gravar um disco], ele pulava de alegria, de felicidade e falava: "eu só tava esperando que um dia você me falasse isso". Primeiro foi aceitar que eu queria, né? Acho que uma das principais coisas ao longo dos anos, estando longe e na carreira, é o entendimento de fazer o que você quer, o que vibra, o que você tá sentindo - é importante. Demora para processar, é tão difícil, mas eu quero! É o que dá força. Acho que foi isso que eu continuo com os anos. Esse eu quero é importante, não é sobre ser mimado, é sobre o que você necessita. Tenho ganhado também muita força, acho que é por estar longe. A minha relação com a saudade, com família, minha relação com afetos, eu diria que é uma relação muito saudável; não me sinto sozinha, tenho construído uma família muito grande, além da minha família de sangue - me sinto amada! Uma coisa que tá muito clara [pra mim] é que eu sou amada. O que me mantém nesse mundo, depois de perder a pessoa mais importante da minha vida, o único que me mantém neste mundo e ainda não ter desistido é o amor. Acho que quando eu fui crescendo, essa bolha de amor - e mesmo com toda tragédia que existe neste mundo -, existe essa partezinha que eu quero estar.

Esse amor que você pretende passar com as suas músicas?

Sim, sim. Esse amor vem muito veiculado pra mim, escutando meus dois discos, é sobre pertencimento. Amar de alguma forma é sobre pertencimento. Quando você se sente parte de alguma coisa, você se fortalece - o amor é sobre isso, é sobre pertencer. Se sentir em casa. Não sei muito bem sobre definir, mas me sinto relaxada, sinto que estou [pertencendo].


Você fala muito sobre a América Latina. Qual o significado dela para você?

Pra mim é muitas coisas. Primeiro é força, muita força. É uma imagem, principalmente... A gente tem uma história tão trágica e só continua sendo trágica, se repete, se repete.. Mas somos muitos fortes, muito alegre, temos vontade de estar, sabe? Essa força de querer estar., apesar de histórias tristes, difíceis... Acho que a América Latina é uma potência cultural, musicalmente, artisticamente. É cheia de diversidade. A América Latina é bonita! Eu tenho muito amor, muito orgulho de ser latina. A América Latina é força.


Quando você descobre que tem esse lado para compor, você cria "Remanso Entre Raízes", seu primeiro álbum. Como foi o processo?

Esse primeiro disco foi muito louco [risos]. Um dia, eu acordei falando que queria fazer um disco, mas não tinha ideia que tinha que contratar um designer, um fotógrafo… Uma das coisas que eu aprendi com a vida, tenho dificuldade de pedir ajuda, então, tá tudo rolando na minha cabeça, aí graças a Deus alguém me escuta e diz: "você precisa contratar isso e isso". Eu só conseguia pensar na parte musical, então contratei os músicos, chamei o produtor e o arranjador, que me ajudaram a procurar estúdio e essas coisas. Eu adoro gravar, sempre soube que gostava muito de gravar, mas aí ficou muito claro. Por ter sido o primeiro disco e por não saber os passos que eu tinha que dar, foi um pouco estressante, porque eu gostaria de me dedicar só a parte musical, das letras. Faço o orçamento, mas também me jogo [risos]. O tempo inteiro, eu tava assustada, principalmente, porque eu descobria uma coisa nova todos os dias. O "Peripécias" foi um pouquinho mais leve por outras coisas, mas mesmo assim. Acho que cada coisa traz o seu peso.

Tenho um carinho muito grande por "Remanso". Eu acabei de gravar ele e eu não queria mais ouvir ele [risos]. Eu já tava cansada dele [risos], mas ele rodou bastante.



"Remanso Entre Raízes" foi lançado em 2017 e agora, alguns anos depois, você está lançando "Peripécias". Há um grande espaçamento entre um e outro. Esse tempo foi necessário para criar o novo álbum?

Meu Deus! Foi tudo isso já? [risos] Quando eu tava fazendo shows do "Remanso Entre Raízes", no palco tinha muita necessidade de ir um pouco mais. O "Remanso" é um pouquinho com contemplativo, dá para dar uma dançadinha com a cabeça, mas não tem essa explosão, não dava para pedir mais. Então, eu já estava com uma necessidade no palco de mostrar essa parte que é tão minha. "Peripécias" é isso: a necessidade de colocar o outro lado da Victoria. Depois que ele foi gravado, ele foi finalizado no dia 13 de março de 2020 e a ideia era para o disco ter sido lançado em julho de 2020, mas tudo aconteceu… Esse disco é muito importante para eu estar aqui hoje, se ele não tivesse sido finalizado, talvez eu não teria retomado minha carreira como cantora, porque no meio da pandemia eu perdi meu pai e meu pai é a pessoa mais importante da minha vida, ele sempre apoiou a minha carreira. Depois que o meu pai foi embora, eu não conseguia mais cantar. Mas o disco, era uma responsabilidade também com ele, que tava ansioso… Dar um passo na minha carreira para movimentar, doía muito. É uma dor que eu não sei descrever. O dia que eu sentei e escutei o disco todo, no começo desse ano, eu só conseguia chorar! Parecia que as letras que eu escrevi eram para serem ouvidas, para ganhar força.

Me parece que a música ganhou um novo significado pra você. Teve um novo significado?

Sempre quis fazer música, mas acho que o meu querer ficou mais claro. [A música] é um jeito que eu tenho de estar no mundo, é a forma que eu tenho de me comunicar - e o que eu quero da vida é me comunicar. É muito forte, eu ainda estou elaborando e dando um tempo para me fortalecer um pouco mais para eu estar mais presente.


Agora sim, a gente fala sobre "Peripécias". Queria que você explicasse um pouquinho sobre o significado do nome e como foi voltar para a música e criar um álbum dançante.

Menina, eu fiquei fazendo listas de nomes para o disco, porque eu queria que tivesse um significado em português e espanhol. "Peripécias" foi o primeiro que surgiu e esse nome só foi ganhando mais peso ao longo do tempo - é uma pandemia, atraso de cronograma, grana, o papi vai embora, eu paro… Não podia ter o melhor nome! Eu acordei com esse nome na cabeça porque eu queria falar sobre afetos, sobre pertencimento, sobre latinidade, pra mim, tudo isso envolve muitos movimentos, muitos saltos, muitas quedas, muitas aventuras. Viver é isso, né?


"Peripécias" é dançante. Você já tá preparada para o público dançar com você?

Tô super preparada! O disco é dançante, porque eu pensei no público e em mim, porque eu preciso dançar!


Em "O que o Sol Faz Com as Flores", Rupi abre o livro com um pequeno poema que retrata o renascimento: "as abelhas vieram pelo mel / as flores faziam gozação / levantando o próprio véu / para o grande dia / o sol sorria / - nascer pela segunda vez". Agora que está de volta, viva e cheia de amor para distribuir, Saavedra quer que você dance com ela. Esteja aberto para florescer com Victoria.

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