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O reencontro de Luís Perdiz com as palavras

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 6 horas
14 min de leitura

Poeta, editor de livros e compositor, Luís Perdiz chegou à música por um caminho que começou justamente quando sua escrita parecia ter perdido o rumo. Durante a pandemia do novo coronavírus, em meio ao isolamento social, o autor de Visão Incurável (2018), Desejo de Terra (2019), Você me Enche de Areia (2023) e A Selva nos Seus Olhos (2026) enfrentou um bloqueio criativo e existencial que o afastou temporariamente das palavras. Nesse período se aproximou do violão. O que inicialmente surgiu como uma tentativa de encontrar outro lugar para estar acabou abrindo uma nova possibilidade de criação.


Os acordes tímidos deram espaço às primeiras canções. Aos poucos, versos que não encontravam lugar nas páginas começaram a ganhar melodia, ritmo e voz. "Aos poucos, me senti reconectando com a poesia por meio das canções que começaram a surgir neste processo", conta. O movimento não significava abandonar a escrita, mas encontrar outra maneira de fazer a poesia existir.


Dessa experiência surgiram canções como "Terra Quente", "Estadia" e "Muitos Anos Neste Ano", que antecederam a chegada de Corações em Condomínios (2026). Algumas faixas carregam as marcas da reclusão e da desconexão daquele período; outras se aproximam do desejo, do erotismo e da paixão. "Estadia" e "Sensorial", por exemplo, surgiram a partir da musicalização coletiva de poemas, aproximando ainda mais os territórios que atravessam a trajetória do artista.


Se a composição começou como uma experiência solitária, a construção do disco encontrou em Renato Medeiros um interlocutor decisivo. Produtor, instrumentista e responsável pelos arranjos de Corações em Condomínios, Medeiros não apenas registrou as canções criadas por Luís Perdiz; sua participação foi fundamental para descobrir como aquelas palavras poderiam ganhar corpo, dinâmica e personalidade dentro da música. Entre conversas e experimentações, os dois construíram uma sonoridade capaz de ampliar as composições sem perder de vista a força da literatura.


"Buscamos uma sonoridade que dialogasse com rock, pós-punk, psicodelia e canção brasileira, tecendo diferentes climas e referências a cada faixa". O álbum também conta com participações de Cauê Benetti (produção vocal e vozes de apoio), Aninha Batucada (vozes de apoio) e Bruno Gazoni (flauta). Uma das faixas tem também coprodução de Lucas Gonçalves (Maglore).


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Você começou a estudar violão em um momento de isolamento e crise. No primeiro momento, o instrumento surgiu como refúgio ou como já uma tentativa artística?

Na pandemia, em determinado momento - já que teve várias fases para todo mundo -, eu morei com outras pessoas que eram músicas e daí tinha um violão disponível, era o instrumento disponível lá. Daí a gente fica lá no apartamento, isolado… Em algum momento, olhei para o violão, o violão olhou para mim [risos], e daí eu comecei, comecei do zero mesmo a brincar com ele, a estudar. O pessoal que morava junto comigo também me ajudou a aprender os primeiros passos e foi por aí.

Em algum momento você já se via como músico também ou apenas escritor? Como foi esse trajeto? 

Mais jovem eu gostava muito de baixo, estudei um pouquinho de baixo e tive outros projetos que misturavam poesia com música. O próprio livro, A Selva nos Seus Olhos, teve uma versão em audiolivro com arranjo, um arranjo do Bruno Gazoni, bem experimental. Então já tinha feito algumas tentativas até de melodias em alguns desses poemas musicados. Teve uma música que eu lancei em 2017, que chama "Fera", que é um poema de um livro meu, mas também tem uma voz no refrão, tem um coro. 


Quando você percebeu que as composições não eram um desdobramento de sua poesia e que estavam formando um disco? 

Teve dois momentos: o primeiro foi na pandemia mesmo. Eu tava lá no isolamento e, eu acho que até comentei na outra entrevista, tava numa profunda crise artística… Eu me vejo como escritor, então é difícil não escrever - eu fico com uma crise de identidade muito forte, que era o caso na época, além do mundo estar em crise, de maneira geral. E daí eu confrontava a tela em branco, eu escrevia um verso, dois versos, três versos, só que daí eu falei "não, não tá bom", ia enxugando, enxugando e sumia tudo… Então teve essa dificuldade que depois eu descobri que tinha muito a ver com não viajar, não me conectar com a natureza, que a gente conversou antes, e conseguir resgatar isso com as viagens e com voltar a interagir com as pessoas, né. E daí pra confrontar isso, esse vazio, eu comecei esse estudo do violão e minha expectativa não era compor, era realmente só estudar, brincar, mas conforme eu fui fazendo algumas progressões harmônicas, na cabeça foi surgindo umas melodias com letra, já. Então parece que canalizou desse jeito, sabe? Pra desbloquear o que tava na cabeça. Eu vejo um eu-lírico bem diferente, eu vejo um eu-lírico mais direto, não tem essa carga imagética que eu procuro na poesia, que na poesia eu busco quase uma pintura, né, por versos. Então é outra coisa, é uma coisa mais espontânea e mais conectada no referencial real mesmo.

E realmente tem essa diferença, né? 

É, pra algumas pessoas não, no meu caso ficou bem marcado o tipo de voz, né, em cada produção. Daí teve esse momento na pandemia, eu compus, enfim, passamos todos por isso, né. [sorri] E depois com a abertura e com a volta do cenário independente das casas de show, eu voltei à minha vida normal de frequentar, assistir, eu adoro o cenário indie e acompanhar o que tá rolando. Eu já tinha ouvido falar, mas comecei a ver alguns shows do Renato Medeiros. E gostei demais, né, eu vi uma proximidade estética e uma musicalidade muito incrível, eu gostei muito. Daí eu descobri que ele fazia produção também e convidei ele pra produzir o álbum. Então teve esse segundo momento que foi um resgate dessas canções, só que agora no contexto de coletividade. Então foi essa troca com ele, esse álbum foi toda essa troca com o Renato. E o que surgiu nesse diálogo entre a musicalidade dele, minhas letras e esse princípio de música que eu tinha.


Eu achei interessante você dizer que, para algumas pessoas, a poesia e a música, tem características iguais, porém, para você, existe uma diferença focado no eu-lírico. Existe diferenças no processo de criação da poesia e da música? Como você pensa nisso?

O meu processo criativo atualmente pra música envolve a interação com o violão. Então, com o violão na mão que eu consigo até escrever letra, sabe? [movimenta uma mão] Então ficou bem condicionado esse jeito que eu encontrei. Já na poesia, eu preciso me movimentar, viajar. Ou seja, quando eu viajo, eu tô escrevendo poesia. Quando eu fico em São Paulo, ou eu tô revisando o que eu escrevi ou eu tô com o violão tentando desenvolver uma parte mais musical.

Você nunca sentiu que o violão pudesse te dar um poema ou vice-versa?

Eu sinto que o violão me dá poemas, né? Porque é uma conexão muito legal quando a gente encontra com o instrumento, porque você vai fazendo uma progressão harmônica e ela vai te induzindo, vai conduzindo o seu cérebro e seu espírito para o que bate na hora. Então eu vejo essa troca de igual pra igual. 


Você falou mais cedo que você se vê como escritor. Você continua se vendo apenas como escritor? Você não consegue se ver como músico ainda? 

Eu continuo me vendo como escritor, por enquanto. Foi legal gravar, tô num projeto já de gravar novas coisas, tô compondo, tô bem conectado com isso. Mas eu ainda vejo que a escrita, a poesia é mais parte de quem eu sou. [risos]


luís perdiz
(Créditos: Millena Rosado)

Achei interessante que você afirma no release que, aos poucos, se sentiu "reconectando com a poesia por meio das canções". O que a canção permitiu dizer que talvez o poema, naquele momento de crise, não conseguiu? 

Na escrita poética, textual, eu não tava conseguindo dar vazão a esses sentimentos tão angustiantes e claustrofóbicos da pandemia, dos desencontros… Tem até uma das músicas, "Muitos Anos Neste Ano", que fala sobre a crise do contato, a ausência disso tudo, que era o elemento central da minha escrita poética, o erotismo e natureza, essas coisas estavam prejudicadas. Então, esse eu-lírico da canção que brotou, ele é um eu-lírico que consegue atravessar, trazer esse contexto artisticamente. Então, são poemas que relatam o momento de um apartamento, não de uma selva, e um tempo de crise do contato, não de encontros. 


Acho que uma das características mais fortes entre a poesia e a música está no erotismo. Por que esse símbolo dialoga tanto com você e como foi trabalhá-lo com um diferente eu-lírico?

Eu vejo o erotismo como uma potência poética, uma base, porque ela diz respeito a trocas, encontros, transmutações, e por isso que é um elemento central pra minha escrita. Na canção, ele tá presente em alguma das músicas, mas de outra forma, justamente por causa desse contexto do isolamento. Então, tem uma música que é "Animais Sonâmbulos", que ela fala bem isso, de celebrar o encontro - ela fala "seus braços também arranham", tem essas consequências também que eu não acho que tem nos poemas, no poema é mais a contemplação. Mas se passa num apartamento, então é um erotismo que tem um limite, imposta um limite pra que ele viva. Tem uma outra música, que é "Terra Quente", que eu acho que, poeticamente, é um equilíbrio entre minha escrita poética e minha escrita no álbum. Inclusive, acabou saindo das duas formas, porque no livro tem a "Terra Quente" como poema, e no álbum, ela é uma das canções. Ela entrou no álbum, e foi escrita na pandemia, como uma visão de libertação, por meio justamente desse desejo pela natureza e pela troca; ela é uma idealização disso, desse momento de angústia. 

Eu achei muito bonito que agora você fez uma ligação entre o erotismo e o encontro. Pensando na pandemia, onde não havia encontro, onde não havia abraços, não havia nem o olhar, como você acha que ficaria a sua obra se tivermos outra pandemia e se você não tiver o violão ao seu lado? Você consegue ver, saber se o erotismo vai conseguir sobreviver? 

Olha só, pergunta assustadora, né? [risos] Bom, eu acho que a arte que eu mais gosto depois de ler, o que eu mais gosto é ouvir música. Então, são as coisas mais naturais pra eu me aproximar. Então, eu não vejo essa vazão do erotismo, claro, pra além do sexo, enfim, do sexo em si. Eu não vejo uma vazão artística pra além da poesia e da música nesse momento. Será que pela fotografia, talvez? Pintura não seria, com certeza. [risos] Dança também não. Acho que manifestação seria mais... Sem o violão, seria escrita mesmo. 



Corações em Condomínios: um disco entre o íntimo e o mundo 


Entre paredes, portas, janelas e corredores compartilhados, cada morador guarda uma vida que nem sempre é possível enxergar do lado de fora. Há quem espere, quem se esconda, quem procure por alguém, quem atravesse a noite acordado. Há desejos que não cabem em uma sala, silêncios que ocupam quartos e sentimentos que permanecem separados por paredes finas. É nesse espaço entre proximidade e distância que Corações em Condomínios, primeiro álbum de Luís Perdiz, constrói sua morada.


"Essa ideia do coração em condomínio que deu nome para o álbum e é também a primeira faixa, eu escolhi dessa forma porque eu acho que essa faixa invoca todo esse universo de isolamento."

O disco reúne canções que partem do íntimo para falar também sobre o mundo ao redor. O isolamento vivido durante a pandemia aparece como uma das marcas de sua criação, mas não determina sozinho o percurso do álbum. As experiências daquele período se misturam a desejos, encontros, desencontros, erotismo, solidão e à dificuldade - tão contemporânea - de estabelecer contato mesmo quando estamos próximos.


O próprio título carrega essa contradição: um condomínio pressupõe convivência, mas também delimita espaços. As pessoas estão perto, dividem o mesmo território, cruzam os mesmos corredores, mas cada uma permanece atrás de sua própria porta. Em Corações em Condomínios, essa imagem se transforma em matéria poética: estar próximo não significa necessariamente alcançar o outro, assim como dividir um espaço não impede que existam distâncias difíceis de atravessar.


A primeira vez que eu ouvi o álbum, por mais que ele se passe em um apartamento, no primeiro momento eu só conseguia visualizar uma sala, um cômodo. Você já pensou também nessa ambiguidade? 

[breve silêncio] Eu acho que tem um... Um caráter meio solitário, né? Embora... E daí isso puxa mais pra essa perspectiva de quarto, né? E não sala, né? Um lugar de convivência. São poucas as convivências nos poemas. Então tem um pouco dessa solidão, eu diria, solidão de um quarto.


Por que você acha que a gente tem tanta dificuldade de aceitar a solidão? Claro, o ser humano não está pronto para estar sozinho o tempo inteiro, nós precisamos de outras pessoas, mas por que é tão difícil ficar sozinho com nós mesmos? 

É, nós somos seres sociais, né? Isso não tem saída. A gente pega qualquer bicho, que também eles não lidam bem com a solidão do mesmo jeito. Claro que no nosso caso tem esse agravante das nossas próprias questões individuais. Então, a gente é obrigado a confrontá-las. A gente é obrigado a enfrentar nossas sombras quando tá sozinho. Quando tá em silêncio, sozinho, mas ainda.


Que tipo de coração vive nos seus condomínios?

Essa ideia do coração em condomínio que deu nome para o álbum e é também a primeira faixa, eu escolhi dessa forma porque eu acho que essa faixa invoca todo esse universo de isolamento. A ideia é o condomínio não só físico, mas dentro de nós mesmo, nos nossos próprios sentimentos entre grades, nas nossas próprias barreiras, nos nossos muros internos.


Cada faixa traz um clima diferente. A sonoridade foi pensada a partir do significado de cada canção ou vocês descobriram esse caminho durante os arranjos?

Teve um momento que eu gravei violão e voz de cada música, eu preparei uma "demo" acústica e mandava para o Renato música a música e a gente foi vendo cada música de cada vez com calma - acho que durou dois anos, a gente ficou um tempinho nisso. Quando eu mandava o violão e a voz, eu já dizia algumas referências do que eu buscava que eram referências que ele gostava também porque a gente tem muito som em comum. Existia um encaminhamento: ele mandava uma primeira versão, um arranjo, e era... Me deixava muito feliz porque eu tô acostumado com essa arte solitária da escrita. É muito legal você tá em casa e, de repente, vibra o seu celular e tem um arranjo da sua música, sabe? Eu até digo que não me bateu uma euforia por lançar o álbum porque foi uma atividade que foi vivida a cada momento que me trouxe essa pulsão de vida. Em duas músicas teve participações especiais: uma o Lucas Gonçalves co-produziu, ele tocou uns instrumentos também e, na outra, eu chamei o Bruno pra tocar flauta que deu uma nova carga. Foi uma troca bem natural.


Em "Muitos Anos Neste Ano" o tempo parece parado e acelerado ao mesmo tempo: as crianças correm, enquanto o eu da canção permanece imóvel "perdido de quem eu era". Será que existem momentos em que não vivemos o tempo e apenas sobrevivemos a ele? 

Sim. Acho que a gente, muitas vezes, é sufocado por várias coisas. Eu acho que um ponto que eu percebo comigo e com as pessoas próximas, é esse sufocamento pelo trabalho. E ele é devastador, porque a gente trabalha ainda mais em casa e se adaptou, na pandemia, a preencher toda a nossa programação de um jeito que não existe uma divisão, você voltou para casa, é hora de relaxar, ficou tudo preenchido e essa transição para voltar não foi muito clara, né? Então, o trabalho mudou, o jeito de trabalhar. Então, quando a gente tá numa jornada muito forte de trabalho, muito sufocado com isso, eu sinto que o resto da vida não é nutrido, mas é o que tem pra fazer, para conseguir se bancar, sobreviver - é um equilíbrio muito difícil de encontrar. Eu trabalho como editor de livros, é um trabalho legal, eu gosto muito, mas é uma loucura. Eu faço questão de ter um momento, eu acordo e a primeira coisa que eu faço é ler [para] falar "eu me respeitei, eu fiz isso." Eu tenho que ter um momento, agora com o violão, antes era com a escrita… Isso tem que ter pra mim, sabe? Eu acho que a gente batalha por nossa felicidade, então, eu preciso por isso, eu prefiro dormir menos, mas eu preciso fazer isso. É impressionante como para várias pessoas tá muito mais sufocante do que antes, até a demanda de trabalho, as condições financeiras, de maneira geral, né?


Acho que você traz muito bem esse caos também. A imagem do caos na faixa-título, "o caos que eu te espero" é filosófica. Que tipo de espera nasce dentro do caos: aquela que ainda acredita no encontro ou aquela que já sabe que não acontecerá? 

É uma ambiguidade de esperança, porque a gente deve ter esperança, a gente tinha que ter esperança, mas com a realidade que era muito sufocante, muito angustiante. Tem outro verso da mesma música que fala da fé que anda em brasas, então, vai se anulando. Ela 

vai falando sobre oposições, que nem sempre são claras, mas que mostra justamente as grades que separam esses dois universos, o universo do encontro, o universo otimista e o universo do desencontro. 

Ainda bem que você trouxe também a segunda parte, que traz essa imagem ao cantar "fé que anda em brasas". Será que a gente precisa continuar queimando para que uma fé permaneça viva?

[breve silêncio, olha para o lado] Eu sinto que a gente precisa alimentar esse fogo. Eu acho que sem isso é muito fácil a gente virar robô, sabe? Só fazer as coisas sem pensar… Precisa ter um pouco de imaginação, de fantasia, de esperança. 

Você tem fé no quê? Não adianta falar em música e em livros… 

[risos] Eu tenho fé na conexão com o universo, seja pelo o que eu não posso falar, mas por outros jeitos têm [maneiras de se conectar] - acho que essa energia criadora me conforta muito. Tenho fé nas pessoas. Tenho certeza que minha vida foi abençoada com muitas amizades, muitas trocas que enriqueceram muito essa experiência na terra que sempre se renova. 


Quando você escreve “sentimentos entre grades”, pensa em sentimentos aprisionados, sentimentos que precisam de proteção ou a dificuldade em se expor verdadeiramente no caos urbano?

Eu diria que todos esses sentidos [sorri], são todas formas de grades, todas formas de sentimentos. 


“Quisera pressentir o dia”, da canção “Sensorial”, carrega o desejo de sentir a chegada de algo antes que aconteça. Se pudesse pressentir o dia, teria mais liberdade ou perderia a beleza de ser surpreendido com as possibilidades? 

Acho que a surpresa faz parte da existência, é uma parte importante. Querendo ou não é um desejo que não vai ser realizado. 


Há uma transformação constante de elementos - animais, figuras e roda - em “Animais Sonâmbulos”. Você pensou essa canção como uma espécie de universo primitivo, onde o desejo ajuda a criar novamente o mundo?

Ela tem essa temática da força criadora do encontro - no caso, um encontro no espaço, uma conexão espiritual. Tem até o verso da fogueira que remete aquilo que a gente tava falando sobre a origem de tudo também, das manifestações artísticas… É também a força criadora que a troca, o amor, traz para nós, ela nutre uma vitalidade diferente, uma potência diferente em nós. 

O amor mencionado no disco traz seu significado de diversas maneiras. Você consegue definir o que é o amor? 

Não. [sorri] 


Já a imagem do poeta promissor, apresentada em “Notícias Suas” carrega uma melancolia sobre o tempo e sobre as expectativas. Essa imagem em específico fala apenas de uma relação amorosa ou também da sua própria relação como artista? 

Utopia, ela fala de sonhos, inclusive, os artísticos. Tem muito dessa carga pessoal mesmo de como a gente muda de visão sobre nós mesmos com maturidade, com o passar do tempo… Ela remete ao passado, é uma canção que fala sobre o que aconteceu no passado e essa mudança de perspectiva, e sonhar com o amor idealizado ou se ver como um grande artista… Essas ilusões vão caindo e dá lugar a coisas bonitas que são elementos da vida real. A música fala sobre o fim de algumas utopias. 


Se Corações em Condomínio nasceu de uma crise artística, talvez suas canções sejam também formas de procurar uma saída. Ao final, você encontrou alguma saída para o incômodo que começou durante a pandemia? Aliás, é possível encontrar uma saída desse cômodo nos dias atuais?

Eu sou sempre um defensor da manifestação artística como saída, não só a produção, mas também consumir principalmente… Eu disse que eu sou um escritor, mas na verdade eu sou um leitor e com a música é a mesma coisa. Esse veículo da arte que pode ser o veículo da espiritualidade, é uma manifestação importante, um elemento importante, [assim como] as trocas, o encontro amoroso são a saída e a entrada. [sorri] 



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