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The Strokes: Reality Awaits

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 11 minutos
5 min de leitura

Uma das minhas maluquices argumentativas preferidas é falar que os Strokes e o Orson Welles têm uma coisa em comum: a sorte e o azar de fazer com que seus primeiros trabalhos fossem suas obras-primas. Enquanto Welles estreou na direção com Cidadão Kane (1941), considerado por muita gente o melhor filme da história, Is This It (2001) foi a tal salvação do rock do novo milênio (nessa altura do campeonato, a gente pode deixar essa obsessão judaico-cristã de salvação de lado, né?). Aí você deve estar se perguntando por que isso seria algo ruim. E eu te respondo: porque essa obra vai assombrar o artista pelo resto da vida, rendendo comentários do tipo "é bom, mas eles eram melhores no começo. Parece que estão perdendo o jeito." 


O que se seguiu a partir daí você provavelmente já sabe: o segundo disco, Room on Fire (2003), parece um irmão siamês do seu antecessor, o que gerou críticas mais positivas do que negativas. A partir do terceiro disco, Julian Casablancas e companhia decidiram não seguir o roteiro esperado. O público e a crítica querem mais riffs acelerados e tocados em downstroke, ar de garagem e ecos de Television e Velvet Underground? Eles ainda estavam lá, mas não era só isso.


the strokes reality awaits
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

O First Impressions of Earth (2006) ainda tem resquícios daquela banda que ia salvar o rock, mas do Angles (2011) em diante, Casablancas ficou cada vez mais doido com o autotune, e a gente tá até hoje reclamando disso. Acho que o recurso melhora as músicas? Não. Gosto do resultado? Também não. Mas a discussão precisa ser mais ampla do que o gosto pessoal. Pensando no ódio que o autotune sempre despertou nos fãs dos Strokes, eu gosto de pensar que, mais do que um recurso estilístico, seu uso é uma provocação para ver até onde o público aguenta. Pensando no peso de salvação do rock que foi colocado nas costas de cinco moleques, eu acho perfeitamente aceitável que eles tenham passado décadas tentando se afastar da imagem daqueles caras de cabelo ensebado, calça skinny, gravata e cigarro entre os dedos. Assim como o Lou Reed usou a sobreposição de barulhos e feedbacks pra irritar a gravadora e o público em Metal Machine Music (1975), o frontman dos Strokes transformou o autotune na sua própria transgressão. E apesar dos pesares, a gerência aqui gosta quando o artista desafia o ouvinte. Se você quer fan service, vai assistir um filme da Marvel.


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É claro que nenhuma obra vive isolada do seu tempo. E além de pensar no mundo que cerca o lançamento do Reality Awaits (2026), é válido resgatar alguns pontos importantes na cronologia. O New Abnormal, álbum de 2020, foi considerado a volta aos trilhos da banda depois de dois discos que alternavam entre ótimos momentos e passagens bem questionáveis. Qual a decisão mais sensata comercialmente depois de um grande acerto? Repetir a receita, é claro. A menos que você tenha a coragem de desafiar a si mesmo, a crítica, o público e o mundo (ou se você gosta de uma autosabotagem). Foi essa a direção que o grupo pegou (e, aparentemente, essa estrada dá em uma casa isolada nas montanhas da Costa Rica com o guru-produtor Rick Rubin).


Agora, chegamos enfim a 2026, e Reality Awaits nasce como uma obra em um mundo cheio de timelines fragmentadas. E isso quer dizer que os Strokes representam coisas bem diferentes para públicos diferentes. Para os millennials, eles ainda são a realeza do rock do começo do milênio, com os clipes de “Reptilia” e “Last Nite” passando o tempo todo na MTV. Para a Geração Z, a banda representa a nostalgia de um tempo não vivido e o revival do indie sleaze. Talvez essa seja a grande virtude e também o problema do álbum: dependendo do que você procura, você encontra (ou não).


Se você gostou da mensagem política no show que a banda fez no Coachella, você encontra versos políticos ali, mesmo que alguns pareçam piscadelas irônicas para os dias de hoje. Gosta das guitarras do Albert Hammond Jr. e do Nick Valensi no melhor estilo Tom Verlaine e Richard Lloyd? Também tem. E a cozinha afiada do Nikolai Fraiture com o Fabrizio Moretti? Claro que também tá ali. Reality Awaits é uma obra cheia de camadas, e cabe a você decidir se quer descascar todas ou jogar algumas delas fora.


O álbum começa com “Psycho Shit”, que já deixa bem claro o terreno em que estamos prestes a entrar: uma onda meio melancólica, guitarras sinistras, versos fortes e muito autotune, mas nessa altura do texto, a gente já superou isso, né? Não é? Feitas as devidas introduções, a primeira música corta de um jeito bem abrupto para a segunda, “Dine N’Dash”. Se você procura ecos dos tempos de glória dos Strokes, encontrou: riffs marcantes, baixo forte e bateria reta. Também tem uns spoken words e uns falsetes do Julian Casablancas, mas ei, depois de tanta contribuição pra música, o homem pode passar incólume com certas decisões.


Quer mais Strokes prime? Toma “Lonely in the Future”. Tem riff legal, autoreferência, cutucada em gente que vai de The Weeknd a John Legend, passando por Harry Styles e Anthony Fantano (sim, o cara que fez uma resenha ruim do The Voidz no YouTube). Julian Casablancas mostra que é um homem comum movido por rancores mal resolvidos e lança uma diss track com versos contra um crítico que não gostou da música da sua banda. Pois é. Se nos anos 90 a gente tinha Axl Rose fazendo música que chamava crítico musical pra porrada no ringue, em 2026 a gente tem o verso "stick to the technical 'cause that’s great / but you would not recognize art in any age”. Esqueça a lei das ruas, esse é o tipo de provocação que nasce da educação adquirida nos melhores internatos do mundo, frequentadas pelo meu nepobaby preferido.


O single “Going Shopping”, que ganhou clipe com referência a Paul Simon, também pode facilmente entrar no panteão das melhores coisas que a banda já fez (nessa altura do campeonato, eu espero que a gente já tenha deixado o papo sobre autotune pra trás). E eu adoro que, depois de falar que o Fantano é incapaz de reconhecer uma obra de arte, o Casablancas fecha “Going Shopping” com o verso “se você é melhor do que eu, você não tem que me julgar”. Realmente, um homem de muitas camadas. Dá até pra argumentar que “Going to Babble On” também entra nessa lista. Vale só pelo trocadilho maravilhoso de Babble On (falar à toa) com Babylon (Babilônia). 


Apesar de parecer mais uma música do The Voidz do que dos Strokes, “Liar’s Remorse” é um dos pontos mais altos do disco. Mesmo com aquele “harmonic minor" em tom debochado no meio da música, o restante parece imune ao cinismo. Do anúncio inicial "sua atenção, por favor", que dá o tom de confissão, à constatação de que amor e dor andam juntos, tudo soa muito sincero.


Se Is This It foi um álbum instantaneamente amado pela crítica e pelo público, Reality Awaits vai exigir um pouco mais da sua boa vontade. Mas se você não é o tipo de pessoa excessivamente apegada ao passado, já deve ter notado que a banda passou as duas últimas décadas fugindo daquela imagem amada pela NME em 2001. Este disco é a obra de uma banda que insiste em sobreviver às próprias tensões e desafiar as expectativas, mesmo que seja com um ar blasé de vez em quando. No fim das contas, esse talvez seja o paradoxo dos Strokes: depois de 20 anos tentando escapar do próprio passado, eles descobriram que o passado sempre acha um jeito de encontrá-los, e nem sempre isso é algo ruim.



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