• Michele Costa

O mundo visível de Marília Marz

Marília Marz, também conhecida como Marz, é arquiteta, ilustradora e quadrinista independente. A arte veio ainda no DNA: sua avó era professora de artes e sempre incentivou a neta a seguir com aquilo que a deixava feliz, ou seja, a arte. Os rabiscos, desenhos e pinturas vieram cedo - Marília começou a criar ainda na infância. Ela me explica sobre a sua maior referência, sua avó: "Ela sempre me mostrou trabalhos de pintores e pintoras famosos e livros de arte".


Com as ilustrações, vieram os roteiros, uma linearidade importante para as histórias em quadrinhos; e também as inspirações: o cotidiano, as pessoas, a cidade, Ronald Wimberly, Freddie Carrasco, Yuko Shimizu, Abelle Hayford e Will Eisner. Observadora, Marília retrata em suas ilustrações o que enxerga, compartilhando muitas vezes, os problemas que não queremos enfrentar - porque dói.


Marz está por trás da incrível HQ "Indivisível", finalista do prêmio Dente de Ouro na categoria "Quadrinhos" em 2018 e vencedora do prêmio de publicações Des.gráfica 2018. A obra é o resultado do TCC que a artista realizou em 2017. "Indivisível" explora e discute a cultura negra e leste asiática presentes no bairro da Liberdade, em São Paulo, mostrando como antigamente ele era ocupado por escravos do século XIX e agora é mais conhecido como um bairro da colônia oriental.


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Desenhar, ilustrar, colagens, fazer arte, foi um meio que você encontrou para colocar os seus sentimentos para fora? Ao desenhar, você encontra um refúgio para "esquecer" o que o país está passando?

Sempre gostei muito de contar histórias, imaginar mundos, personagens, narrativas, etc. E desenhar é uma forma de trazer todas essas ideias pro mundo real - a ficção é uma ótima forma de refletir sobre a realidade. Eu diria que o desenho sempre foi um refúgio pra mim; independente da situação do país, o desenho pra mim nunca foi um escape.


Seus desenhos retratam a relação entre indivíduo e cidade. Como surgiu esse ponto de vista?

Eu adoro cidades, a vida urbana. Passear por São Paulo a pé sempre fez parte da minha vida. Meus pais não dirigem, então desde criança faço tudo a pé ou de transporte público, e sempre gostei de observar a cidade, fazer parte dela. Acho que justamente por isso acabei cursando arquitetura, então só me aprofundei cada vez mais nesse tema.


Como é ser uma artista mulher em um país machista? Mesmo com visualizações, a mulher ainda é minoria no gênero literário. Você acha que teve alguma mudança do passado para hoje?

Ser mulher em um país machista é estar em estado de alerta a todo momento, seja na rua ou no mercado de trabalho. Existe uma diferença imensa entre ser mulher negra artista também, que é o meu caso, pois o mercado da ilustração e quadrinhos - não conheço muito o mercado de arte tradicional -, ainda é elitista e ocupado principalmente por brancos, mesmo que mulheres brancas ainda sejam uma minoria ali dentro, elas ainda tem mais espaço que mulheres negras. Acredito que a cena está cada vez melhor e mais diversa, mas seguimos ralando e abrindo caminho na base do facão para que nossas histórias sejam vistas com a importância e relevância que elas têm, não como exceção ou categoria.


De acordo com a pesquisa da agência Graphic Policy, cerca de 46% do público que consome quadrinhos é do sexo feminino. Como você se sente ao saber que mulheres adoram HQ? Alias, o público feminino é diferente do masculino?

Não me surpreendo nem um pouco, eu sempre adorei quadrinhos e cresci desenhando com duas amigas que também adoravam, mulheres se interessam por inúmeros produtos que a princípio são vistos quase que exclusivamente como "masculinos". Eu acredito que o público feminino tem um interesse maior por narrativas que fogem da imagem do clichê que nos vem à cabeça quando pensamos na palavra "quadrinhos" - super heróis, faroeste, tiros, super poderes, batalhas de proporções épicas, violência, etc. Claro que existem mulheres que se interessam por tudo isso, mas eu acho que o público feminino é muito mais aberto a novas narrativas, já o masculino tem uma dificuldade muito maior de enxergar, aceitar e ver o valor da diversidade, tanto de narrativas, quanto de personagens.


"Indivisível" foi estruturado em duas partes: a primeira conta a origem do nome do bairro Liberdade que está diretamente associada à Igreja Santa Cruz dos Enforcados e à Capela dos Aflitos, lugares de referência para a comunidade negra. A memória da cultura negra foi apagada do local, seja através da demolição de espaços significativos para a comunidade ou no processo de embranquecimento dos membros que ganharam destaque, como Machado de Assis, Lima Barreto e Chiquinha Gonzaga.


A segunda parte traz as práticas cotidianas e propõe um ensaio sobre o dia a dia do bairro, com o objetivo de compreensão da multiplicidade de informações que é apresentada na rotina da vida urbana. Para apresentar a reflexão, a artista elaborou uma narrativa visual que busca o esgotamento dos elementos, muitos deles considerados característicos da cultura oriental, especificamente da cultura japonesa. Juntas, as duas metades da história se encontram, compondo uma HQ que evidencia a identidade da cidade como uma sobreposição de camadas construídas pelo tempo.



"Indivisível" é o resultado do seu TCC. Como surgiu o tema e qual motivo que te levou a desenhar e construir uma narrativa que discute as culturas negra e leste asiática no bairro da Liberdade?

Queria falar sobre identidade da cidade e escolhi como recorte o bairro da Liberdade, por ser meu bairro preferido de São Paulo. Ao apresentar isso para meus professores, um deles me informou que a Liberdade também era um bairro negro e, a partir daquele momento, decidi que esse deveria ser o tema do trabalho pois, além de falar diretamente sobre a minha identidade como mulher negra, é algo que as pessoas não sabem e, na minha opinião, precisavam saber.


Falando ainda da HQ, você pretende dar continuidade?

Não, "Indivisível" é um trabalho concluído, um volume único.




Durante o isolamento social, seu processo de criação foi alterado? Inclusive, o significado da arte foi alterado durante esse momento?

No começo do isolamento, meu processo de criação foi bastante prejudicado - estava muito nervosa e passei meses sem produzir, só mantive meu trabalho regular. Depois, surgiram alguns freelas muito significativos e, mais pro final do ano, eu e uma amiga acabamos fechando um contrato de publicação de uma HQ para a editora Conrad, então, tive de voltar a produzir em ritmo acelerado.

O significado da arte pra mim continua o mesmo: a forma mais verdadeira de expressão, independente das circunstâncias em que nos encontramos. Faz tempo que não faço um projeto autoral e acabei topando diversos trabalhos por medo das situação financeira do país, de perder o emprego, etc. Quando se tem prazo pra cumprir e contas a pagar, não existe muito tempo para reflexões, você tem que dar o seu melhor e entregar, independente de qualquer coisa.


Quais são os seus planos para o futuro? Podemos esperar novidades?

Seguir trabalhando, desenhando, tocar meus projetos pessoais e talvez começar minha próxima HQ autoral no segundo semestre. Também quero melhorar meu desenho para tentar entrar no mercado internacional.


Conheça o trabalho de Marília Marz em: https://www.mariliamarz.com/


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