Os estilhaços de Cães de Prata
- Michele Costa

- há 16 horas
- 13 min de leitura
"Dentro de mim mora um grito. / De noite ele sai com suas garras, à caça / De algo para amar." O poema "Olmo", de Sylvia Plath, dialoga com a imagem de Cães de Prata, banda de post-rock do músico baiano-alagoano Mateus Borges. Há nesse animal que atravessa a noite uma força que não se aquieta: ele fareja, procura, segue rastros, desaparece e retorna. No projeto de Mateus, os gestos se repetem. Há sempre alguma coisa sendo perseguida, uma imagem, uma sensação, uma memória - talvez uma forma de contestação ou salvação.
A procura começou anos atrás. Mateus foi o principal compositor da extinta Pacamã, banda que lançou o álbum Antes Aqui Era Tudo Mato, em 2017. Deste mesmo núcleo surgiram outros projetos do circuito independente de Alagoas, entre eles azul azul e Os Fugitivos. Cada nome abriu uma nova trilha, cada canção deixou um cheiro diferente no caminho. Depois de atravessar essas possibilidades, Mateus encontrou em Cães de Prata um lugar para reunir aquilo que ainda permanecia inquieto.
O projeto chegou ao público em 2020 com o EP Fitas p/ o Terceiro Filme. Nas composições, o artista não tem interesse em explicar o mundo, mas focar nas imagens criadas para aquilo que nem sempre conseguimos compreender e nomear. As canções parecem caminhar pela penumbra, tateando formas, sons e palavras, como quem sai à noite sem saber exatamente o que procura, mas confia no próprio faro.
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A busca segue em Um Ano aos Estilhaços (2026). Construído ao longo de quatro anos, o disco acompanha um período em que a vida do músico também se deslocou entre São Paulo, onde mora, e suas temporadas em Maceió. Entre uma cidade e outra, as canções foram ganhando corpo, carregando na pele as marcas de lugares diferentes.
O próprio título parece apontar para aquilo que fica depois do impacto. Estilhaços são fragmentos de algo que já foi inteiro, pedaços que se espalham quando uma superfície se rompe, mas também podem refletir a luz. E é entre essas duas possibilidades - a ruptura e o brilho que ainda permanece - que o álbum se movimenta.
"Morrer é uma cerimônia de retorno. Dura uma vida inteira", escreve Mateus Borges sobre o trabalho. A frase abre uma passagem para as oito canções, que atravessam estados de crise, cansaço, desejo e transformação. As primeiras faixas, "Um Ano aos Estilhaços" e "Dez de Espadas", chegam carregadas de uma atmosfera quase sufocante. O disco começa em terreno devastado, mas não permanece dessa maneira. Ao longo do caminho, a música procura uma saída para que a estrutura continue em pé e siga caminhando. O artista havia imaginado escrever letras luminosas, "em estado de colheita", mas encontrou algo mais sinuoso - talvez porque algumas formas de luz só possam ser percebidas depois que os olhos se acostumam ao escuro.
"A forma como esses animais aparecem nos álbuns, eu acho que eles têm muito a ver com alguma espécie de ruptura. Eu acho que eles têm a ver com alguma espécie de fronteira. Pode ser fronteira entre uma vida pré-estabelecida e uma nova possibilidade de vida, essa coisa meio selvagem."
As canções também são povoadas por figuras que parecem surgir dessa penumbra: cavalos, espelhos, olhos, espaço e, é claro, o fim. Mateus visualiza um encontro onde todas essas formas/presenças/sensações possam se encontrar para criarem um lugar sem fronteiras muito definidas, onde memória e invenção caminham lado a lado e onde aquilo que já passou pode continuar existindo de outra maneira.
A produção coletiva, construída entre Maceió e São Paulo ao lado de Allen Alencar, Felippe "Chase" Pereira e Joaquim Prado, com João Viegas em "Gás dos Outros", amplia esse movimento. Cada escuta acrescenta uma camada, como novos rastros que se cruzam sem necessariamente apontar para o mesmo lugar. Na mixagem e masterização, Anna Vis ajuda a organizar esse território, procurando aquilo que cada faixa pede.
Você passou quatro anos perseguindo esse disco enquanto a própria vida se transformava. O que mudou em você durante esse processo, ou seja, do início ao fim, em relação ao Mateus e Cães de Prata? E o que permaneceu intacto?
Eita, pera. [sorri] Essa pergunta tem muitas questões. [sorri, fica em silêncio olhando para o lado] Muita coisa mudou na minha vida. Quando eu comecei esse álbum, eu tava em outra cidade… Eu acho que eu tava num contexto muito de descobrir o que seria a vida dali pra frente - o que eu ia fazer nessa nova cidade que é São Paulo, que é onde eu tô agora; como eu ia tocar minha vida; como e quais seriam meus relacionamentos… O que eu faria, né? O que eu pensaria do que eu tinha planejado ali. Eu acho que foi um período de deixar pra trás muitas questões que eu tinha como... [breve pausa] certezas, né? Quando você tá ali nos 20 aos 25 anos, eu vou fazer 30 esse ano, você vai formulando uma série de certezas que dos 25 aos 30 você vai demolindo todas elas, né, o lugar que eu tava nesse álbum era esse - perceber que talvez uma vida que eu tinha pensado não seria necessariamente a vida que eu teria e que, de alguma forma, eu teria que fazer o caminho de volta pra construir uma nova vida, uma nova possibilidade que eu poderia imaginar como algo que me levaria aí pelos próximos anos.
Numa questão mais do álbum em si, eu acho que o plano eu consegui realizar ele. Eu queria um álbum de oito músicas e que cada uma contasse uma história e que fossem músicas que respirassem, músicas longas, com passagens instrumentais, com muita letra. O plano que eu tinha de ter o piano no álbum deu super certo. O plano que eu tinha de ter uma outra ideia de guitarra o Allen conseguiu trazer… Eu acho que tem essa transformação legal no processo que você sempre só descobre o álbum durante o processo de fazê-lo, né? Eu acho que isso aconteceu e melhorou esses planos. A gente faz planos, aí a vida ri, aí a gente tenta adequar os planos, e aí a gente vai fazendo o nosso melhor. Eu sou muito grato para os meus amigos nesse processo todo. Eu acho que eu não teria terminado esse álbum se não fossem eles. O que permanece é a amizade com essas pessoas que eu fiz o álbum.
Com essas mudanças que passou e segue passando, em algum momento, você se sentiu estilhaçado e precisou juntar os cacos para dar continuidade ao Cães de Prata e, claro, ao Mateus?
[breve silêncio] Acho que sim, não sei se sou o melhor avaliador nisso, né. [risos] Eu tive momentos muito baixos nesse período de fazer o álbum, usando essa imagem de juntar os cacos em determinados momentos. Falando nesse título, eu queria essa ideia de algo único, algo mensurável, essa ideia de um ano vista de diversas e possíveis formas. O que sempre me pegou é aquele papo de "como foram os seus anos?" e eu já ouvi muitos amigos falarem "2017 foi ótimo, mas 2018 foi horrível" e eu acho que eu nunca consegui pensar nessa forma... Quando alguém morre ou quando você termina um namoro, aquele ano fica na sua memória como algo horrível, né? Tem esse fato inevitável, mas nunca consegui pensar nos meus anos. Acho que uma ideia desse título é [mostrar] que no ano que as piores coisas ocorrem na sua vida é também um ano que as melhores coisas ocorrem na sua vida. O ano que você mais mudou na sua vida, achando que tudo ia dar certo, dá tudo errado. O ano que deu tudo errado é o ano que termina muito feliz, e você começa a pensar que aquele ano foi bom, mas foi horrível. Então [traz] essa ideia dos anos como portas [gesticula com as mãos] que se comunicam e que foi uma ideia que também me pegou até pela minha forma de compor: geralmente quando eu tô escrevendo, eu tô fazendo amálgamas a partir de diversas pessoas, várias situações, raramente eu tô falando sobre apenas uma pessoa. Claro que tem eventos específicos, mas tem algumas questões, por exemplo, "Ele Virá na Fumaça" é uma canção sobre vários pais de amigos, pessoas queridas da minha vida, mas também é uma música sobre uma cidade, minha relação com a cidade... Eu sempre penso nessa forma de atração, as coisas vão se atraindo [gesticula com as mãos]. Eu acho que Um Ano aos Estilhaços traz tanto esse tema do que é uma parcela de tempo e também traz um pouco desse procedimento de atrair essas figuras pra dentro do mesmo corpo de canção e ao mesmo tempo que dá uma unidade [aproxima as mãos] nessa canção. Pra mim, a preposição do disco é chave porque não é um ano dos estilhaços, mas um ano aos estilhaços, tanto como estado que caracteriza essa unidade do ano, mas também como uma oferta, dar ao ano esses estilhaços e as possibilidades deles. Eu fiz muita questão da preposição! [risos]

No texto de lançamento, você compara a criação do álbum a tentar "cravar uma lança num alvo ínfimo, montado num cavalo em velocidade", uma imagem muito curiosa. Como ela surgiu?
[olha para o lado] É do processo de produção, ela surge do processo de produção. Quando você tá trabalhando um álbum, principalmente da forma que eu trabalhei, duas cidades, três estúdios, envolvendo pessoas com biografias muito diferentes. Você tem um trabalho de comunicação que é muito extenuante, difícil mesmo [gesticula novamente as mãos], não no sentido de comunicar com essas pessoas porque são todas maravilhosamente incríveis, mas no sentido de você conseguir pegar tudo que tá na sua cabeça e você [falar] "vamos fazer por aqui." É como se eu tivesse que sintonizar uma transmissão de rádio pra cada uma das pessoas [com a mão direita faz o parâmetro de sintonizador de rádio] e durante a gravação [falar] "tá saindo um pouco, volta", sabe? Ao mesmo tempo, falar "aqui pode ser mais livre" e "aqui eu quero a voz mais pra frente." Acho que é essa a dificuldade - acertar o espaço entre a sua intenção e o resultado final. A gente sempre erra, claro, e o legal é errar e acabar acertando em outra coisa que você não planejou antes [risos].
Esse equilíbrio mira bastante no título do álbum que traz angústia e tristeza. A primeira vez que ouvi o álbum, vi a morte como protagonista, já na segunda vez, percebi que não era somente sobre morte, mas também sobre vida. Dito isso, quando você percebeu que a morte, muito mais do que um fim, seria uma das formas de falar sobre retorno?
Eu fiquei com essa impressão muito a partir de mortes simbólicas na minha vida. Perceber que essas mortes simbólicas não significavam necessariamente que aquelas pessoas estavam deixando de falar comigo… Eu penso muito nisso. Eu que todas as pessoas que eu não me comunico mais ainda estão aparecendo na minha vida, seja no jeito de tocar um instrumento, seja numa letra, seja no jeito que eu cozinho ou tempero uma carne, seja no jeito de andar na rua… Tudo isso são as vozes dessas pessoas que não morreram, que ainda estão vivas, mas que de certa forma não se comunicam mais; até pessoas que faleceram. Você percebe que elas ainda vão falando com nós, vão aparecendo e vão achando os seus lugares. O jeito da morte de se fazer presente na nossa vida é por retornar incessantemente, né? Pra usar a imagem do Gatsby [aponta para o pôster] são os barcos impelidos incessantemente pela corrente… É isso.
Há uma tensão entre o título e a ideia de retorno à vida. Os estilhaços são aquilo que sobra depois de uma ruptura ou também podem ser matéria-prima para reconstrução?
Ó, quando a gente reconstrói a gente se arrisca num exercício complicado [risos] que fica entre o grotesco e a necromancia [risos].
Não é legal.
Não é legal mas, às vezes, é interessante você conjurar um fantasma pra ver ali o que ele pode te dizer porque, às vezes, não seria algo que ele diria se estivesse encarnado. Claro que você tem os mil exemplos grotescos hoje em dia, holograma de não sei quem que volta para falar sobre… Quando é um exercício imaginativo da canção, eu acho divertido porque não é o outro falando, é você falando pelo outro e é legal ver o espaço entre o que você fala e o que você imagina o que o outro falaria. [sorri] É algo que aparece muito nessas canções, tem frases que não são minhas no bom sentido.
Você imagina muito?
Eu imagino muito, imagino sempre.
"Na minha música, particularmente, eu tenho muito pouco interesse em comunicar, digamos assim, temas ou comunicar uma ideia única ou comunicar explicitamente o que eu tô sentindo. Minhas letras têm muitas coisas diretas, mas também têm muitas coisas cifradas. É mais nesse jogo que me interessa."
O disco parece nascer de um estado de crise, mas termina com "nem só podemos morrer". O que precisou acontecer ao longo dessas oito canções para que essa frase pudesse existir e ecoar em quem ouve?
Eu gosto dos temas pesados. Naturalmente, elas aparecem nas minhas canções, umas imagens um pouco mais pesadas - não sei se pesada é a palavra, um pouco mais inclinada para uma coisa noturna -, mas eu nunca tive vocação pra ser pessimista.
Jura?
Juro! Eu queria ter, tenho amigos que são grandes pessimistas, são maravilhosos nisso e tem vocação do "vai dar errado por conta disso e disso" e, em algum sentido, sempre dá errado e eles estão certos - os pessimistas estão certos. Eu nunca tive vocação pra isso. Eu posso fazer todo o caminho do pessimismo, mas eu nunca entro na casa do pessimismo. No final, sempre acabo otimista de alguma forma. [risos]
Já que se morre de diversas maneiras, como se mantém vivo, vindo de um otimista?
Acho que volta pra outra frase do álbum: "talvez seja melhor no mundo". Talvez seja melhor entre as pessoas, os amigos e a família. Não tem caminho no isolamento, na solidão. Elas têm o seu lado importante, mas a gente precisa voltar pro mundo, para as pessoas. Tem um clássico dos meus amigos que é "você não tá deprimido, você tem que dar uma passadinha no sol, tomar um sorvete e passa" é o famoso "engraçado, na mesa do bar não bate ansiedade" [risos]. O talvez faz um trabalho importante que é mostrar que é só uma possibilidade, você pode voltar para o mundo e estrepar todo, mas o que interessa é que tá nessa possibilidade. Esse é o bacana. É o jeito que eu penso hoje, vai que eu vire um pessimista daqui uns dois anos.
Já que você citou "Gás nos Outros", tem um momento que você diz que não quer estar aqui. Ao trazer a imagem de flutuar, onde você quer estar? Existe um lugar além da realidade?
Acho que o "não quero estar aqui" [corte no áudio] é algo depressivo, não no sentido literal, não no sentido de não estar aqui… Eu acho que vai pra esse sentido, mas não na naturalidade dele. Muitas vezes uma coisa importante para fazer é você dizer na canção algo, pra certa forma, afastar também… Você dizer que não quer estar aqui é uma forma desesperadamente querer estar aqui. Às vezes, você coloca todos os piores pensamentos da canção, você também trava, você deixa a chave lá e fica lá. Essa música é muito pessoal pra mim. Eu comecei a fazê-la em 2021, se não me engano, e ela voltou pra mim em vários momentos bem tristes, bem complicados… Eu sinto que não consegui fazer muito, no sentido de levar ela para outro… Crescer muito à ela, ela é justamente aquilo o que ela é e eu gosto disso. O arranjo também surgiu muito intuitivamente, acho que todos os primeiros takes rolaram, teve algo intuitivo.
O disco foi feito entre Maceió e São Paulo. Essa distância impactou no processo ou permitiu enxergar algo que não foi possível estando sempre no mesmo lugar?
Eu acho que sim, acho que a vida é esse processo. Você sai, você muda, você observa, entende melhor o lugar que partiu, entende melhor o lugar que chegou - é um ciclo que nunca termina, né, e quando termina é porque a pessoa entregou as contas e fez o que tinha pra fazer [sorri]. Eu acho que principalmente a mudança de estúdios e a mudança de pessoas [gesticula com as mãos] no trabalho com o álbum permitiu ver de outra forma. Às vezes a gente subestima o lugar, mas ele realmente muda muito.
Você fala em "virar a canção pelo avesso" e é bem bonito essa afirmação. O que uma música revela quando você deixa de tratá-la como algo que precisa ser domesticado?
Tenho muito respeito com a canção enquanto forma e linguagem. Eu acho que a gente não tem noção do momento e do histórico privilegiado que a gente tem na canção brasileira. Não é comum em um só país a quantidade absurda de canções incríveis que a gente tem no Brasil. Eu acho que a melhor forma de você ter respeito, reverência e tratar aquilo como algo desafiador, é tirar do altar e colocar [a canção] no mundo. Eu não queria que o meu jeito de compor engessasse o jeito de produzir e não queria que a produção mudasse necessariamente o interessante no meu jeito de compor. Eu queria que ambos se informassem de um jeito muito intuitivo, mas que ao mesmo tempo não tivesse uma regrinha. O melhor jeito de respeitar algo é desrespeitando, deixando livre. Uma boa canção sobrevive a tudo ou a quase tudo.
As duas primeiras faixas, "Um ano aos estilhaços" e "Dez de espadas", apresentam uma atmosfera de crise. Por que começar o disco justamente no lugar mais quebrado para, mais tarde, aliviar essa narrativa?
[breve silêncio, olha para o lado] Eu queria dar um caminho de entrada para quem escuta o álbum no sentido de que a crise, em alguma medida, é sempre reconhecível. Acho que todo mundo consegue lembrar episódios da própria vida em que as coisas pareceram desaceleradas, descompensadas, ansiosas… A crise dá esse caminho de entrada e de permanência no álbum. Eu não acho que o álbum não resolve nada, de certa forma, ele vai tentando pegar os pedacinhos do que foi apresentado e achar uma nova moldura pra ele. Tem uma questão também de sequenciar, pensando muito no ritmo, né. Pra esse conjunto de canções eu pensei em ter as mais [corte no áudio] agressividade no início, achei que seria um jeito interessante de sequenciar porque já trazia uma descarga de energia que depois, talvez, permitisse entrar melhor nas canções mais longas, em algumas das baladas, em instrumentais mais densos… É aquela coisa do alívio depois do choque, eu queria ter um pouco essa sensação. Eu sabia que "Pise Devagar" seria o ápice do disco porque ela tem algo meio climático que depois disso apenas um epílogo com "Cavalo Desde Ontem". Quando esse desenho fechou na minha cabeça, a sequência, eu entendi que o disco abria em crise, não pode iniciar de outra forma.
Se o disco traz uma cerimônia de retorno, para onde você está voltando?
Para uma vida que eu gosto, para as pessoas que eu gosto.
Depois de quatro anos perseguindo a concepção do disco, você sente que chegou ao lugar que você criou para a concepção do disco?
Não sinto que cheguei a algum lugar. Eu tenho muito orgulho do que eu fiz, tenho muito orgulho do álbum, mas não sei se cheguei a algum lugar planejado, se fiquei aquém ou se fui além do que poderia ter sido… Acho que eu sou péssimo jurado [risos]. Eu continuo fazendo álbum pelo seguinte motivo: eu nunca chego ao final dele arrependido de ter feito, não questiono mais do que isso.
O grito de Plath continua ecoando e, em Cães de Prata, encontra a música como outra forma de existir. Está nas frestas, nos ruídos, nas imagens que não se deixam decifrar por inteiro e nessa vontade persistente de seguir à caça de alguma coisa que possa ser amada. O que na poeta ganha garras para atravessar a noite, em Cães de Prata ganha som para atravessar os estilhaços.
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