Raquel Dimantas: Cosmo Dorme
- Michele Costa

- há 28 minutos
- 2 min de leitura
A maternidade modifica uma mulher em diferentes maneiras que nem sempre é possível descrevê-las. Mas uma coisa é certa: quando nasce uma criança, nasce uma nova versão da mulher. É a partir desse renascimento que surge o segundo álbum de Raquel Dimantas, Cosmo Dorme (Coala Records, 2026). O disco nasceu a partir da experiência da cantora com a maternidade e do nascimento de Cosmo, seu filho, mas não se limita a transformar essa experiência em tema.
A chegada da criança parece modificar a própria maneira como Raquel escuta, compõe e observa o mundo. Em vez de tentar explicar a maternidade, ela prefere registrar o que acontece quando a vida inteira precisa encontrar uma nova disposição. Dessa maneira, há uma reorganização no centro do disco, a cantora aceita que alguns objetos ficarão fora do lugar por um tempo - talvez para sempre, já que a maternidade chega com novas rotinas, descobertas e afetos.
O resultado das novas vivências, isto é, o sono de um bebê, uma manhã, uma conversa e um momento de silêncio, são essenciais para a estrutura narrativa do disco. Porém, em vez de transformar a experiência em um grande relato sobre maternidade, Raquel encontra beleza naquilo que acontece entre uma tarefa e outra.
Leia também:

Se 8Hits! (2022), seu trabalho anterior, apresentava uma artista ainda expandindo as possibilidades de sua linguagem, Cosmo Dorme nasceu de um movimento diferente: o de olhar para dentro depois que o mundo muda do lado de fora. Raquel Dimantas não abandona a inventividade, mas a coloca a serviço de uma escuta mais íntima. Existe menos necessidade de chegar a algum lugar e mais interesse em perceber o caminho.
Ao misturar pop, rock, country, música cubana, surf music e elementos eletrônicos, o álbum cria um universo próprio, colorido e imprevisível, que combina com a experiência de quem precisa aprender diariamente a lidar com o inesperado.
“Meu Bebê” parte do afeto materno sem transformá-lo em discurso grandioso. Em “Mira Que Belo Dia”, por exemplo, existe a sensação de redescoberta do cotidiano; como se a chegada de uma nova pessoa trouxesse também a possibilidade de enxergar novamente aquilo que já estava diante dos olhos. Já em “Papinho/Small Talk”, a voz do filho e o som de um chocalho aparecem na gravação, tornando quase impossível separar completamente a vida da obra. Ao misturar diferentes idiomas, as faixas soam como uma canção de ninar, deixando os ouvintes fascinantes do início ao fim. Nesse sentido, Cosmo Dorme não é apenas um registro afetivo; é também a confirmação de que o disco nasceu de uma experiência concreta, em que criação e cotidiano passaram a ocupar o mesmo espaço.
No fim, o título do álbum revela uma pequena contradição: enquanto Cosmo dorme, Raquel desperta. Ela está acordada para uma rotina que conhece completamente, para afetos que ainda está aprendendo a nomear e para uma nova versão de si mesma.




Comentários