• Michele Costa

As incertezas e sentimentos d'O Grilo

Publicado originalmente em 1919, "Demian", de Hermann Hesse, aborda a trajetória de Emil Sinclair em busca de respostas sobre o mundo. Ao conhecer Max Demian, um colega de classe precoce e carismático, o jovem se rebela contra os costumes do tempo e embarca em uma jornada de descobertas. Trinta e dois anos depois, em 1951, J. D. Salinger lançava "O Apanhador no Campo de Centeio", obra que mudou uma geração. No decorrer das 205 páginas, o estudante Holden Caulfield reflete sobre tudo o que (pouco) viveu, compartilhando sua peculiar visão de mundo, além de tentar encontrar alguma diretriz para o seu futuro. Os dois escritores retrataram o universo da juventude que conta com amores, desilusões, descobertas, frustrações - ou seja, a loucura de ser um jovem.


Corte para a atualidade: a geração não é mais a mesma, mas o jovem continua passando pelas situações que Hesse e Salinger abordaram em seus livros. Inclusive, a banda O Grilo, quarteto composto por Felipe Martins, Gabriel Cavallari, Lucas Teixeira e Pedro Martins, transforma suas angústias e incertezas em músicas. "Sofia", segunda canção do EP "Herói do Futuro", lançado em 2017, descreve muito bem o processo de crescimento: "Sempre tente enxergar além / Do que é fácil ver / Não é preciso imaginar / Quando pode apenas ser / Deixa a vida acontecer / Alguns dentes vão cair / Desafios vão surgir / Mas isso é crescer".


Quatro anos depois, o álbum "Você Não Sabe de Nada" (Rockambole, 2021) surge para aprofundar as questões existenciais, mas de uma maneira mais leve. Composta por 13 faixas, passando por diversos gêneros musicais, VNSDN celebra as incertezas e conquistas que um indivíduo é capaz de alcançar.


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Vocês estrearam com o EP "Herói do Futuro". Cinco anos se passaram desde o lançamento. Quais foram as principais mudanças que O Grilo passou?

Sobre as principais mudanças… Tiveram milhares! A primeira mudança foi a de formação [da banda], né. Éramos um quinteto e viramos um quarteto, um dos integrantes foi da guitarra para o baixo, o Fepa entrou na banda, com outras referências, ele veio de Manaus e tem um universo de referências muito diferentes da nossa; acabou enriquecendo muito o som. A banda mudou muito de som… Acho que a gente acabou misturando muitos estilos, pegando influências mais brasileiras, pegando influências que nem a gente imaginava que pegaria, como o carimbó, guitarrada, explorando outros moods de músicas, mais lentas, mais introspectivas. Acho que musicalmente, a banda passou por muitas mudanças. Outra mudança, obviamente, foi ver a carreira musical como realmente uma carreira, um trabalho, que hoje a gente pode viver disso e pensar 100% nisso. Na época [início da banda], a gente ainda fazia outra faculdade, a gente não sabia direito como seria essa entrada no mercado da música, hoje a gente tem um selo apoiando a nossa carreira, trabalhando junto com a gente. A gente tem uma base de fãs bem legal, podemos rodar o Brasil fazendo shows… O crescimento da banda, ao longo desses cinco anos foi muito grande e obviamente a gente começou a encarar a carreira de um jeito diferente.


2019 foi um ótimo ano para vocês: teve a apresentação no Lollapalooza e as aberturas dos shows do Supercombo. Como foi alcançar essas vitórias sendo tão jovens?

2019 a gente costuma falar que foi o melhor e o pior ano das nossas vidas, porque ao mesmo tempo que a gente teve tudo isso, todas essas conquistas, tocar no Lolla, fazer muitos shows, a gente teve que amadurecer muito rápido. Apesar de ser muito legal, foi muito doloroso porque não é fácil amadurecer rápido e na marra. Foi um choque, mas acho que hoje, nós somos mais maduros do que a nossa própria idade diz.


"Você Não Sabe de Nada" foi feito durante o isolamento social. Como foi o processo de fazer um álbum durante esse período e lançá-lo apenas em plataformas? Aliás, a pandemia impactou de alguma forma no processo de criação?

A gente conseguiu se isolar na pandemia para fazer o disco, a gente foi até Limeira, a gente alugou um sítio durante dez dias, a gente se isolou de todo aquele caos que tava rolando na época para se concentrar apenas no disco e fazer essa imersão no processo criativo. Acho que isso fez muito bem pra banda e se tornou um disco que a gente conseguiu se encontrar muito. Lançar [o álbum] na pandemia… A gente vê que não foi a forma ideal, mas ao mesmo tempo, a gente tentou encontrar coisas que a gente poderia fazer juntos a isso, que adicionaria também ao lançamento, principalmente o livro do "Você Não Sabe de Nada" e toda aquela história por trás do Lauro [arquétipo da banda]. Apesar da gente não ter lançado ele em cima dos palcos em 2021, a gente conseguiu lançar junto com o disco um livro que contasse um pouco a história de cada música e as pessoas poderiam se conectar mais profundamente com o álbum.


O álbum aborda amores, desilusões, inseguranças e descrenças, temas presentes na vida do indivíduo. O que levaram a trabalhar esses temas? Como foi o processo de compartilhar com os ouvintes um pouco da história de vocês?

Então, acho que a escolha dos temas foram meio essas, porque é algo que faz parte do cotidiano do jovem brasileiro, digamos assim. A gente acaba indo para lugares, conhecendo pessoas, enfim… Essas coisas sempre tão aí: insegurança, amores, desilusões, acho que foi por isso a escolha dos temas. Sobre compartilhar com as pessoas, acho que foi muito fácil pra gente, porque a gente não tá colocando na letra nada que a gente não tenha experienciado de alguma forma. Acho que são temas muito universais, especialmente pros jovens, né. Acho que é daí que partiu a escolha desse tema - e a identificação do público, tanto com gente e tanto com as letras.


"Você Não Sabe de Nada" é um álbum que viaja pelos estilos musicais brasileiros. Quando vocês perceberam que podiam tocar de tudo um pouco?

Rola uma piada na banda que a gente é uma banda de MPB, Música Progressiva Brasileira, porque a gente é um pouco imediatista com esse negócio de "pô, se a gente fez um verso, o segundo verso tem que ser diferente desse primeiro, que tem ser diferente do segundo refrão. Como é que a gente faz pra dar esse senso de progressão na música?" Aí entrou essa coisa dos gêneros musicais, especialmente brasileiros. A gente é bem eclético dentro da banda e a gente sempre tenta explorar esses lados… Então, vai ter semanas que, sei lá, vai tá todo mundo ouvindo carimbó e de repente isso vai acabar sendo refletido em alguma música. Vai tá todo mundo ouvindo baião, todo mundo ouvindo reggae, parte do fato que a gente é eclético e querer experimentar dentro das músicas; quando a gente viu que rolava fazer isso mesmo e que a galera curtia, aí a gente se permitiu dar uma pirada mesmo.



Recentemente, vocês retornaram aos palcos. Como foi voltar após dois anos parados?

Os retornos aos palcos aconteceram de algumas formas e ainda está acontecendo. A gente acabou de fazer um super show em São Paulo [no Cine Joia] e foi uma sensação muito esquisita, porque a gente brincava, durante o lançamento do álbum, quando a gente retornasse, a gente ia fazer um show que era uma série de músicas que a gente nunca performou ao vivo, para uma série de pessoas que a gente nunca viu, porque a gente lançou mais material, conseguimos mais fãs - a gente não sabia como seria isso. Você ter essa recepção de tocar essas músicas, por mais que [sejam] antigas, já faz um ano que o álbum foi lançado, ainda são novas porque elas nunca foram performadas ao vivo, tá sendo uma experiência incrível! Fora que [ficar] dois anos sem show… A gente voltou bem pilhado pra voltar para os palcos, então, tá sendo uma experiência muito maneira de troca com o público e também entender os lugares dessas músicas que a gente compôs sozinhos, na boca dos outros. Cada música toma uma forma quando você bota ela no mundo e poder vê-la na plateia tem sido uma experiência incrível.


Para finalizar: vocês continuam não sabendo de nada?

Agora que a gente tá com mais experiência, tamo fazendo algumas colaborações com outros artistas, eu diria que não é que a gente não continua sabendo de nada, acho que a gente tá sabendo, inclusive, um pouco menos agora.


Na canção "Você Não Sabe de Nada", que leva o título do álbum, O Grilo mostra que é possível viver com todas as incertezas e amores que cabem dentro de um indivíduo - ainda bem que não sabemos de nada. "As horas vão passando / Mas a gente corre atrás / Querida, / Vamos esquecer que a vida / Um dia acaba."

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