• Michele Costa

Ana Lee: a retratista de pessoas

Ana Lee Sales formou-se em Comunicação Social na Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéu, Bahia). Como muitos comunicadores, Ana não se prende apenas nas palavras para se expressar ou contar histórias; fez da fotografia parte de seu cotidiano. Seja com o celular ou com uma câmera, Ana registra, cria uma narrativa e conquista pelo olhar atencioso e sensível que possui.


Após descobrir o surgimento de seu interesse pela fotografia, pergunto o que a imagem representa em sua vida. Me responde: "Eu brinco que a fotografia é a minha senhora do destino. Ela tem um gênio difícil, mas é também uma fonte bonita de aprendizado e sabedoria da minha caminhada. Viver de fotografia é desafiador, mas é um lugar que eu me sinto íntegra, onde eu consigo entender e falar na mesma linguagem. Tem o desafio, mas tem uma grande alegria de estar num lugar construído com muito afeto e resiliência".


Ao lado de sua "senhora do destino", Ana acaba de lançar o fotolivro "Loiro Pivete: Da Margem Ao Centro", no qual apresenta o movimento estético de descoloração e pintura de cabelos de jovens negros em Ilhéus. O projeto, que começou no Instagram, tem o objetivo de fortalecer narrativas, valorizar a criatividade e liberdade da moda periférica, que continua redefinindo a identidade brasileira.


Presente desde os anos 1990 nas periferias do Rio de Janeiro, é comum ver o "loiro pivete" em carnaval e festas de fim de ano. O movimento que está vinculado a ritmos periféricos como o pagodão baiano e o funk carioca, vai muito além do que uma tendência: foi uma maneira que a população negra encontrou para continuar resistindo, enfrentando o preconceito e a criminalidade.


Leia também:

Impressões: Marighella

O mundo visível de Marília Marz

Numezu: o terror de Jorge Alexandre Moreira que conquistou o público


Quais foram os motivos que te levaram a representar o movimento estético do "Loiro Pivete"?

Minha motivação é política e estética. Eu vivi a maior parte da minha vida na periferia, observando estilos, comportamentos e modas que são específicos desse território, que fazem muito sentido ali, mas fora desse local, sofrem muito preconceito ou precisam ser apropriados para serem aceitos. Na minha fotografia pessoal a precariedade é um referencial estético muito importante - e não se trata do olhar antropológico classista que romantiza a pobreza, não se trata disso. O que eu celebro é a beleza que existe na autenticidade da periferia e do interior da Bahia; e os loiros pivetes representam isso de forma genuína, são ousados, divertidos, bonitos. Miguel, uma das crianças que conhecemos nesse projeto, depois que pintou o cabelo falou se achou bonito porque "o tom do cabelo combina com o tom da pele", e é simples assim também, é festivo, é lindo. E daí chegamos na outra motivação, a política, o olhar sobre meninos pretos de cabelos descoloridos é violentamente preconceituoso, foram inúmeras notícias e denúncias sobre abordagem policial racista com jovens nesse perfil. E esses jovens sabem disso, mas ainda assim eles ousam pintar o cabelo. Queria saber mais dessas pessoas, e retratar de forma afetuosa, falando sobre seus corres, amores, sonhos, sorrisos e reflexões. Às vezes eles estão loiro pivete, mas sempre são pessoas e diversas em suas humanidades. Nosso projeto no seu âmago é muito básico e atrasado, porque ainda é sobre humanizar pessoas negras, algo que já deveria ter sido compreendido há séculos, mas em 2021 ainda é nossa missão. Eu preciso falar disso, como mulher negra que teve acesso a ensino superior e hoje pode estar com uma câmera na mão, eu preciso fazer isso porque como explica Bell Hooks, é essencial que a gente crie nossos próprios repertórios visuais, ocupe espaços e conte nossas versões das histórias, isso é fazer política.


Quais foram as sensações que você teve ao registrar a transformação visual das pessoas? Você percebeu que as pessoas que pintam o cabelo se sentiram livres para se mostrar e chocar a sociedade tão quadradinha como é a nossa?

É um processo muito feliz, é alegre e eu quis muito que essa alegria estivesse nas fotos. E sua pergunta é boa porque trago uma novidade, de maneira geral não é sobre querer "chocar a sociedade", a sociedade se choca por conta própria, pelo racismo que conserva com grande apego. É muito mais uma brincadeira com seu próprio corpo, uma permissão pra si mesmo, historicamente ainda estamos aprendendo a celebrar nossas liberdades. Muitos sabem que o olhar do outro e da polícia pode mudar ou se agravar e aí avistamos a ousadia de cada loiro pivete ou piveta, a força vibrante de querer muito ser você mesmo, e isso é inspirador.


Tenho visto bastante nas redes sociais, jovens negros relatarem casos de descriminalização e violência após pintarem o cabelo de loiro, fazendo com que muitos abandonem o estilo. Você viu isso algum caso de perto? Você que trabalha com fotografia, que registra um momento para sempre, acha que a foto pode também acabar com o preconceito?

Exatamente no dia que enviei a proposta para o edital, vi um policial abordando um adolescente negro com cabelo descolorido de forma desproporcional e depois liberando, o cabelo é usado como uma das justificativas, o racismo sempre encontra alguma. Enfrentar constantemente qualquer tipo de preconceito ou abordagem violenta é adoecedor. Por isso, a pintura loiro pivete geralmente ocorre no carnaval e no ano novo, período de férias ou folga onde as pessoas desviam do preconceito no trabalho ou podem justificar a pintura pelo contexto de festa. A gente fotografou em janeiro no limite desse período, todos adultos costumam pintar, mas para as crianças foi a primeira vez, e por isso conversamos de forma bem atenta com os pais sobre a autorização. Registramos no nosso mini documentário a fala de uma das mães, ela apontou o medo do preconceito, mas foi muito interessante porque ela também se divertiu e entendeu o loiro pivete no processo, achou o filho lindo. Acredito que nosso projeto transite o olhar na perspectiva dessa experiência como algo divertido e de fortalecimento da autoestima, e também de desarticulação do preconceito sobre o que seja um jovem negro que descolore o cabelo.



O projeto começou no Instagram e agora tornou-se um fotolivro. Como foi para você esse salto? Alias, o que você espera do público após verem o seu projeto? Será que após verem a beleza por trás das lentes, haverá aceitação?

O projeto já nasceu fotolivro, as redes foram uma forma que a gente encontrou para compartilhar melhor a iniciativa. Temos muito material na gaveta ainda, vídeos, fotos e pensamos em outros formatos pra utilizar tudo isso Eu tinha uma ideia no início, mas a equipe de produção, vídeo e designer ampliou de forma determinante esse processo, tem meu nome na capa, mas se transformou em um sonho de muitas pessoas. As respostas têm sido incríveis, muita gente se sentido representada, celebrada, fortalecida. Toda equipe tem esses mesmos sentimentos, falar de algo que é importante nos encheu de energia e propósito na missão. Nossa pretensão é que "Loiro Pivete: Da Margem Ao Centro" chegue para uma diversidade de pessoas com o mesmo afeto, respeito e alegria que foi construído.


Você que trabalha com fotografia, que registra um momento para sempre, acha que a foto pode também acabar com o preconceito?

Seria incrível se pudesse, mas não pode. Acredito que a fotografia possa aproximar universos distantes ou diversos. Ela pode contar muita coisa que o outro não conseguia entender ou encontrar beleza e afeto. A fotografia pode provocar também enquanto narrativa, mas a sociedade precisa se observar e se responsabilizar pela desconstrução de suas próprias perversões históricas. A arte tem um papel didático muito importante, às vezes é cansativo explicar o básico, mas ainda é fundamental.


Aproveitando o gancho da pergunta acima, questiono: você acha que a sociedade ainda tem salvação para deixar preconceitos de lado e viverem?

Eu sou fotógrafa de pessoas, e apesar de todos os motivos, eu sou deslumbrada com o ser humano, e sim acredito que a gente possa melhorar. Desejo e trabalho, no passinho de formiga, por um país livre do obscurantismo e ignorância. Citando Gonzaguinha:

"Eu acredito é na rapaziada

Que segue em frente e segura o rojão

Eu ponho fé é na fé da moçada

Que não foge da fera e enfrenta o leão

Eu vou à luta com essa juventude

Que não corre da raia a troco de nada

Eu vou no bloco dessa mocidade

Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada”


Confira o resultado do fotolivro "Loiro Pivete: Da Margem Ao Centro" no site www.loiropivete.com.br e também assista o minidocumentário da produção pelo Youtube.


O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.



Posts recentes

Ver tudo