• Michele Costa

O carnaval da vingança de Chinaina

Os dias mortos acabaram. Agora, o cotidiano é alterado entre esperança e raiva. É preciso encontrar o equilíbrio entre os dois para continuar. Não é fácil, mas o manual continua existindo, nos (re)lembrando a importância de seguir adiante. Chinaina segue transformando a raiva que sente pelo governo em arte, mostrando aos fascistas que sobreviver é a sua melhor vingança. ("Entre conflito e serpentina / Sou a brasa que demora a apagar".)


Assim como o professor e especialista em carnaval, Luiz Antonio Simas, Chinaina sabe a importância da festa; além de ser uma festa, o carnaval é uma data política, onde foliões tomam a rua e vão contra a ordem da disciplina, desalinhando. Sem carnaval há mais de dois anos, o músico se resguarda esperando o dia que poderá sair na rua, dançando e cantando com as multidões. Enquanto essa data não chega, Chinaina relembra os dias de festas no EP "Carnaval da Vingança", lançado pela Pedra Onze, que mistura frevo e hardcore, suas duas paixões.


"Carnaval Infinito" é a canção que abre o álbum. Escrita em parceria com a multi-instrumentista Michelle Abeu, a música convida o ouvinte a parar por um minuto e relembrar as memórias alegres, cheio de glitter e serpentina, nos dando esperança de que em breve, voltaremos a nos aglomerar, comemorando por muito tempo. ("Se não tem luz a gente brilha / Não me falta energia / Eu vou fazer um carnaval infinito quando te encontrar".)


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A primeira vez que falei contigo foi em 2020, numa época extremamente nebulosa. Dois anos se passaram, muitas coisas aconteceram. Aproveito para perguntar: o seu manual para dias mortos continua o mesmo ou mudou?

Muita coisa aconteceu, mas nem muita coisa mudou desde que a gente se falou, né? O que posso dizer é que o Manual foi aprimorado, ou melhor, vai se aprimorando a cada dia que passa. São muitas coisas novas para aprender, muitas lições pra tirar e principalmente novas formas de agir. Então, a gente vai se aprimorando para sobreviver.


Estamos sem carnaval há tempos e seu novo EP traz a energia da festa e um toque de raiva/indignação, sentimentos que vivemos há anos. Qual o significado do carnaval para você?

O carnaval faz parte da vida do pernambucano desde o nascimento, faz parte da nossa identidade, além de ser uma das expressões culturais mais fortes do nosso país. Minha relação com o carnaval é de profunda intimidade e admiração. Adoro brincar na rua, conhecer blocos e pessoas do mundo inteiro, é muito gostoso. Além dessa relação pessoal, sempre me intrigou pensar nessa catarse coletiva que rola nas ruas nesse período. Na época do Sheik Tosado eu costumava dizer que se todo mundo que estivesse na folia resolvesse fazer uma guerra civil, a gente derrubaria qualquer governo. Acredito que quando o povo se juntar teremos nosso carnaval da vingança.


Como surgiu a ideia de fazer "Carnaval Infinito"? Aliás, como é criar um álbum e não poder tocá-lo?

Eu já tinha o refrão dessa música há alguns anos e não sabia bem como desenvolver essa ideia. Ele ficou guardado um tempo e quando resolvi fazer o EP, "Carnaval da Vingança", essa canção voltou pra cabeça. Escrevi a letra como se o próprio carnaval estivesse falando com a gente, sabe? Dizendo que fará um carnaval infinito quando nos encontrar. Então fui lembrando dos cheiros e sabores do carnaval, lembrando que ele é uma brasa que nunca apaga nos dias de folia e assim nasceu o resto da letra. Eu já imaginava que não daria pra levar o show desse EP pras ruas por causa da pandemia. Talvez, por isso, produzi esse disco com a maior intensidade possível, para que as pessoas, que também vão ficar sem carnaval esse ano, pudessem sentir esse calor em casa.


As canções que compõem o EP mesclam entre inéditas e regravações e participações de Felipe S. (que divide o vocal em uma nova versão belíssima do sucesso do Mombojó, "Deixe-se Acreditar”), Cannibal, vocalista da banda Devotos e o maestro Nilsinho Amarante, que traz uma releitura de "Hardcore Brasileiro", lançada originalmente em 1999 por sua antiga banda Sheik Tosado, que traz o ritmo das ladeiras de Olinda; além de outros músicos.


A intenção de Chinaina foi trazer a atmosfera do carnaval de rua para o EP, acertando em cheio. É impossível sair ileso deste álbum: vingança, lembranças, cheiros e sentimentos se misturam. Em uma época ainda de incertezas, "Carnaval da Vingança" é um gatilho para continuar vivo, afinal, viver vai contra os planos do governo.


É um EP que conta com participações de artistas incríveis e que mistura frevo com hardcore. Queria que contasse um pouco do processo de criação.

Pela primeira vez na vida produzi um disco totalmente à distância e foi uma experiência muito louca, ao mesmo tempo um tremendo aprendizado. A tecnologia foi crucial para esse disco sair. Imagina, gravar músicos em Recife, Salvador e eu produzindo tudo em SP. Mas a música é algo genuíno mesmo e apesar da distância, a linguagem musical se impôs e no final das contas deu tudo certo.

Eu comecei produzindo as músicas sozinho em meu estúdio e fiz uma guia do que eu imaginava. Daí, fui convidando os músicos e a partir das guias a gente ia trocando ideia. A parte mais difícil foi convencer o maestro Nilsinho Amarante a acelerar o frevo. Normalmente o ritmo vai a 150, 160 bpms, mas como eu queria passar o calor das ruas argumentei que a gente precisava acelerar aquela cadência. Nas ruas as orquestras tocam bem mais rápido do que em estúdios ou palcos, então era essa energia que precisava pro disco. Nilsinho entendeu perfeitamente essa necessidade e criou os arranjos com esse pensamento. Deu super certo.

Para mim era um sonho antigo fazer um disco com orquestra de frevo, contar com Cannibal, Felipe S., Thathi e Michelle Abu. São artistas que admiro muito e sabia que eles acrescentariam muito nesse trabalho.


Quando for possível aglomerar novamente para celebrar a vida, podemos contar com você para fazer um carnaval infinito?

É como diz aquela música da banda Eddie: Pode me chamar que eu vou!



Chinaina, nos vemos em breve pelas ruas, com cerveja quente e gritando que nós ganhamos.

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